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Outubro Rosa e a Telemedicina como forma de aumentar o rastreamento para o Câncer de Mama

Outubro Rosa e a Telemedicina como forma de aumentar o rastreamento para o Câncer de Mama

Outubro é marcado e conhecido como o mês que traz os famosos lacinhos rosa nas roupas e a iluminação de prédios e monumentos públicos com a cor que remete ao universo feminino. É o outubro rosa, movimento internacional dedicado a luta contra o câncer de mama. Movimento esse que teve início nos Estados Unidos na década de 1990, onde alguns estados possuíam ações isoladas no combate à doença. Data dessa época, também, o surgimento do famoso lacinho rosa, quando a Fundação Susan G. Komen for the Cure lançou e fez a distribuição do pequeno adorno aos participantes da primeira Corrida pela Cura, realizada em Nova Iorque.

Foi em 1997 que, de fato, começaram de forma efetiva a ocorrer ações voltadas a prevenção desse tipo de câncer, que segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA) é o mais incidentes nas mulheres no mundo, com 2,1 milhão de novos casos em 2018, representando a quinta causa de morte por câncer em geral, e a causa mais frequente de óbito por câncer na população feminina.

No Brasil, a primeira ação sobre a campanha foi a iluminação em rosa do Mausoléu do Soldado Constitucionalista (Obelisco do Ibirapuera), localizado em São Paulo, em 02 de outubro de 2002. De lá para cá outros monumentos passaram a ganhar a cor rosa em outubro e outras ações passaram as ser realizadas, como campanhas de conscientização, mutirões para realização de mamografia e a difusão cada vez maior sobre a importância da mulher conhecer seu corpo e realizar o autoexame (embora, hoje, seja fato conhecido que quando encontra algo no autoexame a mulher já pode se encontrar em estágio avançado, caso a patologia esteja presente em seu organismo).

O câncer de mama mais comumente cursa com o aparecimento de um nódulo, na maioria das vezes indolor, duro e irregular na mama, embora possa também ocorrer com nódulo brando, globoso e bem definido. Podem aparecer ainda sintomas como edema semelhante à casca de laranja, retração das mamas, dor, hiperemia e secreção papilar, por exemplo (INCA). Além disso, em alguns casos, podem ser encontrados linfonodos axilares palpáveis.

Projeções do INCA estimavam cerca de 66 mil novos casos em 2020 no Brasil, o que indica uma incidência de aproximadamente 62 casos a cada 100.000 mulheres. Já que a incidência dessa doença cresce de forma progressiva com o passar da idade é necessário que medidas de prevenção e rastreio precoce sejam buscadas, para que, dessa forma, seja possível a realização de um diagnóstico o quanto antes. Nessa linha temos a mamografia de rastreamento, que é indicada pelo Ministério da Saúde a partir dos 50 anos, devendo ser realizada a cada dois anos até a mulher completar 69 anos. Algumas sociedades médicas, como a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), recomendam que o exame tenha sua realização iniciada a partir dos 40 anos.

Assim como qualquer exame, a mamografia de rastreamento apresenta benefícios (como a chance de detecção precoce da doença e com isso a instituição de um tratamento precoce), assim como também apresenta alguns pontos ruins (como a possibilidade de ocorrer um resultado falso positivo). Por isso é importante que a paciente esteja em contato direto com seu médico e que esse leve em conta não apenas o exame em si (que como a classificação diz é complementar), mas todo o histórico da paciente. É preciso enxergar o paciente como um todo e com isso praticar a medicina centrada na pessoa.

No entanto, quando olhamos de forma mais cuidadosa para a realização da mamografia no Brasil percebemos que estamos distantes da realidade ideal. Dados publicados pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) trazem que em 2017 apenas 24,1% das mulheres que deveriam realizar o exame pelo Sistema Único de Saúde (SUS) o fizeram, quando o recomendado é no mínimo 70%. E se isso já era preocupante os dados que foram apresentados agora em 2020 não nos animam muito. Matéria publicada pelo Correio Braziliense mostra que a quantidade de mamografias realizadas pelo SUS sofreu queda de 47% de 2019 para 2020. A CNN traz que durante a pandemia do novo coronavírus os exames vêm apresentando queda de até 75%.

Esses índices mostram os impactos que a pandemia pela qual passamos vem causando. No início da pandemia a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que mulheres assintomáticas não realizassem a mamografia de rastreamento durante a pandemia como forma de evitar uma exposição ao novo coronavírus. No entanto, surge aqui uma questão importante: não seria esse exame justamente para essa população que não apresenta sintomas? Além disso, passados quase 7 meses de pandemia, como gerir essa situação e oportunizar que as demais doenças possam continuar sendo acompanhadas, identificadas e tratadas?

Dados do Observatório de Oncologia mostram que o Brasil conta com mamógrafos em quantidade suficiente para o atendimento a mulheres na faixa dos 50 a 69 anos. Onde estará então o problema? Inicialmente podemos citar a distribuição irregular desses equipamentos, que em alguns cenários estão concentrados nos grandes centros. Outro ponto é sobre o gerenciamento deles, sendo que hoje ocorre uma falta de mão de obra qualificada para operá-lo. Diante disso, como resolver essa questão?

Uma das maneiras, talvez, seja através da telemedicina, ferramenta que vem ganhando cada vez mais espaço durante essa pandemia.  Falo dessa ferramenta de forma um pouco mais ampla no texto "Telemedicina: ferramenta do futuro para a Saúde. Será?", publicado aqui mesmo na Academia Médica.

