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A pandemia da perda de credibilidade científica de 2020

A pandemia da perda de credibilidade científica de 2020

Para a comunidade científica o ano de 2020 foi o estopim da perda de credibilidade da ciência como estava sendo mostrada.

Muitas revistas científicas renomadas, órgãos de saúde (incluindo a própria OMS), o SUS, sociedades médicas e autarquias tiveram a credibilidade abalada ou questionadas de forma que podem demorar anos para recuperar a confiança da comunidade intelectual e principalmente da população em geral.

Convém lembrar que a atual pandemia de covid-19 não é de longe a causa da perda de credibilidade da comunidade científica ou da mídia e sim o revelador.

Movimentos anti-vacinas, auto-hemoterapia, homeopatia, negacionismo de proposições obvias da biologia e até o absurdo do terra-planismo ganharam força nas últimas décadas tendo defensores autoridades políticas, intelectuais e pasmem médicos.

Mas afinal o que está acontecendo?

Para analisar a situação precisamos entender uma parte da história da filosofia, alguns absurdos da “ciência” e da política mundial dos últimos séculos.

No século XIX Augusto Comte baseado em pensamentos iluministas criou uma linha filosófica chamada de “positivismo” que em resumo era uma corrente que tudo nesse mundo era explicado por uma fórmula científica e que o progresso do conhecimento era tudo e que o mesmo iria recompensar quem o procurava.

Essa linha foi tão enraizada nas correntes intelectuais que verdadeiros templos foram erguidos ao positivismo e inclusive nossa bandeira tem o lema do positivismo.

“Ordem e progresso”

Junto com isso inúmeras correntes filosóficas e políticas começaram a surgir derivadas do positivismo e com elas ponto de vista científicos ora bons e ora abomináveis.

Grandes progressos da cirurgia, da microbiologia e até da saúde mental foram desenvolvidos a partir dessas metodologias e até hoje os utilizamos.

Porem ideais não tão bons foram desenvolvidos como a eugenia, a frenologia e alguns tipos de engenharia social.

Até a metade do século XX era comum ter cientistas abertamente defensores da eugenia, uma ideologia baseada em métodos antiéticos violando a autonomia do médico e do paciente, a propagação de ideias racistas, anti-semitas, o aborto como política de Estado e a esterilização para evitar “filhos ruins ao mundo” e a “degradação social”.

A frenologia era considerada um estudo forense válido para considerar que o formato do crânio determinava o comportamento e consequentemente fator de risco para se tornar um “degradado social” e um criminoso.

Cientistas utilizavam populações socialmente abandonadas e inclusive adversários políticos como cobaias sem o menor pudor. Experiências como a contaminação proposital de sífilis em Tuskegee-EUA, os campos de concentração nazistas e os expurgos e manipulações de engenharia social em países como Cuba e a ex-união soviética são exemplos do lado oculto da ciência do absurdo.

Parece ser horrível e faz o senso comum pensar “que somente gente muito ignorante ou maldosa faria parte de coisas do tipo”, mas muitos médicos, políticos de potências globais e intelectuais eram abertamente defensores ou membros de sociedades de eugenia.  

Isso começou a ser mudado com inúmeras transformações científicas e sociais como a declaração universal dos direitos humanos e a ascensão da medicina baseada em evidência (MBE).

A declaração universal dos direitos humanos de forma resumida é uma carta criada no pós-segunda guerra que norteia os princípios de dignidade humana, liberdade individual e progresso coletivo.

A MBE é um método científico que busca guiar as condutas médicas para que as probabilidades de intervenção se aproximem dos resultados desejados. Nela são consideradas desde a coletânea de inúmeros estudos com analise estatística destes até a opinião de especialistas e com esses são vistos os resultados e orienta a intervenção se é benéfica ou não para a medicina.

A defesa dos direitos humanos e a MBE trouxeram inestimáveis progressos para a humanidade e para a medicina. O aumento da participação da população em decisões da comunidade e o aumento da expectativa de vida são provas incontestáveis que a humanidade melhorou sua vida e muito.

