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William Harvey - Prefiro andar em círculos!

William Harvey - Prefiro andar em círculos!

Em minha segunda publicação na Academia Médica, nós abordaremos e faremos uma comparação entre duas distintas teorias da circulação sanguínea no corpo humano. A mais antiga, se passa cerca de 2 mil anos atrás. Certamente a compreensão da fisiologia, a forma como o corpo humano funciona, não era a mesma dos dias atuais. O médico greco-romano Cláudio Galeno, foi um dos grandes expoentes desses tempos, seus ensinamentos foram considerados verdadeiros até pouco tempo atrás. 1400 anos depois dele, na Inglaterra do século XVII, sob uma enxurrada de críticas, William Harvey comprova algo que hoje pode parecer óbvio: o sangue circula dentro do nosso corpo!⠀

Como Galeno via a fisiologia cardiovascular? 

O que de fato o Harvey comprovou e como ele fez isso?

Como esse mecanismo funciona atualmente?⠀⠀⠀⠀⠀

Caso prefira, ouça esse texto no Spotify ou no seu agregador de podcast favoritos. Busque por: Historynemia.

Até o início do Renascimento, os ensinamentos de Hipócrates, Aristóteles e Galeno eram ainda muito utilizados como material didático no ensino médico, tanto na Europa, quanto na Ásia. Muito utilizados não quer dizer exatamente que fossem os únicos, já que povos islâmicos, hindus, egípcios, entre outros, também tinham seus autores com teorias disseminadas pela Europa e inclusive traduzidas para o latim.

Algumas ideias que hoje podem parecer mirabolantes, há 400, 500 anos, ou até menos, eram tidas como verdade. O coração era considerado o sol do microuniverso chamado corpo humano, órgão misterioso, desconhecido e por muito tempo, incompreensível. Um dos principais anatomistas desses tempos, Girolamo Fracastoro, certa vez afirmou que o movimento do coração poderia somente ser conhecido por Deus, já que a cinética cardíaca era muito confusa e rápida como um raio.

Quem se atrevia a estudá-lo, geralmente fazia suposições imprecisas e com pouco ou nenhum embasamento científico. Acreditava-se que a função do coração seria gerar calor, fabricar espíritos e nutrir o corpo com alimento e espíritos vitais. Galeno acreditava que a então vena arteriosa, (atual artéria pulmonar) seria responsável por levar nutrientes aos pulmões, já que ela nasce no lado direito do coração. Acreditava que as artérias venosas (atuais veias pulmonares) trariam ar dos pulmões ao coração, esse ar seria utilizado como matéria prima na fabricação dos espíritos, e ao mesmo tempo, durante a fabricação dos espíritos, parte da fuligem gerado nesse processo voltaria por esses mesmos vasos pra ser eliminada na expiração.

Tinha um cara que se perguntava: Ok, mas como o corpo vai saber o que é espírito, o que é ar, o que é fuligem? Como o organismo sabe o que tem que ir, o que tem que vir? O que deve ser aproveitado e descartado? Algo não se encaixa nessa história e eu vou estudar isso mais de perto! O nome desse cara? William Harvey!

William Harvey

William Harvey nasceu no dia 1 de abril de 1578, em Folkstone, Inglaterra. Filho de Joan Halke e Thomas Harvey, com 15 anos de idade terminou o ensino médio na King 's School em Canterbury e foi pra cidade de Cambridge estudar artes, que era um pré-requisito pra entrar no curso de medicina. Uma vez obtido tal bacharelado ele entrou no curso de medicina, mas não em Cambridge ou Oxford, que eram as duas universidades já disponíveis na Inglaterra, ele decidiu estudar na universidade de Pádova, na Itália, super conceituada, e que aliás foi frequentada por grandes cientistas de várias áreas, médicos famosos, seja estudando, seja dando aula. 

Entre eles, Andrea Vesalius, o revolucionário anatomista belga, Gabrielle Falópio, o próprio Fracastoro, Galileu Galilei e vários outros. O Harvey se formou em 1602.  

Depois de se formar ele volta pra sua terra natal e vai atrás de tirar sua credencial no London College Of Physicians, mas os caras a princípio deram uma segurada nele, por ele ter se formado "no estrangeiro". Na realidade não existia nenhuma lei que o impedisse de atuar na Inglaterra, mas o colégio médico londrino sempre dava uma dificultada para os médicos que não haviam se formado em uma das duas universidades inglesas já disponíveis. Ele poderia exercer em qualquer lugar da Europa, mas não poderia exercer facilmente em sua terra natal. Em 1607, depois de 3 tentativas ele finalmente consegue revalidar o seu diploma e fica e fica apto pra exercer a medicina no seu país.

Alguns anos antes de sua aprovação ele se casou com a filha do do médico do rei, Elisabeth Browne, isso significa que ele tinha acesso ao pessoal da alta sociedade, ele foi fazendo o network dele e em 1609 conseguiu um trabalho no Saint Bartholomew's Hospital, onde ele trabalharia por mais de 20 anos e realizaria muitas de suas pesquisas, além disso, também tinha em sua rotina atendimentos particulares. Em 1618 ele era médico extraordinário do rei James e depois passa a ser médico do rei Charles, a quem ele dedica seu principal trabalho, que nós vamos esmiuçar neste texto, que foi publicado no ano de 1628. Exercitatio Anatomica De Motu Cordis et Sanguinis in Animalibus, que significa Estudo anatômico sobre o movimento do coração e do sangue nos animais.

Se compararmos aos dias de hoje, fica claro que ele cometeu alguns erros, já que, ele não contava com uma tecnologia tão avançada quanto a que nós temos hoje, o que ele fazia era basicamente dissecções, vivissecções, ou seja, ele abria o peito do animal ainda vivo pra observar o funcionamento por dentro e depois escrevia sobre isso. Mas também não era assim tão aleatório, ele seguia alguns fundamentos que foram estabelecidos por Aristóteles lá atrás.

