[ editar artigo]

Telemedicina: ferramenta do futuro para a Saúde. Será?

Telemedicina: ferramenta do futuro para a Saúde. Será?

O ano de 2019 terminou com o mundo acompanhando a ascensão de um novo patógeno. Com o surgimento de casos na província de Wuhan (China), o mundo voltou seus olhos para o fenômeno que logo começaria a se espalhar pelo mundo. Tratava-se do novo coronavírus, que recebeu o nome técnico de Sars-Cov-2. Algumas semanas se passaram até que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarasse que estávamos, na verdade, diante de uma pandemia. Essa situação, atípica, levaria com que nós repensássemos nossas atividades e buscássemos novas formas de cumprir as tarefas de nosso dia a dia, as quais antes pareciam tão simples.

Em nosso País diversas iniciativas foram tomadas tendo como base a prevenção e o combate do novo vírus, como campanhas de conscientização sobre o uso de máscaras, sobre a higienização das mãos, além do distanciamento (em alguns momentos isolamento) social. Ainda, foi necessário suspender algumas atividades presenciais, como as atividades educacionais que migraram para o ambiente remoto.

Ao mesmo tempo em que medidas eram tomadas fora dos centros de saúde visando a prevenção ao contágio pelo novo coronavírus (que possui elevada taxa de transmissibilidade), dentro deles foi necessário buscar maneiras de manter o atendimento da população ao mesmo passo em que a segurança delas e de profissionais eram mantidas. Em alguns casos tem sido necessária a presença do profissional e dos pacientes de forma muito próximas, devido aos casos serem de emergência. É o que chamamos de linha de frente. No entanto, quando o caso do paciente é eletivo e pode ser manejado à distância, por que não o fazer?

Pensando nisso, uma das medidas adotadas foi a criação de central de informações, através das Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, cujo objetivo foi a orientação dos pacientes sobre seus casos, além de buscar sanar as dúvidas que por ventura surgissem. Outra medida foi a possibilidade, mediante autorização do Conselho Federal de Medicina (CFM), para que profissionais de saúde pudessem atender à distância pacientes cujos casos permitissem essa forma de abordagem. Essas formas de atendimento foram possíveis de serem implementadas graças a telemedicina.

Trazendo que ela é a troca de informações referentes à saúde entre diferentes locais através das tecnologias de informação e comunicação (TICs), Bueno et al. (2020) mostram que a telemedicina pode ser uma alternativa para à saúde naqueles locais em que há poucas formas de acesso aos serviços de saúde. Por sua vez, Schmitz et al. (2017) complementam essa ideia mostrando que os objetivos dessa ferramenta são a educação em saúde, prevenção, diagnóstico precoce e intervenção em tempo hábil. Ao olharmos para os estudos de Campos e Ferrari (2012), podemos extrair que algumas das vantagens da telemedicina é a diminuição dos gastos com os atendimentos presenciais, sendo que o acesso e a comunicação entre populações mais afastadas dos centros de saúde são facilitados por esse método.

A telemedicina vem crescendo em todo o mundo, sendo que sua primeira utilização nos leva a 1906 quando Einthoven realizou uma consulta eletrocardiográfica pelo telefone. Anos mais tarde, em 1950, ocorreram novas experiências, as quais foram significativas, como as transmissões de monitoramento eletrocardiográfico e eletroencefalográfico entre centros de serviços de saúde especializados nos Estados Unidos, Canadá e Austrália. Aqui no Brasil sua utilização tem o início datado em 1990 quando laudos de eletrocardiogramas começaram a ser feitos à distância.

Ao longo dos últimos anos vários grupos tentaram emplacar a telemedicina em nosso país como forma de ampliar o acesso à Saúde. No entanto, essa encontrou a resistência de alguns segmentos, tendo sido necessária a chegada de uma pandemia para que fosse, de fato,  regulamentada pelo CFM e, posteriormente, pela Lei nº 13.989/2020, a qual dispõe sobre o exercício da telemedicina durante a pandemia da Covid-19. O principal objetivo aqui é que ocorra o desafogamento de hospitais e centros de saúde, através da utilização de suporte tecnológico para a realização de videoconsultas.

Tal medida contribui para, por exemplo, o acompanhamento daqueles pacientes que necessitam de cuidado contínuo, mas que podem receber esse à distância, possibilitando a prática do isolamento social (uma das medidas mais eficazes no combate à doença), protegendo, assim, paciente e profissional de saúde.

A telemedicina, depois de muita discussão e barulho ao longo de anos, vem se mostrando essencial aos serviços de saúde e à promoção e prevenção em saúde, sendo uma prática que não terminará quando esse período pelo qual passamos cessar, mas permanecerá como mais uma forma de se fazer saúde. Isso pode ser observado através do complemento à Lei 13.989/2020, publicado no Diário Oficial da União (DOU), que traz a permissão para que o CFM regulamente a prática da telemedicina após o período de crise causada pela pandemia.

E aqui surge um questionamento interessante: até que ponto a telemedicina é uma ferramenta do futuro que veio para ficar? Não seria ela uma ferramenta do presente, a qual estava a espera apenas de algo que a possibilitasse entrar em cena?