Porém, como tudo que existe no mundo e criado pelo ser humano apresenta brechas e falhas que podem ser explorados por pessoas sem escrúpulos.

Os direitos humanos são explorados para defesa de correntes políticas cujo objetivo passa longe daquilo que pregam. A maior ironia talvez seja que os países mandatários em direitos humanos na Organização das nações humanas não são democracias plenas ou no mínimo não tem um compliance adequado.

A MBE produz resultados quase milagrosos porem demanda tempo, muito dinheiro e uma mea culpa até em seu mais alto nível de evidência em viés de diversos tipos.

Esses dois fatos criaram três grandes fatores que levaram a essa era de informação questionável.

O primeiro fator é a indústria do artigo científico.

Um efeito colateral da necessidade da comunidade cientifica querer mais informação e das publicadoras querer mais dinheiro. São produzidos inúmeros artigos sem utilidade ou que desinformam ou até mesmo são censuradas para agradar um nicho de mercado.

Começaram a adotar mais a defesa ferrenha de um positivismo religioso que dizer “eu não sei”.

Cientistas como Freud, Newton, Einstein, Flemming, Pasteur não teriam espaço na sociedade científica, afinal eles produziram pouquíssimos artigos e destes muitos foram rejeitados (inclusive a teoria da relatividade).

 Ironicamente, no ano de 2019 alguns “cientistas” estavam fazendo protestos pelas queimadas da Amazônia, mas muitos estavam produzindo mais papel do que ciência.

O segundo fator é o "cientista ignorante".

Esse geralmente segue como o operário da indústria do artigo científico e como tal não tem domínio algum de sua produção somente a visão fechada daquilo que produz.

Para perceber esse fato é só ver atualmente a quantidade de médico defendendo artigos de medicamentos milagrosos e condutas questionáveis “baseado em evidência”, outros médicos que são contra os mesmos usando argumento semelhante “baseados em evidências” para no final as mesmas revistas lançarem notas de retratação ou ter que explicar como se lê um artigo.

E o terceiro é o oportunismo de militância, com essa ignorância acima, foram introduzidos interesses políticos acima do conhecimento, e surgiram cientistas com linhas de pensamento iguais aos da eugenia anteriormente mencionados.

Mostram domínio da linguagem de quem quer atingir, levantam pontos convenientes por mais absurdos que sejam, omitem os pontos que não lhes convém e ainda por cima ganham notoriedade da mídia nessa guerra de narrativas.

Criamos cientistas e médicos arrogantes, despreparados, ignorantes que perderam o senso completo da realidade.

É trágico o médico que diz coisas “baseadas em evidências”, milita em cima do “bem estar biopsicosocial”, mas acredita em signo, idolatra digital influencer, apoia lockdown enquanto pede comida em aplicativo de entrega sem questionar o mundo ao seu redor.

Muito longe de defender medicação magica, falar em lockdown ou até mesmo dissertar sobre o modelo de gestão atual muito questionável do SUS.

Porém percebam que em momento algum utilizei a covid-19 como argumento, porque podemos pegar todos os dados acima e encaixar os grandes desastres sanitários da humanidade, indo por politicas de genocídio, Chernobyl e o HIV.

A humanidade precisa repensar seu conceito de ciência e de uma ética mais consistente, caso contrário, iremos continuar na pandemia da ignorância.

 

Referências  para saber mais:

-Sobre o positivismo:   https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/positivismo.htm

-Sobre a industria do artigo científico: https://super.abril.com.br/ciencia/a-maquina-que-trava-a-ciencia/

-Sobre a medicina baseada em evidência: https://pebmed.com.br/medicina-baseada-em-evidencias-raiz-vs-medicina-baseada-em-evidencias-nutella/

-Sobre eugenia e o lysenkoysmo que as referencias do video tambem endosso: 

 

Academia Médica
Henri Hajime Sato
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Médico, formado em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos, curioso local e sempre existe alguma coisa errada no reino da Dinamarca.

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