Na época, a teoria mais aceita quando o assunto era funcionamento do coração, havia sido descrita mais de 1000 anos antes por Cláudio Galeno. Pra te ajudar a entender melhor tanto a teoria galênica quanto a teoria harviniana eu vou te explicar como de fato funciona a circulação do sangue pelo corpo. No instagram e no facebook que é o @historynemia eu disponibilizei, no post referente a esse texto, uma imagem que ajuda a ilustrar esse movimento.

Caso você não possa olhar a imagem agora, imagine um quadrado! isso mesmo, um simples quadrado flutuando na sua frente. Agora esse quadrado é um coração! O coração, a gente sabe, é uma bomba que tem como função distribuir o sangue pra todo corpo, até a ponta do dedão do pé. Essa bomba é formada por quatro cavidades ou quatro câmaras, então agora você imagina uma cruz, um sinalzinho de mais, dentro desse quadrado, ao imaginar isso nós temos o coração completo com suas duas cavidades superiores e duas inferiores.

Quando o coração bate, o sangue oxigenado sai pelo quadrado inferior esquerdo, viaja por todo o corpo através das artérias, passa por todos os órgão internos, pela pele, vai deixando esse oxigênio e depois começa a voltar. Mas o sangue não volta de mãos vazias não, ele está trazendo o dióxido de carbono que ele pegou nos órgãos enquanto ele deixava o oxigênio e seu objetivo é chegar lá no quadrado superior direito. Ou seja, ele saiu pelo inferior esquerdo, passou por todas as partes, foi lá no dedão e chegou de volta pelo superior direito onde ele só dá uma passadinha rápida e já cai diretamente no inferior direito.

Do inferior direito tá na hora do sangue sair do coração de novo, mas ao invés de ir lá pro dedão, antes, ele dá uma passadinha rápida pelo pulmão, deixa o dióxido de carbono que ele vinha trazendo pega mais oxigênio novinho e volta pro superior esquerdo. Depois ele cai no inferior esquerdo e o ciclo se reinicia. Essa é a circulação do sangue no corpo, isso acontecerá milhões de vezes durante a sua vida. Então resumindo: fica tipo uma “letra  X” sai pelo inferior esquerdo, volta pro superior direito, desce, sai pelo inferior direito, pulmão, superior esquerdo, depois inferior esquerdo e tchau…

Anatomicamente falando, os dois quadrados superiores são chamados átrios, enquanto os inferiores são chamados de ventrículos. Quando o sangue sai do ventrículo esquerdo pela artéria aorta, o maior vaso do corpo humano, vai pro corpo e volta pro átrio direito nós chamamos isso de circulação sistêmica ou circulação maior, enquanto esse trajeto do ventrículo direito, pulmões, átrio esquerdo é chamado circulação pulmonar ou menor. Beleza, isso é a verdade hoje, já está estabelecido, não existe nenhuma dúvida. Show!

A fisiologia cardiovascular segundo Galeno

O corpo humano é dividido em 3 ventres: abdômen, tórax e cabeça e cada um desses tem uma função vital e também seu órgão chefe. No ventre cabeça o principal órgão é o cérebro, que seria responsável pelas chamadas funções animais. Para o Cláudio Galeno, o cérebro receberia informações vindas do ambiente, tendo como porta de entrada o nariz, os ouvidos, os olhos e etc. Também seria o responsável por fabricar sensações e pela razão. Após terem sido fabricados no cérebro com a ajuda das artérias cerebrais, os espíritos eram conduzidos pelos nervos e iriam controlar os músculos, por exemplo. Aqui se a gente substitui a palavra espíritos por potencial de ação ou impulso nervoso, até que faz bastante sentido.

No homem galênico o abdômen é outro ventre, esse espaço serve para função de excreção, reprodução e nutrição. Seu órgão chefe é o fígado e sua função é originar as veias e produzir parte do alimento que nutre o corpo. Ele dizia que depois das refeições o alimento seria supostamente cozido no estômago, posteriormente passaria para o intestino, no intestino a parte que de fato era nutritiva seria atraída pelas veias mesentéricas, depois iriam pra veia porta até alcançarem o fígado. De fato! Em partes isso está absolutamente certo, os nutrientes realmente passam pelo intestino, são absorvidos pela mucosa intestinal e partem pro fígado pelos vasos que o Galeno citou. De novo, se a gente substitui a palavra cozimento, por digestão, também faz total sentido. Digestão, que é basicamente a conversão de macromoléculas a micromoléculas, essa descrição dele de quase dois mil anos atrás está bem perto da realidade.

Hoje a gente sabe que o fígado exerce várias funções, entre elas, armazenamento, de vitaminas, ferro por exemplo, síntese de nutrientes, uma certa função de filtragem do sangue que se parece com a dos rins, vários fármacos são degradados no fígado, ele também pode atrapar alguma eventual bactéria que tenha alcançado a corrente sanguínea através da via intestinal…É um verdadeiro laboratório extremamente complexo.

O Galeno disse que o fígado, tendo recebido o quilo intestinal, também seria o responsável pela fabricação do sangue que corre nas veias, mas exceto por um breve período da vida fetal, hoje sabemos que isso não procede. As células sanguíneas, os glóbulos vermelhos e brancos são fabricados na medula óssea. Focando um pouco mais no sistema vascular, segundo ele o corpo tem 2 sistemas sanguíneos independentes, o venoso e o arterial. O venoso começa no fígado, lembre-se que aqui nos encontramos em um mundo em que o ventre do abdômen é o lugar de nascimento das veias. O coração é praticamente só mais um órgão no meio do caminho.

