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A apatia médica: precisamos mudar o modelo de formação de nossas escolas
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A apatia médica: precisamos mudar o modelo de formação de nossas escolas

Ao longo da atividade médica diária, desde o período como estudante, nos deparamos rotineiramente com um cenário de profunda apatia  quanto à participação e atuação efetiva em espaços representativos, ou até mesmo no que se refere ao simples interesse por temas que escapam à profissão estritamente técnica. Mesmo que o panorama tenha melhorado substancialmente nos últimos anos, ainda é difícil encontrar estudantes de Medicina dispostos a integrar Centros Acadêmicos ou debater sobre formação médica, mercado de trabalho, vínculos trabalhistas, por exemplo. É muito raro que médicos se interessem por cargos de gestão, como diretores de hospitais, cooperativas médicas, cargos políticos na área da saúde, e tantos outros espaços que acabam dominados por outros profissionais de saúde. É quase nulo o nível informacional dos colegas sobre suas entidades representativas, suas funções e possibilidades de atuação, sendo menor ainda o número de interessados a compô-las.

Todas essas situações reais de nosso cotidiano nos levam a dois grandes desdobramentos: o primeiro é que sempre agimos na forma de redução de danos, com mobilizações desencadeadas em reação a uma agressão de gestores públicos ou privados. Somos reféns de nosso próprio trabalho, por pura e simples negligência com a própria profissão e seus princípios originais. O segundo é que médicos cada vez mais são menos cultos, no sentido mais amplo que essa palavra possa conter. Em uma simples conversa de bar com colegas recém-formados, assusta o nível cultural de quem sabe muito pouco ou nada sobre Economia, Direito, política, e outros pontos da cultura geral que não são somente indicativos de capacidade intelectual, mas afetam diretamente a atividade médica diária.

O centro desse processo, sem sombra de dúvidas, está em um modelo de formação absolutamente arcaico, regra na maioria de nossas escolas médicas. Um modelo que até pode formar bons técnicos, mas, sem medo de errar, forma profissionais incapacitados frente às habilidades demandadas pelo mercado de trabalho em 2017.  Somos todos vítimas de um modelo de formação que condena qualquer conhecimento ou habilidade fora da Medicina estritamente técnica. Podemos ter 720 horas de Saúde Coletiva ou Introdução ao SUS em nossa grade curricular, mas nenhuma hora sobre Empreendedorismo  ou Economia em Saúde. Quantas escolas médicas hoje falam sobre esses temas citados acima, ou ainda “conhecimentos básicos sobre Direito”, manejo de redes sociais, gestão de carreira, tecnologia em sáude, saúde mental de médicos? Todos necessidades latentes ao médico que encerra a graduação e inicia suas atividades.

Esse mesmo modelo que condena o interesse por outras esferas do conhecimento, também apresenta uma hierarquia burra e rígida, a qual olha com reprovação a participação de estudantes e médicos em entidades representativas. Nossa “trajetória padrão”, e única aceitável como honrosa, é encerrar a graduação, cursar a Residência Médica, continuar em especialização, trabalhar em hospitais e possuir um consultório particular. Eis o modelo de médico ideal. Resultado de uma imposição do senso somum que estimula a formação de profissionais bitolados, sem habilidades amplas. Se houver oposição ou crítica a esse modelo, certamente a frase mais utilizada pelos defensores desse status quo será a célebre “sempre foi assim”, muito utilizada ao se justificar o abuso de preceptores sobre médicos residentes ou como contraposição a qualquer crítica pertinente a uma anormalidade de funcionamento em nossos ambientes de formação e trabalho.

A Medicina se deteriorou enquanto atividade profissional em grande parte pela omissão e negligência de sucessivas gerações de médicos, já frutos desse modelo. Portanto, o primeiro passo estrutural para modificarmos esse cenário é debatermos de forma profunda a mudança de nosso modelo de formação. Somente assim teremos profissionais (e não meramente técnicos) preparados. Somente assim teremos médicos mais críticos, criativos, empreendedores, com iniciativa e atitude para criar soluções e preservar a Medicina como arte. A virada passa necessariamente por esse ponto.

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