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Você já ouviu falar sobre viés de publicação?

Você já ouviu falar sobre viés de publicação?

Imagine-se ocupando o posto de um renomado pesquisador de uma grande instituição científica. Você trabalha em um projeto que tem por objetivo comprovar a eficácia de determinada substância no tratamento de uma doença qualquer. E, então, após vários meses de exaustivo trabalho, a conclusão de sua pesquisa é a de que a substância em questão simplesmente não possui efeito terapêutico significativo na condição estudada. Frustrante, não? É de se pensar, inclusive, que, ao menos, tempo e recursos foram inutilmente jogados fora. Será?

Ainda imaginando tal situação, o que você faria com todo aquele trabalho já desenvolvido? Possivelmente, a primeira resposta que veio à sua cabeça foi “nada”. Isso porque não é nem um pouco usual nos depararmos com publicações que tratem de resultados negativos, nulos ou inesperados. E, se você nunca parou para pensar sob esse prisma (o que é bem provável, justamente pela razão descrita no período anterior), pasmem, esse fenômeno da comunicação científica é muito estudado e tem até nome: é chamado de viés de publicação.

As justificativas para sua ocorrência são as mais variadas. Em primeiro lugar, sabe-se que não é muito interessante para o pesquisador publicar resultados negativos, inespecíficos e até mesmo imprecisos. Isso porque, na indústria científica, esse tipo de conclusão sugere desenho inadequado do estudo, induzindo a avaliação desfavorável da pesquisa e desacreditando o autor. Sem credibilidade, o estudo perde também visibilidade, gerando, consequentemente, um menor número de citações. Com isso, o pesquisador não progride na carreira científica. Da mesma forma, os próprios periódicos (os que não são especificamente voltados para esse tipo de publicação – sim, existem alguns poucos no mundo que são exclusivamente destinados à publicação de resultados negativos, como o Journal of Negative Results in Biomedicine –), tendem a aceitar estudos com resultados positivos, já que os negativos são, como vimos, menos propensos a serem citados e, portanto, diminuem o fator de impacto ou relevância do periódico.

Ademais, a decisão da não publicação pode vir do financiador do estudo. É sabido que os patrocinadores de pesquisas podem ser tendenciosos para os resultados que favorecem seus interesses. De maneira concreta, as grandes fontes de financiamento usam de sua influência para facilitar a publicação de resultados favoráveis ou reter a publicação de resultados desfavoráveis. Como prova disso, tem-se, em números, que, “curiosamente”, os estudos financiados pela indústria têm levado a resultados positivos com muito mais frequência do que os que são financiados ou realizados por agências independentes.

Das implicações que esse fenômeno acarreta, é possível identificar algumas mais e outras menos evidentes. A mais óbvia delas é, digamos, a duplicidade de dispêndios. Ora, se você, renomado pesquisador daquela grande instituição científica, simplesmente abandonar seu projeto sem publicá-lo, certamente, em algum outro momento, outro pesquisador iniciará um projeto igual ou parecido e, inevitavelmente, chegará ao mesmo resultado negativo, consumindo o mesmo tempo e recursos e atrasando avanços reais naquela temática.

Além dessa, tem-se outra um pouco menos explícita, que inclusive é alvo de grandes estudos e pode ser ainda mais preocupante. Ela diz respeito à influência exercida pelo viés de publicação em revisões sistemáticas com ou sem metanálises, especialmente as de intervenção. Explicando: esses estudos (revisões sistemáticas de intervenção) são produzidos por meio da análise de um conjunto de ensaios clínicos de mesma matéria e têm como finalidade aprimorar a conduta estabelecida em determinada situação. Diante disso, considerando a influência do viés de publicação, ou seja, que a maioria desses ensaios publicados se apresentam como sendo apenas resultados positivos, infere-se que a conclusão final da revisão intervencionista também estaria corrompida e alheia à realidade.

Portanto, diante da importância desse tema, é imprescindível que você, leitor, caso seja um pesquisador (ainda que não renomado e nem de uma grande instituição científica), não deixe de lado as conclusões negativas ou inesperadas de seus trabalhos. Afinal, esses resultados também são sinônimos de conhecimento e se concretizam como sendo importantes fontes de aprendizado para a comunidade. Isso, é claro, se forem publicados.

 


Referências:

Fanelli D. Negative results are disappearing from most disciplines and countries. Scientometrics. 2012;90(3):891-904.

Meis L, Velloso A, Lannes D, Carmo MS, Meis C. The growing competition in Brazilian science: rites of passage, stress and burnout. Braz J Med Biol Res [Internet]. 2003 [acesso 04 setembro 2019]; 36(9):1135-41. Disponível em: http://ref.scielo.org/9mkvgr

Sterne JAC, Egger M, Moher D. (Editors). Chapter 10: Addressing reporting biases in Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions (eds. JPT Higgins and S Green). Version 5.0.1 [updated September 2008]. The Cochrane Collaboration.

Academia Médica
Lucas de Paula Guedes
Lucas de Paula Guedes Seguir

Acadêmico do curso de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso e integrante do grupo Programa de Educação Tutorial (PET) Medicina UFMT.

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