 Após sair do fígado depois ter sido fabricado e chegar na veia cava (veia cava inferior nesse caso), o fluxo sanguíneo toma duas direções é equivalente a artéria aorta, é um vaso bem grosso que entrega o sangue pro coração depois dele ter dado todo aquele rolê pelas partes inferiores do corpo). Galeno acreditava que ao sair do fígado,e chegar na cava o sangue seguiria por duas direções, uma parte ia subir pra cabeça e outra parte desceria pros pés, para nutrir os membros inferiores. Se ele tivesse observado as válvulas venosas, logo eu vou abordar esse tema, ele provavelmente não teria tido essa concepção. Nesse trecho ele descreveu exatamente o oposto, do que de fato acontece. O fluxo sanguíneo é unidirecional, quando sai do fígado, e também depois de ter nutrido a parte inferior do corpo, ele sobe em direção ao coração, vários órgãos estão desaguando na veia cava inferior, o fígado é só mais um deles. 

E eu digo subindo, pois na posição anatômica padrão, o ser humano é representado de pé. Só pra deixar claro, o sangue chega da cabeça ao coração pela veia cava superior, depois de ter nutrido o cérebro com oxigênio, a rota de subida até o encéfalo se dá pelas artérias carótidas.

Ok, então tendo sido fabricado pelo fígado, agora esse sangue venoso precisa ser aperfeiçoado, precisa ser aprimorado e é aí que entra o ventre tórax, gerenciado pelo coração. O coração deveria receber esse sangue, lapidar e distribuí-lo e isso seria feito nos ventrículos. O direito, após receber o sangue hepático, deveria refinar esse sangue e enviá-lo para o esquerdo. Como o Galeno não acreditava em circulação sanguínea ele disse que o sangue simplesmente atravessa a parede que separa os dois ventrículos através de uma porosidade, uma permeabilidade existente ali, aqui ele comete um erro claro, já que em situação normal não existe essa comunicação interventricular via septo.

Mas não para por aí, além de refinar, o ventrículo direito enviaria parte desse sangue com nutrientes, com a comida propriamente dita para o ventrículo esquerdo, que ao mesmo tempo recebia o ar dos pulmões, ou o pneuma, como eles chamavam e utilizando esse ar como matéria prima fabricava os espíritos vitais, e os espíritos vitais produziriam o calor e depois distribuía isso através do corpo pelo sistema arterial.

Ainda que seja meio complicada essa teoria, ainda que possa parecer incongruente, ela é extremamente interessante, e lógica, não é porque ela não está certa que não há sentido. Elaborar uma teoria dessas, que na verdade tem até alguns outros detalhes além dos que eu estou te dizendo aqui, com poucos recursos, como esses caras fizeram, exige uma capacidade criativa, interpretativa, bastante aguçada. 

Não só do Galeno, aí tem dedo do Aristóteles, do Erasístrato, tem corpus Hipocratticum, são algumas gerações de filósofos e estudiosos tentando entender como nosso corpo funciona. O Erasístrato é um cara que viveu na Grécia há uns 2300 anos, ele acreditava que corria ar dentro das artérias e não sangue. Confesso que eu levei um tempo pra entender essas idéias, reli o texto várias vezes, e era exatamente isso que supostamente acontecia. Estariam interconectados o cérebro e os nervos, o coração e as artérias, o fígado e as veias.

Resumindo de uma forma mais direta! O fígado fabrica o sangue venoso e dá início ao sistema de veias, o ventrículo direito, aquele quadrado de baixo no nosso imaginário coração recebe esse sangue, aperfeiçoa e manda uma parte pro esquerdo através de uns buraquinhos que existe entre os dois e uma outra parte vai pro corpo levando comida. A parte que o esquerdo pega ele mistura com o ar que veio dos pulmões e usa pra fazer espíritos vitais e calor, e também manda isso pro corpo pelas vias arteriais.

Agora que entra algo que começa a chamar a atenção do Harvey. Como eu disse há pouco, o Galeno não acredita em circulação sanguínea, então pra ele, uma vez que o sangue venoso sai do fígado, e o arterial sai do coração, um novo líquido vital será produzido, e esse que uma vez saiu, nunca mais retornará.

Segundo se acreditava na época o coração não exercia nenhum efeito propulsor através de contração, o coração não era visto como um músculo, não era visto como uma bomba, nada disso. Hoje nós sabemos que o motivo pelo qual o sangue deixa o coração é a demanda nutricional dos órgãos por nutrientes, principalmente glicose e oxigênio. Mas esse, nem sempre é o motivo que a fisiologia da antiguidade dá pra saída do sangue do fígado e do coração. A causa deles é muito mais nobre, é devido ao “horror ao vazio'' que a natureza tem.

É possível a gente perceber facilmente que durante a inspiração, quando a gente puxa o ar pra dentro, a nossa caixa torácica vai aumentando de tamanho conforme os pulmões vão se enchendo de ar. Segundo a fisiologia antiga, o tórax primeiro se expandia, assim, do nada e depois o ar entrava pra preencher o tal do vazio que natureza não gosta. Além de ser usado para fabricar espíritos, esse ar também vai servir pra dar uma refrigerada no ventrículo esquerdo e não deixar ele ferver. 

OK, até aqui, o sangue saiu do coração pra levar a comida e os espíritos para órgãos, uma vez que esse sangue alcançou o órgão agora ele precisa entrar no parênquima do órgão, no miolo pra de fato ir lá tapar o vazio. A existência dos capilares, que são os menores vasos do corpo humano, são muito mais finos que um fio de cabelo era ainda desconhecida, até porque os caras ainda não tinham microscópios bem desenvolvidos pra observar essas coisas. Mas de qualquer modo, eles suspeitavam da existência disso. Fato é, que de alguma forma, o sangue tem que entrar no órgão e esse movimento de entrada era comparado ao das marés na praia.

