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A Atenção: Entendendo o recurso mais valioso do século

A Atenção: Entendendo o recurso mais valioso do século

Você sabe qual a moeda mais valiosa da atualidade? Se você respondeu dólar, euro, libra ou ouro, sinto em lhe dizer que errou, pois o ativo mais cobiçado do mundo hodierno é a ATENÇÃO. Não prestou atenção, não é? Mas provavelmente só hoje, a sua atenção foi disputada por uma centena de estímulos, inclusive essa produção. No universo cibernético há uma disputa apelativa, a qual mescla conteúdos algoritmicamente programados para te atrair. No comércio, as estratégias de marketing são estruturadas para o mesmo intuito, em uma conversa no meio da multidão, um único diálogo busca te reter, no trânsito a direção do seu carro torna-se o foco principal e por aí vai.

Charles Darwin já evidenciava, tempos atrás, que a Atenção é a mais relevante das faculdades ligadas à inteligência humana, ou seja, ela não apenas tem valor, ela é o grande valor e não apenas a nível mercadológico, mas também quando se trata de performance pessoal ou mesmo da própria sobrevivência.

Mas como funciona esse recurso intelectual tão precioso? Para entender isso, talvez seja melhor conhecer Júlio. Júlio é um rapaz de 25 anos, sentado na frente do computador, que acabou de acessar um canal de notícias; nesse momento são ativadas vias sensitivas, circuitos de memórias e outras vias cognitivas (ligadas especialmente aos sistemas dopaminérgico e noradrenérgico); tal conjunto de sistemas começa a trabalhar de forma integrada, afim de criar uma seleção de informações, a qual permita a Júlio focar em um único estímulo principal e se manter centrado apenas nele. E em qual estímulo Júlio irá se centrar? Bem, isso dependerá de alguns fatores, como suas predileções, seu estado emocional, a intensidade e importância da informação, suas motivações e expectativas. Após todo esse processamento mental, Júlio então fará sua escolha e iniciará a leitura dos temas, que conseguiram arrebatar o seu interesse, ou melhor dizendo, mostraram-se merecedores de deter a “exclusividade” da sua atenção.

A história de Júlio traduz não apenas a neurofisiologia da atenção, mas também o seu conceito: um conjunto de processos neuronais, que leva à seleção ou priorização de categorias de informações de acordo com o contexto situacional. Nessa perspectiva, a Atenção pode se apresentar do tipo Sustentada, quando o indivíduo está com enfoque em uma única tarefa, a exemplo de uma prova; pode ser classificada como Seletiva, nas situações em que a pessoa consegue manter o foco na sua atividade, apesar de uma variedade de coestímulos presentes, como no caso do trânsito; pode ser definida como Dividida, para as situações em que o sujeito consegue lembrar de fatos e ao mesmo tempo realizar uma tarefa, como em um atendimento na sala de emergência; e pode ser identificada como de Vigília, para cenários de alerta. Nesse ínterim, tal acurado processamento neuronal revela também outra qualidade primorosa: uma bem estruturada capacidade de adaptação.

Em algumas situações, no entanto, esse refinado sistema de processamento pode apresentar alterações prejudiciais, marcadas por sintomas de desatenção, falta de concentração e ansiedade, os quais afetam as atividades executivas e podem advir de duas vias, uma patológica e outra condicionada. Na via patológica, existem quadros clínicos, com base orgânica, como o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), caracterizado por disfunções dopaminérgicas e noradrenérgicas, bem como algumas síndromes demenciais, entre outras. Na via condicionada, os maus hábitos cognitivos - exposição contínua a telas, sono desregulado e má gestão do estresse - podem sobrecarregar as redes neuronais de processamento, gerando um quadro de fadiga mental, que limita a capacidade cerebral de seleção e sustentação do foco.

Sob a ótica desses cenários, emerge então um importante prejuízo a qualidade de vida do indivíduo, que passa a ter dificuldade em lidar com suas demandas diárias, assim como, sua própria autocobrança por um desempenho melhor.

A grande questão quando se trata da temática Atenção é: já que ela representa um recurso cognitivo de tanto valor, porque não aprendemos mais sobre ela? Como protegê-la das manipulações e maus hábitos? Como fortalecê-la para melhorar o nosso próprio desempenho? Nessa perspectiva, o primeiro passo para mudar o fato é ter consciência dele e é por isso, que eu convido você, leitor, para realizar a reflexão que segue e se necessário testar algumas das alternativas propostas.

1 - Como tem estado a minha atenção e concentração ultimamente?

2 - Com o que tenho "gastado" a minha atenção ultimamente?

3 - Tenho regulado o meu tempo de uso das telas ou me pego automaticamente consumindo aquele bombardeio de estímulos?

4 - Quanto tempo consigo ficar parado olhando apenas para o relógio?

5 - Quanto tempo consigo me manter centrado em única atividade, a qual me proponha?

A) Quando usar os meios virtuais, o faça de modo objetivo e intencional. A sua atenção deve reger o usofruto desses mecanismos e não o contrário. Seja criterioso com o “consumo” da sua Atenção.

B) Caso o sono esteja irregular ou insuficiente, lembre-se que ele é o mecanismo de revitalização neurológico mais sofisticado do corpo. Desse modo, passe a colocá-lo como prioridade na sua rotina, a enxergá-lo como um pilar da sua performance pessoal.

C) Mindfulness: Meditação caracterizada como estado de consciência que emerge através de prestar atenção, com propósito, e sem julgamento, do que ocorre no presente, de momento a momento. Essa técnica, não só tem o poder de exercitar a capacidade cognitiva relacionada a atenção, como tem evidências positivas em terapêuticas relacionadas a quadros de HAS, CA, Diabetes, Fibromialgia, entre outros.

D) Use o looping do hábito a seu favor e antes de suas atividades, "vista-se" do estado mental necessário para realizá-la, criando uma consciência organizada, direcionada ao seu objetivo e "desligada" de estímulos distratores.

 

REFERÊNCIAS

  1. Machado A, Haertel LM. Neuroanatomia Funcional. 3ª ed. São Paulo: Atheneu, 2013. 344p.
  2. Lent R. Cem bilhões de neurônios? Conceitos Fundamentais de Neurociência. 2ª ed. São Paulo: Atheneu, 2010. 786p.
  3. Contribuições do Mindfulness as condições médicas: uma revisão da literatura; SPPS, 2018, 19(2), 182-196, ISSN - 2182-8407

 

Academia Médica
Rodrigo Souza
Rodrigo Souza Seguir

Acadêmico de Medicina - Universidade Salvador; Fundador e Presidente do Projeto Cognição Performance; Presidente do DAMED - UNIFACS; Presidente Liga Baiana de Neurocirurgia - UNIFACS; Ávido pela arte de empreender e aprender

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