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A quarta revolução industrial está transformando os médicos em operários?

A quarta revolução industrial está transformando os médicos em operários?

Medicina é chamada por muitos idealistas como a “arte da cura”; inclusive o nome “medicina” tem origem de sua etimologia Ars medica. Porém, ao contrário das considerações popularescas e de certos auto-intitulados "especialistas”, a arte nunca é por si só arte.

A arte completa e plena exige preparo, habilidade, instrumentos adequados e paixão. Com a arte médica, não é diferente; e isso torna os médicos verdadeiros artesãos do corpo humano.

Com o desenvolvimento da humanidade, as revoluções industriais dos últimos séculos - com a inserção do fordismo, taylorismo e o toyotismo - transformaram  o trabalho dos artesãos em linhas de produção de operários para atender as demandas populacionais. 

Muitas atividades mudaram desde o seu seu processo de treinamento até sua finalidade. Algumas foram extintas, outras foram proletarizadas e outras foram elevadas socialmente. Nas últimas décadas houve também um prolongamento para o setor de serviços, um dos maiores exemplos disso é o êxodo rural em massa.

As faculdades viraram enormes celeiros de produção técnica  e de para o mercado. Já os cursos que não obtiveram a licença técnica ou tem raiz puramente pensante se transformaram em um meio da resolução burocrática da máquina do Estado (o que não deixa de ser outra indústria, só que voltada ao interesse público em teoria). Outros se colocaram na infeliz ironia de serem pensantes tão extremistas que a capacidade de resolução de problemas beira a nulidade da discussão do sexo dos anjos. 

O incrível de toda essa história de mais de séculos é que o trabalho do médico e seus ensinamentos como artesãos do corpo humano sobreviveram ou até se desenvolveram nas três primeiras revoluções industriais. Muitos estudiosos da psicanalise e sociologia, no entanto, defendem a tese de que, no final, vamos todos virar proletários, conforme as necessidades populacionais aumentam.

 

E nesse espírito a pergunta é: até quando o médico não irá virar um operário?

 

A minha opinião, e de qualquer um que conheça a realidade dos médicos, é que já estamos virando operários desde a polêmica chegada da quarta revolução industrial ou a famosa Indústria 4.0, como também é conhecida.

A indústria 4.0 é um período mais recente de mudanças de paradigma da produção,onde se inserem o contexto maior de internet, ferramentas de gestão, análise de dados em inteligência artificial, Big Data e outros inúmeros termos em inglês que significam maior conexão para melhores resultados.

Os médicos nesse período estão justamente em um momento iminente para se tornarem operários da saúde; além disso estão ficando doentes e o modelo de organização de trabalho atuais tem culpa nisso. Essas organizações estão incluindo treinamento, atuação e recompensa, de forma defeituosas e débil em algum momento no processo do ato médico atual. Estatísticas já comprovam isso: se você é médico, tem chance maior chances de ficar mentalmente doente que a maioria da população em geral. 

E a culpa do médico estar assim não é por miasmas pútridos exalados pelo capitalismo, como dizem subliminarmente alguns estudiosos de esquina. Se analisarmos os aspectos da psicopatologia do trabalho de DeJours sobre o adoecimento mental ocupacional, um dos princípios de que o operário se torna um doente mental foi a partir do momento de transformação em que o artesão perde sua individualidade e vira passa a fazer parte de um coletivo de trabalho repetitivo.

O trabalho repetitivo, a falta de perspectiva, a perda do desenvolvimento individual e o medo constante das classes, que antes eram o oposto disso, adoeceram mentalmente, e ainda adoecem, aqueles que fazem parte do processo. Isso não é exclusividade do recém-formado, pois se continuar assim, até mesmo o especialista vai virar um operário (aliás esse é um dos medos que muitos têm caso a telemedicina seja mal implantada no Brasil).

A base dos erros desse sistema pode vir de uma série de transformações sociais e de organização do trabalho a qual os médicos não estão acompanhando ou estão  sendo propositalmente mal guiados. Se observarmos o treinamento dentro das faculdades de medicina e das residências, veremos que parecem fábricas de salsichas moendo pessoas com potencial intelectual incrível.  Estão transformando médicos em tocadores de serviço que não sabem nem noção do que estão fazendo, além do que está a um palmo de seu nariz. Isso é muito parecido com o clássico videoclipe do Another Brick in the Wall do Pink Floyd. Fiquem com a essa bela obra prima!

O médico não é mais colocado para pensar além daquilo que lhe é imposto. Isso é observado na falta de diversidade curricular atual, sempre os mesmos pontos de vista de defesa do SUS,  com gestão e idealismos de caráter duvidoso; imposições de carreira, como residência para ser especialista o mais rápido possível; remédio A para doença A, com a opinião do professor que é única inexoravelmente verdadeira. Podemos ir longe nessa lista...

Somente tive a oportunidade de saber o que é escuta ativa em minhas conversas com um ex-professor de psicologia da faculdade. Só fui aprender a cobrar honorário depois de formado. Nessa época que tive a curiosidade de ler um livro sobre bioética, enquanto aprendia mais sobre o quão o sistema do SUS é perfeito e maravilhoso. Aprendi no primeiro ano, desaprendi no primeiro plantão de PS.

Poderia colocar aqui que falta ensino de matérias de pensamento nas faculdades de medicina, mas a verdade é que, se colocássemos 6 anos de filosofia na faculdade de nada adiantaria enquanto não ensinarmos os médicos a terem senso crítico.

E antes que algum militante da saúde pública venha com um discurso de defesa que beira o pelego, quero deixar claro que não critico a existência de um sistema de saúde público, porém defendo um sistema de saúde público que promova o bem-estar populacional de forma eficaz e verdadeiramente humano.

Essa massificação inapropriada da medicina, além de desumanizar o médico, o deixa sem conhecimento técnico pleno, destruindo o senso crítico na hora do raciocínio clínico. Não adianta ter o melhor aparelho de Big Data em um hospital ou a aula mais completa de Business Intelligence se o médico que usa essa ferramenta ainda tem a capacidade de uso de um disquete.

Muitas coisas não podem ser operacionalizadas e a atividade do médico definitivamente é uma delas. Toda conduta de um médico tem que ter um toque pessoal, seja na comunicação, na escuta, na atuação ou até na farmacologia. A beleza da medicina mora nessa arte e não em resultados rápidos ao estilo fast food.

A indústria 4.0 não tem o objetivo de fazer a arte médica entrar em decadência, aliás as novas ferramentas abrem um horizonte de progresso da arte. Porém se não mudarmos o paradigma de ensino, organização de trabalho e de mentalidade dos médicos, provavelmente estaremos fadados a virar operários e, como tal, uma ferramenta barata e fácil reposição no mercado. Ou na, melhor das hipóteses, dependentes da pena alheia das reciclagens de falso altruísmo, como o "vamos aproveitar do que ele foi preparado”,  traduzindo: vamos se aproveitar de sua mão de obra como operário até secar a fonte.

 

Como referências, deixo o livro clássico “A loucura do trabalho de Dejours” o link da página do CFM para iniciação a bioética.


 

Academia Médica
Henri Hajime Sato
Henri Hajime Sato Seguir

Médico, formado em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos, curioso local e sempre existe alguma coisa errada no reino da Dinamarca.

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