Sabe quando você está na praia, a onda vem, sobe na areia e volta para o mar? Na verdade ela não volta 100%, porquê uma pequena parte dessa água é absorvida pela areia, dá pra perceber a areia “sugando” a água. O Galeno partia desse princípio, como se a carne dos órgãos fosse a areia e o sangue fosse a maré,consequentemente, acontecia essa absorção pra tapar o vazio. Não tinha nada a ver com demanda nutricional, eles desconheciam as células, não existia esse conceito de que várias células formam um órgão, esse órgão com mais alguns outros formam um sistema e vários sistemas unificados formam um organismo. Sem um microscópio eficaz, realmente não teria como eles chegarem a esse nível de detalhe. O Antonie van Leeuwenhoek, foi um holandêns que melhorou bastante o microscópio. Ele viveu na mesma época que Harvey.

Uma vez que o sangue chegava no interior do órgão e tapado o vazio, algum resíduo deveria sair dali, a saída se dava por duas rotas, uma seria através da expiração pulmonar e a outra seria através da pele, que pra eles também respirava. Durante o relaxamento, as artérias aumentariam seu calibre e nessa o ar seria recolhido da atmosfera pra dar uma refrescada nas partes distais do corpo, mais afastadas do coração. Durante sua constrição a artéria diminuiria seu calibre, se tornava mais fina, e "espremia'' os vapores e os restos de fuligem que surgiram na hora de fabricar os espíritos. Isso foi verdade por mais de um milênio, não foi do dia pra noite que desbancaram essa teoria!

Então é o seguinte, como até então não havia circulação, isso significa que o sangue em si, a massa, o vermelho sangue pneumático não necessariamente saía dos órgãos, no máximo o que saía era a tal da fuligem, eles obviamente desconheciam a molécula de oxigênio, e hoje nós sabemos que a pele não respira coisa nenhuma, não se envolve com fazer o chamado intercâmbio gasoso, isso é trabalho dos alvéolos lá nos pulmões. Quando a gente aceita esse discurso surge uma dúvida: se o fluxo sanguíneo faz um caminho só de ida, por que os órgãos não ficam inchados? Por que os órgãos não explodem de tanto receber sangue? É isso que o menino Harvey vai nos explicar!

A fisiologia segundo William Harvey

Por volta dos séculos XV, XVI, XVII, a tecnologia usada para fazer ciência, quando se compara aos dias atuais, era rudimentar, o próprio método científico era praticamente inexistente. Na área médica o acesso a cadáveres era restrito, os conhecimentos anatômicos proviam basicamente das semelhanças existentes entre órgãos humanos e de animais, como porco, cachorro, carneiro e etc.

Uma coisa que o Harvey gostava de fazer era estudar os chamados animais de sangue frio, como sapos, serpentes e peixes, por exemplo, segundo ele, nesses animais, o coração bate mais devagar que o de mamíferos grandes. Durante seus estudos, suas vivissecções ele foi percebendo que quando estava em um estado de relaxamento, o coração era macio, meio flácido e durante a contração ele ficava mais duro. 

Ele também notou mudanças na forma do coração: Lateralmente, da direita pra esquerda o coração diminuía de tamanho e longitudinalmente, de cima pra baixo ele aumentava de tamanho, ficava mais comprido. Segundo ele, nesse engrandecimento o coração tocaria os ossos da costela e supostamente produziria o batimento que escutamos. Para o Galeno a bulha cardíaca se originaria no momento exato em que o coração se enche após a ebulição do sangue. Nesse ponto ambos se equivocaram, já que o ruído cardíaco é produzido pelo fechamento das válvulas cardíacas, são estruturas que ajudam a manter um sentido unidirecional no fluxo sanguíneo. Lembrando, que além do Galeno, muitos outros médicos não acreditavam no batimento cardíaco como força propulsora.

Para eles a saída do sangue do coração era devido ao fato de o coração ser muito quente, e quando o sangue caia nos ventrículos esse sangue entrava em ebulição, literalmente fervia e nisso os vapores provenientes da ebulição dilatariam o coração e o sangue era expelido. 

Isso é o mesmo que acontece quando você tem uma panela bem quente e joga uma gota de água nela. A gota ferve, instantaneamente sobe aquele vaporzinho e desaparece. Pra eles isso é o que acontece dentro do coração. Uma outra coisa que facilitou para Harvey o entendimento do bater do coração, foi sua evidente mudança de cor. Em diástole, durante seu relaxamento, o coração é vermelho por causa do sangue em seu interior. Durante a sístole, momento de contração do músculo, o coração se empalidece, já que seu conteúdo é expelido.

Outra observação que ajudou Harvey a ir montando esse quebra-cabeças cardiovascular, foram nove anos de estudos até a publicação do livro, foi o fato de as artérias refletirem a situação do coração, quer dizer, se o coração fica débil as artérias também ficam, se uma artéria é perfurada, dá pra perceber que ao mesmo tempo o que o coração bate o sangue espirrando voa mais longe, se o coração para, as artérias imediatamente deixam de pulsar. Ele foi juntando todas essas observações e foi formulando seu discurso.

O Harvey também conseguiu perceber a contração atrial. Por muito tempo, o direito por exemplo, foi visto apenas como um receptáculo de sangue, como se fosse uma espécie de dilatação da veia cava, mas o Harvey cuidadosamente observou que os átrios mandam o sangue para os ventrículos e daí segue o fluxo. Uma das válvulas cardíacas que eu disse a pouco está aí, entre um átrio e um ventrículo, quando o átrio bate ela abre para o sangue passar ao ventrículo e quando o ventrículo bate ela fecha impedindo o sangue de voltar pro átrio, ou para os quadradinhos superiores desse nosso coração imaginário.

Alguns estudiosos da época como  Caspar Bauhin e  Jean Riolan, o filho, já tinham até observado o movimento atrial, a diferença é que eles acreditavam em 4 movimentos, um pra cada cavidade, bem rapidinho, mas  Harvey afirma corretamente que são dois movimentos, primeiro os átrios, ambos isocronicamente e depois os ventrículos.

