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Uso de Cannabis e Resultados na Cessação do Vaping de Nicotina

Uso de Cannabis e Resultados na Cessação do Vaping de Nicotina
Comunidade Academia Médica
dez. 14 - 8 min de leitura
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Entre adolescentes e jovens, o vaping de nicotina se consolidou como a forma mais comum de uso de nicotina. Embora parte dos usuários experimente de modo transitório, existe um contingente relevante que evolui para uso regular, com sintomas de abstinência, tentativas frustradas de parar e manutenção da dependência. Apesar do reconhecimento crescente do problema como questão de saúde pública, ainda há poucas opções de tratamento baseadas em evidências para jovens que desejam interromper o vaping, e permanece especialmente incerto como o uso concomitante de outras substâncias pode influenciar os resultados de intervenções para cessação.

Nesse contexto, o estudo apresentado analisou uma pergunta prática e clinicamente frequente: o uso de cannabis, comum entre jovens que vapeiam nicotina, com estimativas de co-uso chegando a cerca de metade dos adolescentes que vapeiam prejudica as chances de parar de usar nicotina vaporizada? A hipótese parecia biologicamente plausível. Evidências pré-clínicas indicam interação funcional entre sistemas endocanabinoide e colinérgico: o tetraidrocanabinol (THC), como agonista parcial de receptores CB1 distribuídos em regiões cerebrais relacionadas à recompensa, pode aumentar propriedades reforçadoras da nicotina, como preferência condicionada e auto-administração em modelos experimentais, enquanto antagonistas de CB1 reduzem esses comportamentos. Além disso, há indícios bidirecionais de que a nicotina também pode aumentar propriedades reforçadoras do THC. Em paralelo, nicotina e THC convergem em vias dopaminérgicas mesolímbicas centrais para processamento de recompensa e dependência. Do ponto de vista comportamental e clínico, a literatura anterior é mista: alguns trabalhos sugerem que o co-uso cannabis–nicotina se associa a padrões mais persistentes de uso de nicotina e maior dificuldade de abstinência, enquanto outros não encontram essa associação. Faltavam, porém, dados especificamente voltados a desfechos de cessação de vaping de nicotina em jovens considerando padrões de uso de cannabis.

A pesquisa realizou uma análise secundária de um ensaio clínico randomizado, controlado por placebo, que avaliou a eficácia da vareniclina, farmacoterapia de primeira linha para cessação do tabaco em comparação com duas formas de apoio comportamental para cessação do vaping de nicotina, em 261 adolescentes e jovens que não fumavam tabaco combusto de forma regular (NCT05367492). No ensaio principal, a vareniclina foi associada a taxas de abstinência significativamente mais altas do que as intervenções comportamentais. Um aspecto relevante para a prática é que a maioria dos participantes relatou uso regular de cannabis no momento da inclusão. A análise secundária, então, investigou se a frequência de uso de cannabis na linha de base ou a gravidade de sintomas sugestivos de uso problemático de cannabis (avaliados nos 30 dias anteriores à inclusão) se associavam aos desfechos de cessação do vaping de nicotina e se esses fatores poderiam moderar a eficácia do tratamento, especialmente nas condições de suporte comportamental isolado, onde se supunha que efeitos cognitivos e motivacionais atribuídos ao uso frequente de cannabis, somados à possível amplificação do valor de recompensa da nicotina, poderiam dificultar a cessação.

O resultado central contraria essa hipótese: o uso basal de cannabis não se associou de forma inversa à probabilidade de alcançar abstinência de nicotina vaporizada. Nem a frequência de uso de cannabis nem a severidade de sintomas de uso potencialmente problemático mostraram efeito moderador sobre os resultados do tratamento para vaping. Em outras palavras, as chances de abstinência de nicotina foram semelhantes entre os diferentes níveis de uso de cannabis. Em contraste, a alocação para vareniclina permaneceu associada a maiores taxas de abstinência de vaping do que as intervenções de suporte comportamental, mesmo após controlar o uso de cannabis. Além disso, a atribuição à vareniclina não alterou as taxas de abstinência de cannabis, sugerindo que, nesse cenário, o benefício terapêutico observado para cessação de nicotina não se estende automaticamente à cessação de cannabis.

