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Autismo: Por Que os Diagnósticos Estão Crescendo no Mundo

Autismo: Por Que os Diagnósticos Estão Crescendo no Mundo
Comunidade Academia Médica
ago. 26 - 5 min de leitura
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O diagnóstico de autismo tem crescido de forma expressiva nas últimas duas décadas. Dados recentes dos Estados Unidos mostram que a prevalência entre crianças de 8 anos passou de 1 em 150 em 2000 para 1 em 31 em 2022. O anúncio levou o secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., a declarar uma “epidemia” causada por um suposto “agente tóxico ambiental”, ideia que reacendeu polêmicas já refutadas pela comunidade científica.

A reação de pesquisadores e pessoas autistas foi imediata: a ciência já acumulou décadas de evidências mostrando que a explicação é mais complexa e que, em grande parte, o crescimento nos números reflete mudanças nos critérios diagnósticos, maior conscientização e acesso a serviços especializados.

Um dos fatores centrais para entender a alta prevalência é a evolução dos manuais diagnósticos. Até o início da década de 1990, tanto o DSM quanto a CID definiam autismo de forma bastante restrita. Com as atualizações do DSM-IV (1994) e da CID-10 (1990), os critérios foram ampliados, permitindo diagnósticos em pessoas de diferentes idades e com manifestações mais sutis. Já em 2013, o DSM-V consolidou condições como a Síndrome de Asperger dentro do espectro autista.

Um estudo dinamarquês de 2015 estimou que cerca de 60% do aumento nos diagnósticos se deveu exclusivamente a mudanças nos critérios e na forma de notificação. Além disso, professores e profissionais de saúde passaram a reconhecer mais sinais de autismo, reduzindo o estigma e estimulando famílias a buscar avaliação. Hoje, o diagnóstico é feito em idades cada vez mais precoces e em grupos antes negligenciados, como meninas e mulheres.

Especialistas do Instituto Karolinska, reforçam que não há uma “epidemia de autismo”, mas sim uma epidemia de diagnósticos. Estudos de prevalência baseados em sintomas, e não apenas em registros administrativos, sugerem que a frequência global do transtorno é estável, girando em torno de 1 em 127 pessoas (cerca de 1%).

Um estudo sueco reforçou essa visão: a prevalência de sintomas relatados pelos pais permaneceu estável ao longo de duas décadas, mesmo com o aumento dos diagnósticos formais. Ou seja, os números refletem melhor detecção e não uma explosão de casos.

A contribuição da genética e dos fatores ambientais

A ciência já estabeleceu que a hereditariedade responde por cerca de 80% do risco de autismo, valor comparável ao da altura. Diversas variantes genéticas raras e mutações de novo estão associadas a maior probabilidade de diagnóstico, assim como combinações de variantes comuns que, somadas, aumentam o risco.

Entretanto, fatores ambientais também têm participação, embora menor e difícil de quantificar. Entre eles:

  • Idade avançada dos pais, associada a maior probabilidade de mutações genéticas de novo.

  • Infecções durante a gestação, que em alguns estudos aumentaram o risco de autismo.

  • Exposição a poluição atmosférica, como o ozônio, relacionada em análises a maior incidência de diagnósticos.

  • Outros fatores gestacionais, como diabetes materna, obesidade, uso de alguns medicamentos e deficiência de ácido fólico.

Apesar disso, os resultados são inconsistentes entre diferentes pesquisas. O consenso atual é que não existe um único “agente causal” ambiental responsável pelo autismo.

O lançamento da Autism Data Science Initiative (ADSI) pelo NIH, com US$ 50 milhões em financiamento, poderia ser uma oportunidade para integrar bases de dados genéticas e ambientais. No entanto, muitos cientistas demonstraram preocupação com a condução do programa por RFK Jr., um histórico crítico das vacinas, e pelo risco de instrumentalizar a iniciativa para reforçar teses já desmentidas.

Além disso, cortes de verbas federais para pesquisa e apoio a pessoas autistas podem comprometer avanços muito mais do que a ADSI pode ajudar. Em 2025, por exemplo, o financiamento do NIH para autismo caiu em US$ 62 milhões em relação ao ano anterior.

O aumento no número de diagnósticos de autismo reflete, em grande parte, avanços em critérios clínicos, maior consciência social e melhor acesso a serviços, e não uma explosão repentina da condição. A genética desempenha papel central, enquanto fatores ambientais ainda são investigados de forma cuidadosa e sem conclusões definitivas. Mais do que encontrar uma causa única, o desafio está em compreender a diversidade do espectro e oferecer suporte adequado às necessidades de cada pessoa.


Referência:

Pearson, H. (2025, August 26). Autism is on the rise: What’s really behind the increase? Nature. https://www.nature.com/articles/d41586-025-02636-1


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