Agora voltando naquela pergunta anterior: por que os órgãos não explodem já que eles não param nunca de receber o sangue vindo do fígado? Uma das respostas pra essa pergunta seria dizer que o sangue está circulando, claro. Mas a teoria galênica descarta, ou não considera essa possibilidade, essa só resposta só é válida quando já se tem o conhecimento da teoria proposta por Harvey, coisa que antes de 1600 e pouco praticamente não existia.

Até agora, tudo o que prega a teoria harviniana é bonito, faz total sentido, entretanto Harvey precisa fazer algum experimento, pra demonstrar isso, e pra de fato comprovar suas suposições ele vai se embasar em três pilares. O argumento quantitativo, o experimento com ligadura e a demonstração da utilidade das válvulas venosas. Eu vou discutir cada um desses pilares agora, mas eu te digo antes que a resposta pra essa pergunta está no argumento quantitativo. 

Desconsiderando a possibilidade de circulação, a única possibilidade de não explosão de órgãos se dá quando se admite que a quantidade de sangue liberada a cada batimento é mínima, algo como uma mísera gotinha ou até menos.

Vale lembrar que o De Motu Cordis, como ficou conhecido o livro de Harvey, foi publicado em 1628, durante o renascimento, que basicamente foi aquele momento de reforma artística, literária, científica e etc. Foi um movimento muito forte na Itália, também associado ao fim da Idade Média. No âmbito científico, por exemplo, o método cartesiano exemplifica um pouco esse pensamento de reformas, é uma tentativa de padronizar a fórmula utilizada quando se procura reconhecer algo como verdade absoluta, como uma ciência propriamente dita.

O método consiste em levantar uma dúvida, um questionamento sobre algo, depois evidenciar isso, demonstrar de alguma forma. O René Descartes aconselha que na vida a gente não deve acreditar em algo logo de cara, antes de uma demonstração metodicamente realizada, documentada tudo certinho. As diretrizes, vamos dizer assim, sugeridas por ele, vão contribuir demasiadamente ao surgimento do método científico ou sua evolução, e nesse contexto, nessa época também está associado a um momento em que a explicação religiosa pra todas as coisas começa a perder força. 

De certa forma o método cartesiano é ainda utilizado hoje em dia pra fazer ciência, ainda que com vários acréscimos. O método científico é algo complexo, amplo, cheio de regras éticas e acadêmicas, que devem ser rigorosamente seguidas e validadas.

Tá, mas por que eu estou falando tudo isso? Porque Descartes cita Harvey na parte 5 se eu não me engano de Discours de la Méthode, que é o livro “Discurso do Método'', em português e que foi publicado 9 anos depois que Harvey publica sua obra em Frankfurt. É nesse livro que o Descartes propõe o método e é aí também que ele fala a famosa frase penso, logo existo. Na verdade, ele não chega a citar o nome de Harvey, mas ele escreve algo como “um médico da Inglaterra”, depois ele descreve alguns dos experimentos feitos por Harvey.

O médico inglês,  observando a espessura da parede ventricular e dos vasos que chegam e saem do coração, hipotetizou que a quantidade de sangue expelida pelos ventrículos não seria pouca coisa não. A aorta por exemplo tem uns 2 cm de diâmetro. E como na hipótese dele, a quantidade de sangue seria grande, ele entendeu como impossível que tal quantidade fosse fabricada diária, e tão rapidamente, como deixava a entender a fisiologia da antiguidade. Uma vez estabelecida a hipótese de que “mais de uma gota de sangue seria expelida a cada pulsação”, agora, Harvey partiria para a realização de experimentos, etapa fundamental quando se tem a intenção de se fazer uma constatação científica. Harvey usa de uma forma bem interessante a quantificação matemática, ao medir principalmente em animais de porte parecido com o ser humano, a quantidade de sangue que caberia em cada ventrículo. Ele conclui que o ventrículo humano suportaria 57 g de sangue e a cada batimento, pelo menos 1,8 g teria que ser ejetado.

Através das pulsações arteriais e do próprio batimento cardíaco, ele considerou então que o coração bateria 33 vezes por minuto, ou seja, em 24 h mais de 80 kg de sangue teriam que deixar o coração. Considerando que o sangue faz somente o caminho de ida, pra manter esse fluxo, o indivíduo teria que comer pelo menos uns 80 kg de comida por dia. Convenhamos né.

Esse 1,8 g que  Harvey considera o valor expelido pelo coração, ou pela câmara inferior esquerda, é o que nós chamamos na fisiologia moderna de fração de ejeção. Percentualmente falando essa 1.8 g corresponde a 3% do sangue que cabe no ventrículo usado por ele e ainda que essa proporção esteja completamente equivocada, foi suficiente pra provar que não é possível o corpo receber toda essa quantia num caminho só de ida, durante 24 h. A termos médios a fração de ejeção é de 60% o coração de um adulto em repouso bate de 60 a 100 x por minuto.

Esse argumento quantitativo por si só já foi bem esclarecedor, mas o Descartes, aparentemente, não levou esse trecho dos estudos do inglês em consideração, o filósofo francês insiste na propulsão cardíaca através da ebulição do sangue. Ele concorda plenamente com o movimento circulatório mas discorda que a fração de ejeção seja maior que uma gota!

Uma das coisas que ajudou o Harvey a chegar no argumento quantitativo foram as vivissecções, isso quer dizer que ele abria o peito dos tais animais de sangue frio, talvez de mamíferos, enquanto eles ainda estavam vivos, talvez ele tivesse 2 minutos pra observar, 5 minutos, e era assim que ele conseguia analisar a cinética cardíaca. Ele levou muito em consideração na hora de formular sua hipótese o espessor dos vasos próximos ao coração, talvez, pra ele essa observação era a  que mais evidenciava o que ele queria provar. Ele fez diversas apresentações, mas talvez essa não fosse a mais convincente do ponto de vista prático.

