[ editar artigo]

"Tudo vai dar certo, doutora? "

"- Tudo vai dar certo, doutora? "

Os olhos se fecham, parece um adeus. Agora a pessoa inconsciente, completamente inerte sobre a mesa, entregue.  Há no mundo maior prova de confiança? Penso que não. Sinto o peso da responsabilidade que carrego. 
Campos montados, focos acesos, tudo está em paz. O cirurgião pede a lâmina e traça um talho profundo na carne rompendo o silêncio. Instrumentos passam e voltam, entram e sai, queimam a carne, quebram os ossos, afastam as costelas. O ser humano agora está exposto. Vísceras a céu aberto. Em qualquer outra situação qualquer ser vivo estaria morto em segundos. Mas não ali, não na sua mesa. 

Enquanto isso o ser humano que habita o corpo parece ausente. Onde repousa sua alma? Parece um corpo sobre a mesa, que você corta, gira, move. Sem dor, sem vida.

 Sem vida? Não! A vida grita alto! As artérias pulsam entre os dedos que percorrem rápidos pela cavidade aberta, prontas para jorrar sangue a qualquer movimento impreciso. O coração bate forte, ali, diante dos seus olhos, movimentando todo o tórax, atrapalhando a precisão dos movimentos. Meu coração fica pequeno, acompanha o ritmo. Os pulmões, a despeito da agulha e fios que os atravessam, sobem e descem incessantemente. A vida grita! A vida é linda! A máquina mais complexa do universo. O projeto mais perfeito de Deus! Contemplo. 

Imagino a guerra interna. O trauma. O turbilhão de eventos intrateciduais e intracelulares que ocorrem nesse momento. Os vasos sendo cortados, o tecido dilacerado, células se rompendo, a arquitetura perfeita sendo destruída, todo o sistema imune sendo ativado e migrando para região na tentativa de defender o organismo, a brutal resposta ao trauma que ocorre em todos os órgãos e sistemas. O corpo luta contra você.
O caos interior grita em estado de guerra, o organismo pode colapsar. E você ali, em pé, olhos atentos, tenta remover o dano e reestabelecer a ordem. 
Parece impossível devolver tudo ao seu lugar e acordar essa pessoa. 

Ainda estaria ali sua alma?

Calmamente o cirurgião revisa a cavidade. Devolve a anatomia da melhor forma possível. Plano por plano o corte é fechado. Até o último ponto na pele. O corpo parece intacto. Mas a paz é só exterior. No interior, a guerra continua. O segundo tempo é da natureza. O corpo precisa se recompor, se restaurar, e como mágica cada coisa encontrar seu caminho, o exército de reforma trabalhará incansavelmente para elaborar a cicatriz, durante dias, meses, anos. Mas a paz existe externamente. 

O efeito da anestesia vai aos poucos se desfazendo. A alma desperta. Os olhos se abrem sonolentos. Por um minuto o coração descansa. O risco ainda existe, mas agora, por um momento, o coração sente paz. Está vivo! Tudo pode acabar bem. 

"Sim, deu tudo certo, querido."

Viviane Soares Ortiz.

TAGS

Cirurgia

Academia Médica
Viviane Ortiz
Viviane Ortiz Seguir

Acadêmica de medicina, utópica, aspirante a cirurgiã. Buscando construir a própria arte de curar.

Ler conteúdo completo
Indicados para você