No caso do rastreamento do câncer de mama, uma alternativa possível seria um investimento no treinamento para que mais profissionais soubessem operar o mamógrafo e através da telemedicina laudos serem realizados à distância através de plataforma. Dessa forma não seria necessária a presença de forma presencial de uma equipe completa no local onde está situado o mamógrafo. Tendo isso em mente seria possível levar mamógrafos para regiões mais distantes do País, como áreas rurais que hoje são desprovidas dessa tecnologia. A partir da realização do exame, este seria disponibilizado via plataforma digital para que profissionais a distância pudessem realizar a correta interpretação e laudar o exame, que seria devolvido ao profissional que se encontra na área rural, por exemplo, para que esse informasse à paciente. Isso aumentaria o acesso da população a essa tecnologia e propiciaria que casos que hoje passam despercebidos fossem diagnosticados de forma precoce e com isso que mais mulheres tivessem a chance de realizar um tratamento precoce, aumentado, assim, suas sobrevidas.

Outra forma de atuação da telemedicina é através da educação em saúde. Nesse caso, especialmente nas condições que a pandemia nos impõe em que faz-se necessário o distanciamento social, uma alternativa seria a criação de canais através dos quais a população pudesse se conectar com os profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) para conversar e tirar dúvidas sobre a doença, seus fatores de risco, manifestações clínicas e formas de investigação. Aqui encontramos a barreira, novamente, da pouca mão de obra disponível para essa frente de atuação. No entanto, esse trabalho poderia ser realizado em parceria com as Instituições de Ensino Superior da área da saúde, nesse momento de pandemia em que o acesso ao exame decresceu de forma considerável, cujos estudantes encontram-se afastados de suas atividades presenciais. Por ser uma forma de atuação remota, esses poderiam realizar essa atividade de suas casas e ainda seria possível a busca por uma forma da Instituição utilizar isso na composição dos currículos dos acadêmicos.

Como discutimos no texto citado anteriormente a telemedicina não é a ferramenta do futuro para a saúde, mas sim um instrumento que precisou que existisse uma pandemia para poder ser colocado em uso. Sua função não é a de substituir a relação médico-paciente presencial (já percebemos com inúmeros exemplos da história que isso não é possível), mas sim o de ampliar o acesso da população aos serviços de saúde e com isso oferecer a chance de que mais pessoas sejam acompanhadas e de que mais tratamentos sejam iniciados de forma precoce. Usemos então dessa ferramenta importante como forma de ampliar o atendimento aos nossos pacientes. E usemos também como forma de aumentar a participação no processo de educação em saúde. Seja para pacientes. Seja para profissionais.

E você, já experimentou a telemedicina enquanto profissional e/ou paciente? Então conte aqui pra gente e vamos trocar experiências. Até a próxima!

 


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Referências:

BEZERRA, Héllyda de Souza et al. Avaliação do acesso em mamografias no Brasil e indicadores socioeconômicos: um estudo espacial. Revista Gaúcha de Enfermagem, [s. l.], p. 1-9, 2018.

SILVA, Gulnar Azevedo et al. Detecção precoce do câncer de mama no Brasil: dados da Pesquisa Nacional de Saúde, 2013. Rev Saude Publica, [s. l.], v. 51, ed. 1, p. 1-9, 2017.

https://www.sboc.org.br/noticias/item/1250-cobertura-de-mamografia-fica-em-24-1-no-brasil-bem-baixo-dos-70-recomendados (Acesso em 08 de outubro de 2020).

https://observatoriodeoncologia.com.br/mamografos-para-rastreamento-do-cancer-de-mama-no-brasil/ (Acesso em 08 de outubro de 2020).

https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/10/01/exames-de-mamografia-tem-queda-de-ate-75-na-pandemia-de-covid-19 (Acesso em 08 de outubro de 2020).

https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2020/10/4880645-numero-de-mamografias-realizadas-pelo-sus-cai-47--de-2019-para-2020.html (Acesso em 08 de outubro de 2020).

https://www.sbmastologia.com.br/noticias/mamografia-no-brasil-o-pior-cenario-dos-ultimos-cinco-anos/ (Acesso em 08 de outubro de 2020).

https://saude.abril.com.br/medicina/numero-de-mamografias-realizadas-pelo-sus-e-o-menor-dos-ultimos-cinco-anos/#:~:text=Um%20levantamento%20da%20Sociedade%20Brasileira,(ou%2024%2C1%25) (Acesso em 08 de outubro de 2020).

http://www.oncoguia.org.br/conteudo/estatisticas-para-cancer-de-mama/6562/34/ (Acesso em 08 de outubro de 2020).

https://www.femama.org.br/site/br/noticia/o-cancer-de-mama-em-numeros (Acesso em 08 de outubro de 2020).

https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-mama (Acesso em 08 de outubro de 2020).

http://www.outubrorosa.org.br/historia.htm (Acesso em 08 de outubro de 2020).

https://www.inca.gov.br/controle-do-cancer-de-mama/conceito-e-magnitude#:~:text=O%20c%C3%A2ncer%20de%20mama%20%C3%A9%20o%20mais%20incidente%20em%20mulheres,por%20c%C3%A2ncer%20em%20mulheres%201 (Acesso em 08 de outubro de 2020).

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Leonardo Cardoso
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Acadêmico de medicina, cursando o 10º período pelas Faculdades Pequeno Príncipe. Sonho com uma Saúde mais humanizada, equitativa e de qualidade, além de gostar muito de ler e escrever.

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