A utilização da telemedicina durante a pandemia tem demonstrado que ela é uma ferramenta fundamental para democratizar o acesso da população à saúde, especialmente quando pensamos, por exemplo, no Brasil que é um país de dimensões continentais e com diversas diferenças entre suas regiões. Além disso ela pode proporcionar que diferentes profissionais possam estabelecer comunicação e com isso reduzir, por exemplo, o tempo de espera que as pessoas enfrentam nas filas por um exame ou consulta com especialistas. Além disso, com a possibilidade de receber diagnósticos a distância é possível oportunizar que os pacientes iniciem de forma mais precoce seu tratamento e com isso obtenha maiores chances de assertividade no curso de sua doença.

É preciso, além disso, estar atento a outros pontos que envolvem a telemedicina, como o acesso da população a essa ferramenta. É preciso ter em mente que a telemedicina não é uma substituição da consulta presencial, mas sim mais uma forma de se fazer Saúde e que quando não for possível sua utilização (acesso a internet e equipamentos, por exemplo), é necessário lançar mão de outras formas de se chegar até os pacientes. Ainda é preciso lembrar que será necessária a elaboração de uma nova legislação para a implementação da telemedicina no período pós-pandemia.

Novas tecnologias surgem a cada dia sendo importante utiliza-las para a ampliação da promoção do acesso à saúde. Para tanto é importante que profissionais e futuros profissionais se familiarizem com essas novas tecnologias e que possuam a disposição de lançar mão de seus usos em seu cotidiano clínico. É fato que quando escolhermos a área da saúde, muitos de nós a fez pela oportunidade de diariamente estar perto de nossos pacientes, podendo olhar em seus olhos, ouvir sua voz de perto, tocar e abraça-los. Jung definiu isso muito bem quando disse que deveríamos “conhecer todas as técnicas, dominar todas as teorias, mas ao tocar uma alma humana ser apenas outra alma humana”. Isso não quer dizer, no entanto, que precisamos abrir mão de uma ferramenta tão importante como a telemedicina. É possível utiliza-la e ao mesmo tempo mantermos nossa essência humana, tocando nossos pacientes e permitindo que eles nos toquem, mesmo que entre nós exista uma tela.

E você, já experimentou a telemedicina enquanto profissional e/ou paciente? Então conte aqui pra gente e vamos trocar experiências. Até a próxima!

Referências:

BUENO, Wendell Henrique Cândido et al. Central de teleatendimento em combate à pandemia de COVID-19: experiência do norte do Paraná. Aproximação, [s. l.], v. 2, ed. 4, p. 42-47, 2020.

CAMPOS, Patricia Danieli; FERRARI, Deborah Viviane. Telessaúde: avaliação da eficácia da teleconsulta na programação e adaptação de aparelho de amplificação sonora individual. Jornal da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia - Jsbfa, [s. l.], v. 24, ed. 4, p. 301-308, 2012.

CORRÊA, Julia Cariello Brotas; ZAGANELLI, Margareth Vetis; GONÇALVES, Barbara Donnária da Silva. Telemedicina no Brasil: desafios ético-jurídicos em tempos de pandemia da COVID-19. Humanidades & Tecnologia (FINOM), [s. l.], v. 25, p. 200-219, 2020.

FILHO, Douglas Luiz Binda; ZAGANELLI, Margareth Vetis. Telemedicina em tempos de pandemia: serviços remotos de atenção à saúde no contexto da COVID-19. Humanidades & Tecnologia (FINOM), [s. l.], v. 25, p. 115-133, 2020.

SANTOS, Andreia Beatriz Silva; FRANÇA, Marcus Vinicius Sacramento; SANTOS, Juliane Lopes Ferreira. Atendimento remoto na APS no contexto da COVID-19: a experiência do ambulatório da comunidade da escola bahiana de medcina e saúde pública em Slavador, Bahia. APS em Revista, [s. l.], v. 2, n. 2, p. 169-176, 2020.

SCHMITZ, Carlos André Aita et al. Teleconsulta: nova fronteira da interação entre médicos e pacientes. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, [s. l.], v. 12, n. 39, p. 1-7, 2017.

SILVEIRA, Rodrigo Pinheiro et al. Telemonitoramento da COVID-19 com participação de estudantes de medicina: experiência na coordenação do cuidado em Rio Branco, Acre. APS em Revista, [s. l.], v. 2, n. 2, p. 151-161, 2020.

SOEIRO, Rachel Esteves et al. Atenção primária à saúde e a pandemia de COVID-19: reflexão para a prática. InterAm J Med Health, [s. l.], v. 3, p. 1-6, 2020.

https://portalhospitaisbrasil.com.br/telemedicina-a-tecnologia-para-democratizar-o-acesso-a-saude/ (Acesso em 28 de setembro de 2020).

https://www.sanarmed.com/coronavirus-e-telemedicina-ferramenta-para-hoje-e-para-o-pos-pandemia-colunistas (Acesso em 28 de setembro de 2020).

https://fertipraxis.com.br/como-a-telemedicina-pode-ampliar-o-acesso-ao-atendimento-em-tempos-de-pandemia-por-covid-19/ (Acesso em 28 de setembro de 2020).

https://blog.iclinic.com.br/telemedicina-apos-pandemia/ (Acesso em 28 de setembro de 2020).

https://blog.conexasaude.com.br/futuro-da-telemedicina/ (Acesso em 28 de setembro de 2020).

*Texto enviado pelo Alpha Squad.

Academia Médica
Leonardo Cardoso
Leonardo Cardoso Seguir

Acadêmico de medicina, cursando o 10º período pelas Faculdades Pequeno Príncipe. Sonho com uma Saúde mais humanizada, equitativa e de qualidade, além de gostar muito de ler e escrever.

Ler conteúdo completo
Indicados para você