No entanto os outros experimentos foram bem práticos, com uma didática bem simples e muito conclusiva, agora, o René Descartes usa até um tom algo elogioso ao falar desses métodos. 

Um dos mais práticos é experimento com ligadura (também conhecido como torniquete, alguns chamam de garrote), que consiste na amarração de um cadarço no braço de um voluntário, um pouco acima do cotovelo. Ao fazer isso, Harvey dividia o braço em duas partes: uma que ia do torniquete até a mão, passando pelo cotovelo e outra parte que ficava do torniquete pro ombro. Quando ele apertava esse laço, até o máximo que a pessoa pudesse aguentar algumas coisas interessantes começavam a acontecer. 

Do cadarço pra baixo não havia pulso arterial, o braço ia ficando pálido, meio azulado e em silêncio vamos dizer assim. Já do cadarço pra cima, as artérias começavam a inchar e a cada sístole, a cada batimento cardíaco, elas iam ficando mais e mais cheias, com uma pulsação que se tornava cada vez mais violenta. Ok. Quando ele afrouxava o nó o sangue arterial atravessava para o lado da mão e a coloração avermelhada logo voltava, mas ele ainda não havia soltado a ligadura 100%, agora estava em um nível médio. Nesse momento o que acontecia era o seguinte:

Os vasos que se inchavam eram as veias, consequência do impedimento que o sangue encontrava na hora de retornar pro coração. Ou seja, ele afrouxou o suficiente pro sangue arterial passar pro lado da mão e de uma maneira insuficiente pro sangue venoso retornar. Bingo! O sangue sempre quis ir pra frente, em sentido único, o arterial pra chegar nos dedos da mão, por isso as artérias quase explodiam e uma vez que o sangue chega na mão e deixa o oxigênio, ele não quer nada além continuar indo pra frente, mas agora com o objetivo de voltar pro coração carregando o dióxido de carbono, e como havia uma ligadura no meio do caminho impedindo a passagem de volta as, veias é que se dilatam nesse momento. Esse experimento é considerado épico quando se fala da fisiologia harviniana.

Não menos importante, o terceiro pilar seria a demonstração da utilidade das válvulas venosas. Uma vez que o sangue desce lá pros pés ele precisa subir de volta pro coração, vamos considerar um ser humano de pé, o ventrículo esquerdo é quem vai bombeando esse sangue lá para baixo. Eu te disse antes que o ventrículo esquerdo é um músculo muito forte, sua parede tem uns 2cm de grossura, mas ele também não faz milagre né!? Quando o sangue passa do sistema arterial de ida, para o sistema venoso de volta, o coração passa a contar com umas ajudinhas pra dar conta do recado, a gravidade é algo que passa a jogar a contra.

Uma das ajudas que o coração recebe vem da própria estrutura do vaso, os vasos são distensíveis, eles tem o poder de se tornarem mais frouxos ou mais resistentes, conforme as necessidades fisiológicas do organismo, tipo quando você coloca o dedo na ponta da mangueira em que está saindo água na hora de molhar as plantinhas. O que você faz é diminuir o diâmetro da saída e isso faz com que a pressão ali aumente e a água seja expelida com mais força. Eu não sei se você já brincou de estilingue, mas aquela borracha que a gente amarra no cabo do estilingue pra esticar, soltar e atirar a pedra, se assemelha muito a um vaso sanguíneo no que diz respeito a textura. As artérias são mais resistentes e menos expansíveis que as veias, justamente pra poder receber o jato vindo do forte ventrículo esquerdo. Então essa maleabilidade dos vasos é super importante pra manter uma circulação sanguínea satisfatória.

Uma outra ajuda que o coração recebe vem das panturrilhas. A batata da perna é formada pelos músculos gastrocnêmios e sóleus, e entre desses músculos existe uma veia chamada poplítea, conforme andamos esse grupo muscular espreme essa veia e faz ela jogar o sangue lá pra cima. 

A última ajuda que vou listar, foi a descrita e demonstrada por Harvey, que são as válvulas venosas. Colocando em termos médios elas se encontram a 10 cm uma da outra e seu modo de funcionamento é super simples. Quando o sangue vai passar elas se abrem e depois que o sangue passa elas se fecham. Esse fechamento é fundamental para que não haja um fluxo retrógrado do sangue.

Pra demonstrar a efetividade desse sistema, Harvey fez o seguinte: pegou um pedaço de veia de uns 20 cm, colocou em cima da mesa e enfiou um objeto dentro dela, vamos imaginar um cotonete. Quando ele enfiava o cotonete dentro da veia no mesmo sentido que o sangue fluía o cotonete ia que era uma beleza, mas se ele tentasse puxar o cotonete pra trás o cotonete não voltava de jeito nenhum, justamente porque as válvulas, com sua arquitetura projetada pra impedir o fluxo sanguíneo de volta, não deixavam.

Harvey vs Hofmann

Certa vez o Harvey foi convidado pra dar uma palestra na cidade Altdorf na Alemanha, ele viu nesse convite uma ótima oportunidade pra expor e disseminar suas idéias sobre a circulação. Nesse congresso estaria presente o Casper Hoffman, um dos principais médicos da época. Esse alemão era um dos alvos Harvey já que ele tinha autoridade suficiente para espalhar de forma positiva essa notícia e a partir daí,  inevitavelmente, surgiriam melhoramentos na compreensão da fisiologia humana, novas possibilidades de tratamentos de doenças e por aí vai.

O problema é que o Hofmann não acreditou em nada do que Harvey disse, muito pelo contrário, na verdade ele seria um de seus maiores críticos. Depois de assistir a demonstração, Hoffman inicia seus questionamentos através de correspondências enviadas ao médico inglês. A contrariedade do germânico baseava-se principalmente em duas perguntas, a primeira era uma parada mais filosófica e abstrata: Se o movimento é circular, qual é o seu propósito? Já a segunda foi algo mais anátomo-fisiológica mesmo: Harvey, se é que o sangue passa das artérias para as veias no interior dos órgãos, como é feita essa transição?