Do ponto de vista clínico e de saúde pública, esses achados têm implicações diretas porque o co-uso é frequente e, à primeira vista, poderia ser interpretado como “barreira” para tratamento. O estudo destaca que, embora existam mecanismos plausíveis para que o uso de cannabis interfira na cessação da nicotina, os dados analisados não sustentam essa interferência no contexto avaliado. Assim, a efetividade da vareniclina e das intervenções comportamentais para parar de vapear nicotina parece consistente através de categorias de frequência e gravidade do uso de cannabis, indicando que o uso contínuo de cannabis não deveria ser encarado como impedimento para engajar jovens em tratamento de cessação do vaping de nicotina. O texto também reforça, de maneira convergente com o ensaio principal, a eficácia da vareniclina para cessação do vaping nessa população e observa que essa eficácia se mantém mesmo quando se consideram estratos de uso de cannabis e de álcool, sugerindo que a vareniclina pode ser uma opção de primeira linha para jovens que vapeiam, independentemente do uso concomitante de outras substâncias.

Ao discutir por que não houve impacto de vareniclina sobre abstinência de cannabis, os autores apontam que os participantes não entraram no estudo com o objetivo de parar de usar cannabis e não receberam suporte comportamental voltado à redução ou cessação de cannabis, o que pode ser necessário para que qualquer efeito farmacológico se traduza em desfechos de abstinência. Isso dialoga com estudos anteriores mencionados no texto que exploraram vareniclina em transtornos por uso de álcool e por uso de cannabis, com resultados mistos, algumas pesquisas sugerindo redução de craving e quantidade de cannabis usada, mas com evidência limitada para abstinência e reforça que, no recorte específico de jovens buscando parar de vapear nicotina, não se observou ganho em abstinência de cannabis.

Como toda análise secundária, há limitações importantes: uso de cannabis e sintomas de transtorno por uso de cannabis foram autorreferidos, com risco de viés de lembrança, embora a frequência tenha sido medida por método Timeline Follow-Back  validado e os sintomas por instrumento Cannabis Use Disorder Identification Test validado. O estudo pode ter tido poder insuficiente para detectar interações mais sutis entre tratamento e padrões de uso de cannabis, ainda que os autores ressaltem não haver tendência de piores taxas de abstinência entre usuários de cannabis comparados a não usuários. Houve baixo nível de uso de álcool na amostra, o que pode limitar a capacidade de detectar efeitos do álcool nos desfechos de cessação. Não houve avaliação sistemática da via de administração da cannabis (como fumar, vapear ou comestíveis), fator que poderia influenciar efeitos de substituição em quem interrompe a nicotina vaporizada. Por fim, a generalização pode estar restrita a jovens motivados a reduzir ou cessar o vaping de nicotina e que não fumam tabaco combusto regularmente.

Em síntese, o estudo conclui que o uso regular de cannabis ou álcool, no cenário analisado, não é esperado reduzir a efetividade de oferecer vareniclina para cessação do vaping de nicotina em jovens. Diante da urgência em ampliar a disponibilidade de tratamento para cessação do vaping em adolescentes e adultos jovens e da ampla prevalência de co-uso, os achados ajudam a orientar triagem, planejamento terapêutico e mensagens de saúde pública, além de apontarem para um próximo passo lógico: investigar se intervenções integradas, desenhadas para abordar simultaneamente o co-uso de cannabis e nicotina, podem gerar benefício adicional.


Referência:

Gilman JM, Cather C, Reeder HT, et al. Cannabis Use and Nicotine Vaping Cessation Outcomes: A Secondary Analysis of a Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2025;8(12):e2547799. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.47799


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