O tratamento do acidente vascular cerebral isquêmico agudo (AVCi) é altamente eficaz, mas depende de um fator crítico: o tempo. Estima-se que, em pacientes com oclusão de grande vaso, 1,9 milhão de neurônios morrem a cada minuto sem tratamento. Por isso, reduzir o tempo entre a chegada do paciente ao hospital e o início da trombólise intravenosa (conhecido como door-to-needle time ou DTN) é prioridade em todo o mundo.
Desde 2010, a American Heart Association (AHA) vem liderando campanhas nacionais como o Target: Stroke, que conseguiu reduzir significativamente os tempos de trombólise intravenosa e estabeleceu metas cada vez mais ambiciosas: atualmente, espera-se que 85% dos pacientes recebam trombólise em até 60 minutos após a chegada ao hospital.
No entanto, um estudo publicado em JAMA Network Open, utilizando dados do Paul Coverdell Michigan Stroke Registry (que cobre cerca de 64% dos casos de AVC em Michigan), revela que, embora o telestroke aumente as taxas de trombólise, ainda existem barreiras importantes em relação à rapidez no atendimento.
O que é telestroke?
O telestroke conecta especialistas em AVC de centros de referência a hospitais menores (os chamados spokes), permitindo decisão clínica remota em tempo real. Esse modelo tem sido crucial para ampliar o acesso à trombólise em regiões onde não há neurologistas disponíveis presencialmente.
Principais achados
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Maior chance de trombólise: Pacientes avaliados por telestroke tiveram maior probabilidade de receber trombólise do que aqueles atendidos sem o suporte remoto. Isso indica que a tecnologia está cumprindo seu papel de ampliar o acesso a terapias eficazes.
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Atrasos significativos no tempo porta-agulha: Apesar do maior acesso ao tratamento, pacientes atendidos por telestroke tiveram 44% menos chance de receber trombólise dentro do tempo recomendado (≤ 60 minutos) em comparação com pacientes avaliados presencialmente. Em números absolutos, apenas 60% dos pacientes em telestroke atingiram DTN ≤ 60 minutos, contra índices muito superiores observados em hospitais com neurologistas presenciais, e bem abaixo da meta nacional de 85%.
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Impacto nos tempos de transferência (DIDO – Door-In Door-Out): Nos casos em que houve necessidade de transferência hospitalar, o telestroke esteve associado a um atraso médio de 47 minutos a mais. Em termos absolutos, o tempo DIDO foi de 166 minutos em telestroke vs 150 minutos em não-telestroke, ambos acima da recomendação atual (≤ 120 minutos para todos os casos e ≤ 90 minutos para candidatos à trombectomia mecânica).
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Resultados funcionais iniciais: Pacientes atendidos via telestroke tiveram menor chance de alta para casa e deambulação independente na alta hospitalar. No entanto, após ajustes por variáveis clínicas (como gravidade do AVC medida pelo NIHSS) e características hospitalares, essas diferenças perderam significância estatística, sugerindo que os desfechos desfavoráveis não podem ser atribuídos apenas ao telestroke.
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Pré-notificação pelo Serviço Médico de Emergência (EMS): Diferente do que se observa em hospitais com neurologistas presenciais, a pré-notificação por equipes de emergência não reduziu os tempos de DTN em hospitais com telestroke. Isso se deve, em parte, ao fato de que a comunicação atual não ativa diretamente o neurologista remoto, limitando o benefício desse recurso no modelo telestroke.
Limitações do estudo
Os autores destacam alguns pontos que devem ser considerados:
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O estudo foi realizado em um único estado (Michigan, EUA), o que pode limitar a generalização dos resultados para outros contextos.
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O registro começou a coletar dados de telestroke apenas em 2022, resultando em alta taxa de informações faltantes.
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O grupo comparador “não-telestroke” foi heterogêneo, incluindo pacientes de diferentes tipos de hospitais.
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Os desfechos funcionais foram medidos apenas na alta hospitalar (e não aos 90 dias, como em ensaios clínicos de AVC), embora estudos mostrem boa correlação entre as duas medidas.
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A análise de tempos de transferência (DIDO) teve número reduzido de pacientes, limitando a robustez estatística.
Implicações práticas
Os achados reforçam que o telestroke é essencial para garantir acesso à trombólise, especialmente em regiões sem especialistas. No entanto, ainda há um “gap” importante em termos de eficiência temporal.
O estudo aponta caminhos para reduzir atrasos:
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Integração do EMS com neurologistas remotos, permitindo que a pré-notificação acelere a ativação da equipe de telestroke.
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Padronização de protocolos de transferência inter-hospitalar, para encurtar o tempo DIDO.
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Investimento em tecnologia e treinamento nos hospitais spokes, para agilizar avaliação inicial e comunicação com o centro de referência.
O telestroke representa um avanço fundamental na democratização do acesso ao tratamento do AVC isquêmico agudo, garantindo maior uso da trombólise em locais sem especialistas. Contudo, os atrasos no tempo porta-agulha e no tempo de transferência revelam que ainda é preciso investir em protocolos, tecnologia e integração de sistemas para que o telestroke alcance todo o seu potencial de salvar neurônios e vidas.
Referência:
Stamm B, Whitney RT, Royan R, et al. Telestroke and Timely Treatment and Outcomes in Patients With Acute Ischemic Stroke. JAMA Netw Open. 2025;8(9):e2534275. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.34275

