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Saúde digital ou e-Saúde?

Saúde digital ou e-Saúde?

Digital Health ou e-Health?

Com o avanço da tecnologia, muitos setores têm mudado o modo como operam, buscando amparo na inovação para encontrar soluções mais eficientes. No setor da saúde não é diferente.

Trazendo uma cultura do que consideramos como tecnologia alguns anos atrás, muitos termos são batizados para designar uma área ou tendência, na tentativa de resumir um conceito em apenas uma palavra ou uma frase, englobando o mundo da tecnologia e saúde, como informática em saúde, e-Saúde (e-Health), Saúde 4.0 e agora Saúde Digital (digital Health).

Vários autores e organizações elaboraram as suas definições do que é Saúde Digital (o termo mais novo), na tentativa de organizar esse conceito flexível e adaptado que sempre está em uma contínua transformação.

Esse excesso de termos confunde mais que organizam as ideias, pois de forma subjetiva ela impõe características discriminantes para cada termo. Se dermos um Google em busca por esses termos será comum inclusive nomeá-los como a mesma coisa. Cada um desses termos vem ganhando cada vez mais espaço nos debates sobre o futuro da medicina no mundo, mas é necessário singularizar como deve ser chamado todo esse processo.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde digital como o uso da tecnologia da informação e comunicação no apoio à saúde e a áreas relacionadas à saúde.  

Já a Healthcare Information and Management Systems Society (HIMSS), maior entidade de saúde digital no mundo, amplia bastante seu conceito, como “a saúde digital conecta e dá poder às pessoas e às populações para gerenciar a sua saúde e bem-estar, ampliado por equipes de saúde acessíveis e solidárias, dentro de um ambiente de cuidado facilitado pelo digital, também sendo um ambiente flexível, integrado e interoperável, que estrategicamente impulsiona as ferramentas digitais, tecnologias e serviços para transformar a assistência. O termo e-Saúde transformou-se muito mais em algo relacionado ao dado (Data Lake) usado ou gerado na saúde por meios “tecnológicos”.

Leia também: Riscos e oportunidades de grandes empresas de tecnologia no setor da saúde

Ao mesmo tempo em que a OMS trouxe o conceito de Saúde digital, apresentou a concepção de intervenção digital na saúde como uma tecnologia digital que atua na mudança da saúde, seja na assistência, na gestão ou mesmo na pesquisa e ensino.

Esse complemento amplia substancialmente a dimensão de que as tecnologias digitais podem e estão intervindo, mudando, transformando a saúde.

Várias tecnologias foram desenvolvidas especificamente para o setor de saúde, portanto são parte integrante da Saúde Digital os sistemas de informação em saúde (hospital, radiologia, imagem, comunicação, prontuário eletrônico médico e de saúde), telemedicina, apoio à decisão clínica, Interoperabilidade de sistemas e Internet das Coisas Médicas (IoMT).

Ao longo do tempo, a saúde foi incorporando tecnologias de outras áreas, visando automatizar fluxos e processos, gerando controles e informações, com o intuito de colaborar com a melhora dos sistemas de saúde, como a Enterprise Resource Planning (ERP), Inteligência Artificial, Analytics e aplicativos.

É evolutivamente natural a absorção pela área de saúde de processos que a fazem ser mais assertiva e eficiente, não somente na área de tecnologia, como é o caso da metodologia Lean, que surgiu da fábrica de automóveis da Toyota no intuito de reduzir custos e tempo basicamente, ou da Six Sigma da fábrica de celulares da Motorola no intuito de reduzir a variabilidade dos processos, ou da Agile por engenheiros no intuito de acelerar entrega de serviços de qualidade, entre outros.

A saúde digital é um conceito multidimensional que se transforma e evolui com base no momento em que nos encontramos e nas tecnologias em constante evolução.

Como a discussão de uma caracterização unificada dos termos relacionados à tecnologia da saúde vem se desenvolvendo há mais de duas décadas, a introdução da Saúde digital como um termo guarda-chuva pode ser benéfica para a integração de conceitos relacionados, mas ainda não representa o nosso momento, por mais vislumbre que a adição do digital cause.

Ou seja, tornou-se óbvio que as interações interdisciplinares, multidisciplinares e transdisciplinares de conceitos contribuem para uma dinâmica, que exige a necessidade constante de redefinir termos, mas para a saúde ainda é falha.

Existem várias tentativas de solidificar esse tema abrangente, embora ainda não tenha sido estabelecida uma definição universal, formal e abrangente, incluindo terminologia comum para saúde digital. Esse aspecto sempre foi um desafio comum no campo da tecnologia em saúde, porém acredito que estamos nos apegando muito mais a dados objetivos para caracterizar algo subjetivo que muda constantemente.

Entendam que a melhor definição considera aspectos muito interessantes que vão além da tecnologia, com foco no indivíduo e na população, na saúde e na doença. Além disso, tem na interoperabilidade um elemento chave. Fala ainda sobre ferramentas digitais num sistema de saúde integrado e interoperável. Em resumo: pessoa, tecnologia e saúde.

Se seguirmos a lógica de tecnologia, o aparelho de eletrocardiograma ou o estetoscópio, quando eles surgiram, em 1902 e 1816 respectivamente, foram considerados o que era de mais tecnológico nas suas respectivas eras.

Novos aparelhos foram desenvolvidos no caminho, incluindo o raio-X, no entanto a saúde não mudou de nome, apenas sofreu uma evolução, como tudo na história da humanidade. Ainda, seguindo a mesma lógica, se eu tenho uma empresa qualquer e crio um setor chamado “tecnologia” insinua-se que todos os setores da empresa não são voltados para a tecnologia, apenas esse setor.

Além do mais, estamos cercados de produtos digitais por todo o lado, claro que alguns voltados para a saúde de forma direta, mas a maior parte delas não são voltadas para a saúde, mas impactam de forma profunda, apesar de indiretamente, nosso bem-estar físico, mental, social, emocional e espiritual, o qual compõe o conceito de Saúde pela OMS.

Poderia dizer que a resposta sobre qual melhor termo denomina a saúde atualmente não é fácil de responder, porém olhando para história da tecnologia na saúde e que ela não é algo atual, refletindo sobre as constantes futuras mudanças que a tecnologia vai continuar nos impactando, analisando a tecnologia digital atual e seu impacto no nosso completo e absoluto bem-estar, em todos os aspectos de nossas vidas, acredito que o termo mais perfeito e correto já possuímos e usamos. Assim como Agile, Lean, Six Sigma, por exemplo. A Saúde digital e e-Saúde são somente os processos utilizados no pensar e no fazer.

O que existe realmente é o telegerenciamento do processo do cuidado e o uso do digital e da tecnologia para deixar mais eficiente e assertivo o método para tal, afinal tudo hoje é digital, do contrário é arcaico e está fadado à substituição, exceto pelo SER humano. Assim, chamar atenção por algo ser digital deixou de ser relevante. E o termo perfeito que amplia para um cuidado humano e empático é apenas saúde, sem penduricalhos.

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Albert Bacelar de Sousa
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Médico Intensivista, Professor Universitário, Coordenador UTI, Instrutor Simulação Realística, Programador Python, Professor Health Design Thinking, MBA Gestão em Saúde, Educação, Empreendedorismo e em Tecnologias em Saúde, Ex-Mergulhador de Resgate

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