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Violência Universitária
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Violência Universitária

O trote é um fenômeno social, cultural e histórico do meio universitário que resulta na formação de opressores em que sua maior ferramenta é a violência no meio acadêmico. Desta forma, a Federação Internacional de Associações de Estudantes de Medicina do Brasil (IFMSA Brazil) reafirma sua defesa de direitos humanos no ambiente universitário e a preservação de valores e respeito à dignidade humana, sendo contra a cultura trotista. Requisitamos às faculdades, aos discentes e aos docentes, o combate à violência no ambiente universitário e o posicionamento contra todo e qualquer tipo de opressão. Também recomendamos um processo de educação continuada e atenção à saúde do estudante de medicina, entendendo que o combate a violência institucionalizada está intimamente ligado a um processo de mudança de cultura.

CONTEXTUALIZAÇÃO

O ingresso à universidade é uma vulnerabilidade para o primeiranista, fase da vida a qual apresenta implicações na formação social, como indivíduo e como profissional. Ademais, também é uma etapa conhecida pelo acontecimento do trote, um fenômeno social, cultural e histórico do meio universitário. Muitos definem trote como brincadeira ou como visto como um rito de passagem, uma vez que algumas práticas no trote são símbolos da entrada ao ensino superior como cortar o cabelo, pintar o rosto e realizar "pedágio".

Têm-se universidades em que o trote é episódico, porém há outras instituições de ensino superior em que o trote é recorrente, persistente e violento. Nessas, o trote não é só relação entre alunos, mas entre o grupo trotista e a universidade ou, ainda, entre a instituição e os ingressantes, sendo esse contexto o responsável pela cultura trotista.

A formação de opressores é o resultado do processo do trote e sua cultura, em que se pode dividir em dois momentos: no início do ano letivo, quando o ingressante submetido ao trote terá de obedecer sem questionar, caso deseje fazer parte do grupo, do contrário serão punidos com maior gravidade e excluídos do grupo trotista; e após a seleção, o qual o aluno que obedeceu e se manteve em silêncio, será obrigado a impor trotes aos próximos ingressantes, agindo como o opressor.

Assim, o grupo trotista tem a violência como elemento essencial para sua existência e manutenção. Quando se trata de direitos humanos, a violência abrange todos os atos de violação dos direitos: civis, sociais, econômicos, culturais e políticos. É importante definir trote como violência universitária, uma vez que, ao retomar suas definições mais usadas, percebe-se a incongruência dessas: brincadeiras têm riscos compartilhados entre os participantes, já no trote, um indivíduo se torna brinquedo do outro; rito de passagem são processos de mudança de um status a outro e delimitando novos direitos, responsabilidades e deveres do grupo ingressante.

Na graduação de medicina, o trote assegura a definição hieráquica de relações de poder, transcendendo desde o ingresso a graduação até a prática médica, podendo ser causa da gênese dos problemas de saúde mental. A taxa média de prevalência de depressão entre estudantes universitários é de 30,6%, bem como a exposição à violência no ambiente acadêmico durante a formação médica tem um impacto negativo na saúde mental dos graduandos, levando ao aumento da chance de depressão leve em 75% e de depressão severa em 598% em caso de exposição à violência considerada grave.

O ensino superior incorpora conhecimento a seus estudantes a fim de colocá-lo em prática para o benefício da sociedade, mas, ao inserir violência neste processo de formação da pessoa, rompe-se o dever das instituições de ensino perante a sociedade. Não obstante, o trote ocupa o lugar da celebração pela entrada a um curso superior, em que a alegria da conquista é substituída por um esquema de poder, preconceitos, opressões e torturas. Uma prática clara de violação dos Direitos Humanos.

JUSTIFICATIVA

Desta forma, a IFMSA Brazil acredita que todo tipo de violência universitária contraria todos os seus princípios básicos, bem como sua missão, visão e seus valores. Além disso, a instituição considera que atitudes agressivas e violentas por parte dos estudantes de medicina corroboram para a disseminação de condutas discriminatórias, preconceituosas, desrespeitosas, antiéticas e que ferem os direitos humanos e perturbam o bem-estar do estudante de medicina, devendo ser, portanto, veementemente combatidas.

POSICIONAMENTO

A IFMSA Brazil tem como missão promover um impacto positivo na sociedade, a partir da prática dos valores que compreendem a união, a equidade, a cidadania, a ética e a humanização, sendo esses últimos imprescindíveis para a construção de um caráter íntegro e correto, necessário para o futuro profissional que está se formando. Em suma, a IFMSA Brazil é contra qualquer perpetuação da cultura trotista.

COMPROMISSOS

A Federação, seus comitês locais e membros devam assumir o compromisso de:

Posicionarem-se contra a violência e a opressão aos seus pares, respeitando princípios básicos de ética e cidadania;

Promoverem atividades de recepção em conjunto com a universidade;

Advogar contra perpetuação da hierarquia médica opressora no ambiente profissional, consequência da naturalização da violência aplicada no trote;

Advogar com outros órgãos estudantis contra a violência universitária a fim de tornar o ambiente universitário acolhedor e humanizado;

Desconstruir a cultura trotista em seus próprios membros através de debates, disseminação de informações, sessões nos encontros oficiais e reuniões online, principalmente próximo ao início do ano letivo.

REQUERIMENTOS

Diante de todos os seus valores, a IFMSA Brazil reafirma ser contra qualquer tipo de violência, agressão física e verbal, atitude constrangedora e vexatória aos estudantes, discriminação, abuso e relações de poder, hierarquia entre os estudantes, danos morais, humilhações e a desumanização, de modo que qualquer ação que tenha uma figura vista como superior e outra como inferior é recriminada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trote é uma violência inserida no meio universitário. Baseia-se em preconceito, humilhação e opressão e perpetuação dessas violações. Não assegura a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano proposto pela educação, faz o contrário. Permitir a perpetuação da cultura trotista no ensino superior brasileiro é um equívoco e uma grande negligência das instituições de ensino, dos discentes, dos próprios estudantes e da sociedade. Todos esses são responsáveis por combater e erradicar a cultura trotista, só possível se for uma ação em conjunto, com todas as esferas envolvidas. 

*Declaração de Política aprovada na 51º Assembleia Geral da IFMSA Brazil (Belém-Pa). Texto formatado por Kayo Gustavo (UFPA), Diretor Nacional de Diretos Humanos e Paz 2017-2018 da IFMSA Brazil. 

REFERÊNCIAS

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