Na prática, o que  Hofmann fez foi rebater o argumento quantitativo afirmando que o Harvey estaria acusando a natureza de supostamente trabalhar em vão. Ora, por que o coração vai expelir 80 kg de sangue por dia, sendo que os órgãos não precisam de tudo isso e só uma gotinha de sangue já é suficiente pra mantê-los?

Além disso, Hofmann e outros céticos, vários outros céticos, essa ideia do Harvey foi muito polêmica, ele estava contrariando várias gerações de médicos, anatomistas, filósofos, enfim. Esses caras diziam que seria impossível Harvey saber exatamente a fração de ejeção, uma vez que o coração não se contraia coisa nenhuma e a propulsão seria devido a ebulição do sangue caindo no ventrículo quente, e pro alemão isso é algo impossível de ser quantificado.  

Harvey de fato não descreve a circulação capilar, isso jogou contra ele, ele também não sabe explicar o motivo pelo qual o sangue circula, ele prova que circula mas não diz o porquê, e seus críticos usam essa brecha, com toda razão, pra questionar ele. Os capilares, lembrando, são aqueles vasinhos bem pequenos que compõem essa zona de transição artéria-órgão-veia. Em relação a isso, Harvey acreditava na porosidade da carne, que seriam os pequenos buraquinhos tipo uma esponja, ou até algum tipo de união entre artérias e veias, ou seja, ele chegou a desconfiar disso mas como ele não tinha a sua disposição um microscópio pra poder comprovar isso, ele também não ficou fazendo muita questão, pois o seu objetivo com o De Motu Cordis foi descrever a circulação sanguínea. Quem nos confirmou a existência dos capilares foi o Marcelo Malpighi, mais de 30 anos depois do lançamento do livro do Harvey.

 Harvey também passou longe de descrever a hematose, o processo de intercâmbio de oxigênio por gás carbônico nos pulmões, e não no coração como eles achavam, ele também não fala nada sobre a necessidade aeróbica dos tecidos, o que ele faz é apenas dizer que o mesmo sangue que sai do coração, uma hora acaba voltando.

Em uma carta de resposta, Harvey pergunta para  Hofmann como ele poderia não aceitar a passagem do sangue pela carne de alguns órgãos, já que o Hofmann aceitava sim que o sangue passava por dentro do fígado durante o trajeto entre os intestino e o coração. 

Talvez o Harvey tenha pensado: Poxa, o Hofmann sabe que o sangue atravessa o fígado e segue viagem pro coração, mas não quer acreditar que outros órgãos são suscetíveis ao mesmo fenômeno. Uma hora ele fala que a matemática não serve pra estudos anatômicos, depois ele fala que não tem como quantificar a fração de ejeção, mas ao mesmo tempo ele diz que a fração de ejeção é baixa. Eu hein! 

O Harvey, aparentemente não se importava com as críticas, e questionamentos, e quando decide falar algo a respeito, ele basicamente pede pro Hofmann ler o estudo de novo e repetir ele mesmo os experimentos que o Harvey já havia feito. Isso é um ponto pro Harvey, quando você consegue repetir o experimento várias vezes é bom, se outras pessoas em outros lugares também conseguem, isso é ótimo, significa que estamos bem perto de uma verdade verdadeira.

Isso que o Hofmann e outros fizeram, esse ceticismo, o fato de ele questionar o Harvey é fundamental pra existência da ciência, não devemos apenas pegar no pé do alemão achando que ele é o vilão da história! Quanto mais questionamentos aparecem e mais esses questionamentos são descartados ou respondidos, mais sólida a verdade vai se tornando. Hoje em dia se você quer publicar um artigo numa revista científica séria, esse artigo sempre será submetido a uma revisão por especialistas independentes que vão fazer de tudo pra achar alguma possibilidade de equívoco, mas não por uma questão de pirraça e sim pra dar mais credibilidade ao tema. É a chamada revisão por pares. E se eles encontram alguma divergência isso também é útil pra ciência.

Mas há quem diga que a intenção do Hofmann não foi exatamente essa, talvez tenha sido puro conservadorismo, ou algo assim, já que aparentemente as respostas dos Harvey seriam procedentes e conclusivas.

No último capítulo do De Motu Cordis o Harvey compartilha com o leitor algumas constatações meio aleatórias: Ele fala sobre coração de tartaruga, lagartos, caracóis, lembre-se que o título do livro é, sobre o movimento sanguíneo in animalibus, ele também deixa esse espaço, pra poder falar de outras espécies. Ele continua, fala sobre o desenvolvimento do pintinho no ovo da galinha, diz que alguns animais que não possuem pulmões tem um coração só com 3 cavidades como o dos peixes… 

Ele afirma também que se o cara é forte e musculoso o coração também será, diz que o coração das mulheres é algo mais delicado que o dos homens, (aqui ele errou feio). Depois ele descreve os músculos papilares, diz que nos zoófitos, uma classificação já obsoleta para os chamados animais plantas, como ostras, mexilhões e vermes, não tem coração e que pela forma que eles se movimentam, o corpo inteiro é usado como um coração e que na verdade esse animais não passam de um grande coração.

Se agente quiser, dá pra dizer que o Galeno quase identificou a circulação pulmonar, ele sabia que o sangue parte do ventrículo direito pela artéria pulmonar até os pulmões e que vem dos pulmões pelas veias pulmonares e alcança o coração. Mas ele acreditava em dois movimentos distintos e independentes.

