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Medicina no exterior: Assédio, sexismo e desigualdade de gênero em hospitais de língua francesa na Suíça

Medicina no exterior: Assédio, sexismo e desigualdade de gênero em hospitais de língua francesa na Suíça

🇨🇭 O ponto de vista dos médicos em formação (residência médica na Suíça ) 

Uma recente pesquisa mostrou dados assustadores sobre o panorama da medicina no exterior conforme você poderá ler na matéria. País de primeiro mundo nem sempre é sinônimo de igualdades ou respeito e a Suíça não foge da regra…

As questões de sexismo e desigualdade de gênero são atuais em vários círculos profissionais e têm sido destacadas pela mídia internacional no contexto da greve feminina que aconteceu na Suíça em junho de 2021. 

 Desigualdades salariais, assédio: várias questões têm sido denunciadas por mulheres de todas as idades e nacionalidades. Esta mobilização nos lembra que, mesmo em um país economicamente forte como a Suíça, as desigualdades sociais entre homens e mulheres permanecem.

No cantão de Vaud em 2019 foi criado o “CLASH”, Collectif de lutte contre le sexisme en milieu hospitalier (Coletivo contra o sexismo no ambiente hospitalar) por estudantes médicas alertadas pelo comportamento sexista que as afetava em seus locais de formação (residência médica)

A população feminina está super representada entre os médicos com idade entre 24 e 44 anos. Assim, podemos observar uma feminização da profissão na Suíça. Esta tendência é global, com proporções semelhantes também observadas nos Estados Unidos, alguns países da UE e até mesmo no Brasil.

No que diz respeito aos médicos que exercem a profissão em hospitais, de acordo com as estatísticas de 2018 da Associação Médica Suíça (FMH), enquanto o número de mulheres domina entre os médicos assistentes (AM) (58,6%), diminui constantemente à medida que se sobe na hierarquia, com 47,9% dos Chief Clinical Officers (CCPOs) conhecido na Suíça como CC (Chefe -de Clinique) e apenas 12,4% dos Medical Officers (MOs), que na Suíça chamamos de MC (Médecins Cadres).

A importância crescente da mulher no sistema de saúde muda inevitavelmente certos paradigmas: a divisão de tarefas, o abandono gradual do princípio da "disponibilidade permanente" do médico, a integração da paternidade na vida profissional. Estas questões são regidas pela Lei de Igualdade entre Homens e Mulheres. No entanto, isto não é isento de armadilhas: comportamento inadequado, negligência na proteção de mulheres grávidas e lactantes, obstáculos a uma carreira em caso de maternidade, oportunidades desiguais de promoção ainda são problemas para os quais nossa associação é regularmente chamada. A Associação Suíça de Médicos Assistentes e Seniores, Seção Vaud (ASMAV) decidiu avaliar este problema nos hospitais da Suíça francófona por meio de um questionário enviado a seus membros.

 

Um estilo de gestão a ser revisto e com urgência 

O comportamento sexista também é um tema recorrente entre a população médica. As mulheres médicas ainda lutam para que suas habilidades profissionais sejam reconhecidas em pé de igualdade com seus colegas masculinos. Nossos números confirmam o que outros estudos maiores já revelaram. Este comportamento é frequentemente perpetrado por superiores, o que pode, portanto, interferir no treinamento (formação médica  especializada) na carreira  e também dar origem a receios/medo de falar.

O problema é uma questão complexa de poder e dominação, com muitas variações, que vão desde piadas atrevidas e sexistas até a discriminação contra a integridade da pessoa. É difícil avaliar se são impostas sanções e com que efeito, mas alguns estudos relatam baixa satisfação com as medidas tomadas. O estilo de gestão baseado em particular na forma de autoridade hierárquica dos gestores e na lei do silêncio, está provavelmente entre os elementos envolvidos.

 

Efeito dominó 

Com relação às dificuldades enfrentadas pelas mulheres grávidas no local de trabalho, estudos mostram que o estresse ao qual os médicos são submetidos aumenta o risco de complicações obstétricas. Podemos imaginar que a falta de medidas para proteger a gravidez, bem como a falta de apoio à amamentação, contribuem para as consequências prejudiciais para a saúde da mãe e da criança. Além disso, as mães sentem-se culpadas e discriminadas no local de trabalho, por exemplo, devido à licença maternidade insuficientemente substituída e a carga de trabalho extra que é transmitida aos colegas.

De acordo com Buddeberg-Fischer, da Universidade de Zurique, as médicas que são mães têm o nível mais baixo de realização profissional e recebem o menor apoio e orientação. A dificuldade de conciliar a maternidade e a carreira no sistema atual reduz o acesso de profissionais competentes e motivados aos cargos de decisão.

 

Algumas formas de combater o comportamento discriminatório

As propostas da Associação de Médicos Residentes e Chefs de Clinique (ASMAV) são aliviar os problemas identificados relativos ao comportamento inadequado, ao respeito às mulheres grávidas e lactantes e à conciliação da vida privada e profissional. Incentivar e permitir a comunicação de casos de forma transparente e neutra, assegurando a proteção do reclamante, promover “tolerância zero” e aplicar sanções em caso de não cumprimento das leis e regras, independentemente do cargo função do acusado e acompanhamento de situações problemáticas do início ao fim.

CLASH, ASMAV e FHV estão trabalhando juntos em uma campanha piloto de sensibilização desde do inicio deste ano 2021 em dois estabelecimentos de Vaud para desenvolver uma estratégia de sensibilização.

 

Referência

Evain, A., G., Plebani, M., Dumusc, A., Devillers, S. (2021). 'Harcèlement, sexisme et inégalité de genre dans les hôpitaux romands - Le point de vue des médecins en formation', Rev Med Suisse 2021; volume 7. no. 736, 850 - 853. Disponível em https://www.revmed.ch/revue-medicale-suisse/2021/revue-medicale-suisse-736/harcelement-sexisme-et-inegalite-de-genre-dans-les-hopitaux-romands-le-point-de-vue-des-medecins-en-formation

Academia Médica
Janine Diniz Fortuna
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Consultora para revalidação de diplomas médicos no exterior União Européia/ Suíça desde de 2005 e com experiência profissional em mais de 5 países. janinefortunaconsultoriagmail.com

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