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A inteligência artificial na pizzaria e na medicina. Invasão ou motivação?

A inteligência artificial na pizzaria e na medicina. Invasão ou motivação?

Há algum tempo circula por blogs e grupos de whatsapp o texto conhecido como "pizza do google", de autoria desconhecida. Ele aborda o como a inteligência artificial influenciará na escolha de sua pizza e tentará mediar a sua saúde. Transcrevo-o abaixo para fomentar a discussão sobre o futuro que nos aguarda, pois um diálogo como o que você verá abaixo, já não soa tão impossível de ser uma realidade próxima:

"– Alô, é da pizzaria Gordon?
– Não, senhor, é da pizzaria Google. 
– Desculpe, devo ter ligado para o número errado.
– Não o número está correto, o Google comprou a pizzaria. 
– Ah, entendi. Pode anotar o meu pedido?
– Claro, o senhor quer a pizza de sempre?
– Como assim? Você já trabalhava aí, me conhece?
– É que de acordo com nossos sistemas nas últimas 12 vezes o senhor pediu pizza de salame com queijo, massa grossa e bordas recheadas.
– Isso, pode fazer essa mesma.
– No lugar dessa, posso tomar a liberdade de sugerir uma de massa fina, farinha integral, de ricota e rúcula com tomate seco? 
– Não, eu odeio vegetais!
– Mas, o seu colesterol está muito alto.
– Quem te disse isso? Como você sabe?
– Nós acompanhamos os exames laboratoriais de nossos clientes e temos todos os seus resultados dos últimos 7 anos. 
– Entendi, mas quero a pizza de sempre, eu tomo remédios para controlar o colesterol.
– O senhor não está tomando regularmente, porque nos últimos 4 meses só comprou uma caixa com 30 comprimidos, na farmácia do seu bairro. 
– Comprei mais em outra farmácia.
– No seu cartão de crédito não aparece. 
– Eu paguei em dinheiro.
– Mas, de acordo com seu extrato bancário o senhor não fez saque no caixa automático nesse período. 
– Eu tenho outra fonte de renda.
– Isso não está constando na sua Declaração de Imposto de Renda, a menos que seja uma fonte pagadora não declarada. 
– Mas, que inferno! Estou cansado de ter minha vida vigiada e vasculhada pelo Google, Facebook, Twitter, WhatsApp, essas porcarias todas! Vou mudar para uma ilha sem internet e sem telefone celular, onde ninguém possa me espionar.
– A decisão é sua, senhor, mas quero lhe avisar que seu passaporte venceu há 5 semanas..."

Apesar de engraçada, essa anedota traz-nos algumas reflexões:

- A abordagem utilizada pelo atendente gera mais aborrecimento no cliente do que empatia, inclusive levando-o a tomar decisões contrárias àquelas objetivadas pelo cruzamento de dados do sistema.

- Obviamente o conhecimento dos dados e riscos não é suficiente para o atendente cativar o cliente a mudar seus hábitos e reduzir seus riscos enfermidades. Que estratégias podem ser utilizadas nesse direcionamento?

Em outra versão disponível na internet, há uma parte adicional interessante:

"– Sim senhor, me desculpe, mas está tudo em minha tela. Tenho o dever de ajudá-lo. Acho, inclusive, que o senhor deveria remarcar a consulta que o senhor faltou com seu médico, levar os exames que fez no mês passado e pedir uma nova receita do remédio"

Parece estratégia de serviço de marcação de consultas, não?

Estaria essa realidade muito distante de acontecer? Talvez não com tanto acesso a dados bancários, mas se reunirmos apenas os dados disponíveis todas as vezes que autorizamos o uso de nosso CPF, já teremos um rico banco para cruzamento. A inteligência artificial visa justamente interligar dados, favorecendo uma análise individual e o mais específica possível, para obtenção de melhores resultados. 

Por outro lado, ter nossas preferências já registradas facilita bastante a vida. Assim como a inteligência artificial visa justamente interligar dados, favorecendo uma análise individual e o mais específica possível, para obtenção de melhores resultados. Para  provocar a discussão:

O que você pensa sobre essa abordagem/possibilidade?

Já ouviu falar sobre Comunicação Não-Violenta, Medicina centrada na pessoa e Entrevista Motivacional? São temas sensíveis à relação médico-paciente e diretamente identificados na anedota acima justamente por não estarem presentes!

Poste a sua opinião nos comentários logo abaixo para compartilhar o seu ponto de vista com a comunidade ACADEMIA MÉDICA.

Postaremos uma série de textos explicando e exemplificando como essas estratégias podem qualificar a relação, utilizando os dados, porém de forma a engajar e cativar o cliente/paciente.  Se quiser acompanhar esse assunto, siga-me aqui na academia médica, pois esses assuntos são do meu interesse.

Academia Médica
Naiara Costa Balderramas
Naiara Costa Balderramas Seguir

Médica formada pela UFPA, com Residência em Clínica Médica no HUJBB/PA e Oncologia Clínica no HUB/DF. Pós-graduação em Cuidados Paliativos na Casa do Cuidar/SP. Interessada em qualidade de vida, qualidade de fim de vida e literatura.

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