Uns 350 anos antes do Harvey, o médico islamico Al-Nafis descreve o coração como bomba e fala sobre a circulação sanguínea, descrevendo-a ao contrário, ele erra o sentido. Existe até uma discussão entre historiadores se o Harvey teria tido ou não acesso a esses textos, uma vez que eles já circulavam pela Itália traduzidos pro latim uns 50 anos antes do De Motu Cordis. Outro cara, o italiano Andrea Cesalpino, anatomista, botânico, filósofo, que foi médico do Papa Clemente VIII, postula no fim do século XVI a circulação pulmonar. O Servetus também aborda esse tema, Realdo Colombo.

O William Harvey é muito respeitoso ao citar Galeno, ao discordar dele, inclusive o chama de pai dos médicos, ele diz entender a dificuldade que o Galeno teria enfrentado pra acompanhar o trajeto dos grandes vasos do coração uma vez que eles entram no hilo pulmonar. Talvez se o Galeno tivesse entendido e aceitado o momento de contração, o batimento cardíaco, ele teria deduzido que não seria tão improvável assim, a possibilidade de o sangue atravessar os pulmões e retornar pro órgão chefe da cavidade torácica.

Ainda que eu tenha mencionado nessa discussão alguns equívocos do Galeno, vale ressaltar, que são vários os argumentos que o tornam um dos médicos mais importantes que já existiu, ele escreveu vários livros que foram utilizados por séculos como referência didática, esses livros foram usados até o século XVIII, XIX por aí, foram a verdade por quase dois mil anos.

Algo que favoreceu o Galeno a lograr um bom conhecimento, que era praticamente inexistente no seu tempo, o Galeno que viveu no século II por aí, foi o fato de ele ter sido médico de gladiadores, ele trabalhava no campo de batalhas, então ele fazia amputações, atendia o soldado que tomou flechada, espadada, e certamente durante esses atendimentos ele conseguia dar uma olhadinha dentro do corpo pra ver o que estava acontecendo. Ele soube aproveitar muito bem isso.

Harvey, apesar de acreditar e respeitar os ensinamentos galênicos, de Aristóteles, e dessa rapaziada mais antiga, teve autonomia intelectual suficiente pra discordar dos caras quando ele julgou necessário e teve perspicácia pra fazer seus experimentos. 

Agora, se ele foi o primeiro, se ele descobriu ou não a circulação do sangue é difícil dizer com exatidão, até pelos exemplos de postulações anteriores a ele que foram citados, e a verdade é que isso também não importa muito. O fato é que ele demonstrou e comprovou a existência, isso sim ele fez. O William Harvey viveu bastante para os padrões da época, ele veio a falecer no dia 3 de junho de 1657 aos 79 anos.

Ele também fez vários estudos sobre a concepção e o desenvolvimento embrionário de mamíferos, estudou o tecido muscular, ele também estudava os rins, buscou uma forma de tratar tumores de um modo seguro. Estudou nutrição.

Algo que nos impede de ter um maior conhecimento sobre a vida do Harvey, é o fato de no ano de 1666 ter ocorrido o Great Fire of London um famoso e enorme incêndio em Londres, e nesse fogaréu todo que atingiu a cidade, parte do Royal College of Physicians foi destruída, vários de seus trabalhos estavam numa biblioteca nas dependências do edifício.

Além disso, ele era um cara muito cauteloso, enquanto ele não conseguisse encontrar maneiras de comprovar e demonstrar o que ele estava dizendo, ele não se sentia à vontade para publicar. No fim das contas, o que se sabe é que ele publicou 3 livros. Além desse que foi discutido nesse texto, ele também publicou o Exercitatio Anatomica De Circulatione Sanguini, onde ele da outra pincelada sobre o sistema cardiovascular, de 1649, o Exercitationes de Generatione Animalium, de 1651, que ele fala sobre geração animal, e depois, já nos séculos XIX e XX, alguns fragmentos de seus manuscritos foram encontrados e transformados em livro, a descrição do tecido muscular está em um desses.

Pela sua nobre atenção eu agradeço, até o próximo dia 8, valeu!! 

Referências:

Ramos, C. WILLIAM HARVEY: Vida e Obra (2.a Parte), ACTA MEDICA PORTUGUESA 1992: 5:559-563

REBOLLO, R. A.: .A difusão da doutrina da circulação do sangue: a correspondência entre William Harvey e Caspar Hofmann em maio de 1636. História, Ciências, Saúde . Manguinhos, vol. 9(3): 479-513, set.-dez. 2002.

REBOLLO, R. A.: Estudo anatômico sobre o movimento do coração e do sangue nos animais, William Harvey Médico Real e Professor do Colégio Médico de Londres FRANKFURT 1628, CADERNOS DE TRADUÇÃO, n. 5, DF/USP, 1999.

Neder JA. Cardiovascular and pulmonary interactions: why Galen's misconceptions proved clinically useful for 1,300 years. Adv Physiol Educ. 2020 Jun 1;44(2):225-231. doi: 10.1152/advan.00058.2020. PMID: 32412380.

Hall, J. E. (2015). Guyton and hall textbook of medical physiology (13th ed.). W B Saunders.

CAMPOHERMOSO-RODRIGUEZ, O F et al . William Harvey, Ibn Al-Nafis y Miguel Servet descubridores de la circulación sanguínea. Cuad. - Hosp. Clín.,  La Paz ,  v. 59, n. Especial, p. 69-81,   2018.

Discurso do método / René Descartes ; tradução, prefácio e notas de João Cruz Costa, professor de filosofia da Universidade de São Paulo. - [Ed. especial]. - Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2011. (Saraiva de bolso) Tradução de: Discours de la méthode

Netter, Frank H. 1906-1991. Atlas of Human Anatomy. Seventh edition. Philadelphia, PA: Elsevier, 2019. Print.


 

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Academia Médica
Luan Gustavo
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Estudante de medicina em Santa Cruz, Bolívia. Apaixonado por livros, história e esportes.

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