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A morte te faz uma pessoa melhor?

A morte te faz uma pessoa melhor?

A vida do profissional da saúde é cercada por dúvidas quanto a existência. Não é incomum que em certos momentos exista um questionamento sobre qual o propósito da morte diante um paciente enfermo, de alguém que padeceu em um contexto acidental ou de uma criança que não tenha resistido as adversidades das anomalias fisiológicas.

O aprendizado é diário. Os exemplos são incontáveis. A imprevisibilidade da vida parece estar sempre disposta a nos enganar.


Em um dos dias de estágio, enquanto realizava a anamnese, a senhora que eu estava atendendo trouxe algumas angústias. Ela respondia as perguntas e acrescentava algumas histórias. Contou dos netos, dos sobrinhos e dos irmãos. Lembrou da época em que descobriu ser portadora de algumas enfermidades crônicas e como seguia o tratamento proposto. Desamarrou o nó da garganta e contou que possuía muitas doenças. Era um momento de tensão, uma prova de fogo para a escuta médica. A partir dali, já seria impossível que eu não me recordasse do seu rosto. Ele era abatido pelo tempo, pelas tristezas e pela quantidade de obstáculos que já tinha superado. Era viúva, e de 5 filhos que teve um teria morrido de acidente. E talvez aí, houve o momento de maior aflição...

Ao sair de casa, desconhecemos a maioria das coisas que vão acontecer durante o nosso dia. Desconhecemos as palavras que vamos ouvir, as experiências que vamos vivenciar e da quantidade de coisas que vamos aprender.

Naquele dia, eu não imaginava ouvir algo que reverberasse tão profundo em mim.

A rotina faz com que nossas vidas entrem no automático, e esquecemos que estar vivo já é uma sorte extraordinária, um evento remoto, uma ocorrência aleatória de proporções estonteantes.

Ela contou que seu filho, aos 22 anos, capotou o carro. Dos dois ocupantes que havia, ele teria sido o único a não sobreviver. Naquele momento o meu mundo parou. Ela desconhecia a minha idade. Mal sabia meu sobrenome. Terminamos o atendimento e ela se despediu.


Ao ficar só, me questionei em como teria sido a vida daquela senhora se o filho dela não tivesse morrido. Em quantas coisas diferentes poderiam ter acontecido. É absurdamente doloroso entender que em algumas situações, a ordem da vida se inverte...  

No entanto, é preciso se questionar também se a morte te faz uma pessoa melhor. Se a empatia faz com que você esteja sempre disposto a entender a dor do outro. Não há mistério nisso. A vida não faz objeções na hora de se findar. Cabe a nós extrair das experiências a virtude de sempre evoluir.

A senhora sabia que eu era um mero estudante de medicina. Mas não sabia que eu também tinha 22 anos. E isso, sem dúvidas, me marcou muito.

Academia Médica
Álesson Dutra
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Estudante do quarto semestre de medicina na faculdade UNIFG.

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