Capote, morra e levante
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Capote, morra e levante

Era dia, todavia, chovia em demasia e o céu nublado do meio da tarde lembrava o início da noite. Pessoas comuns se aglomeravam em torno do acidente. Não demoraria até que a ambulância da administradora da rodovia chegasse e socorresse a moça. O carro havia capotado sozinho. Pela inclinação excessiva do estrada, somada ao asfalto preto da chuva, parece que o veículo vai deslizar a qualquer momento. Dá pra ver que não existe um precipício ou qualquer perigo real, é só o instintivo imaginar de que um carro de ponta-cabeça deslizando não pode ser boa coisa.

Eles chegaram. Estão tirando a maca com pressa, são bem treinados pelos movimentos tão sincronizados, o que demonstra bastante experiênica. Estão sérios demais. A preocupação dos experientes se demonstra com a seriedade de uma cara fechada e comandos firmes aos curiosos. A moça deve estar mal mesmo. O vidro da porta do motorista está despedaçado e é por ele que o braço fino dela se contorce revertido pelo chão. Seu rosto ficou voltado para o lado do passageiro e os cabelos – loiros – se reviraram como quando acorda pela manhã. Isso impede que seus olhos sejam vistos, violando um pouco menos a privacidade de estar morrendo na frente de estranhos. Os pedacinhos quadrados machucam a pele do dorso dos dedos de um jeito que não furam, mas fazem formar um risco de sangue que descem BR a-baixo com a ajuda da chuva. Estava sem o cinto. Sentiram o pulso por um tempo demorado demais e, assim que o colar cervical foi fixado, começaram a puxá-la de um jeito protocoladamente pausado. Ela parece comigo. Deixa eles a retirarem toda pra eu ver. Sou eu mesma.

– É você sim. Responde um estranho ao lado dela.

Sentados em dois banquinhos retráteis de pano, daqueles que se usam os diretores de cinema pra poder dobrar e ir de um lado ao outro do Set, estão um homem jovem e eu. Estamos dispostos a uma distância estratégica para se ver toda a cena. Sempre achei que esses banquinhos fossem desconfortáveis. Não são não.

– O que houve aqui?

– Você capotou o carro.

– Hum... Estou morta?

– Nas tabelas do último Guide-Line, sim. Mas não. O que importa é que você não continuará morta. Depois da nossa conversa você pode voltar.

– Estou calma demais, não?

– Sim. Mas isso foi eu quem adicionei. Ter conversas existenciais com pessoas histéricas já me deu muita dor de cabeça. A insalubridade desse trabalho quase me fez ir pro setor de surtos psicóticos. Era inexperiente. Hoje me dou esse luxo.

– Você, quem é, moço?

– Isso não importa muito. Um fantasma, um espírito do natal passado, sua consciência alucinando em estado de privação de oxigênio... tanto faz. O que importa é o nosso diálogo. Além do mais, não vais poder se lembrar de mim depois que acordar.

– Você é muito educado no jeito que fala, moço.

– Obrigado por notar. Venho treinando isso. E você é muito bonita.

– Agradeço o carinho.

– Pois bem. Se você está aqui é porque tem uma história para me contar. O que é então dona...

– Denise.

– Me diga então, Denise, o que te aflige tanto? Embora tenha as minhas limitações, sou um ótimo ouvinte. Além do mais, foi dado a mim a habilidade de poder sentir o seu argumento. Sabe como é, um ponto de vista – por exemplo – de alguém defendendo a liberdade individual é extremamente melhor compreendido por alguém que anceia por liberdade individual. Se aplica a tudo, coisa boa e coisa não boa. O sentimento é a força do argumento. Eu posso sentir o que você sente enquanto o descreve.

– Então tá então! Posso começar?

– Quando quiser.

Tenho 20 anos. Curso medicina na universidade aqui perto. Estou na 5ª fase e faço alguns estágios letivos. Um de pneumo e o outro na emergência. Suturando, sabe? Não te chateies com essa descrição técnica. Gosto bastante do meu curso e não vejo problema em me definir também pela faculdade que eu sempre quis fazer.

– De maneira, alguma. Fale como preferir.

Pois então. Sou tímida e organizada. Se você somar meu curso com esses dois adjetivos você já tem 90% de mim. Os outros 10% vem do meu gato. Ele estava no carro, não é? Está vivo?

– Infelizmente não. Você esqueceu de prender a caixa dele no banco de trás. Não aconselho ir lá olhar.

– Verdade. Enquanto o carro girava no ar depois da roda subir pelo barranco eu me lembrei disso. Saí com pressa. Na verdade... acho que devo ser totalmente sincera com você, eu lembrei que ele estava solto ainda enquanto dirigia. Sabia que ele iria morrer quando eu fizesse o carro capotar.

– E isso não a incomodou?

– Não. Toda a dor que sofri sozinha e as pessoas ao meu redor passando alheias a mim, isso me confortou. Ele morreria como eu. Só que de uma vez só, não aos pedacinhos. Foi uma atitude egoísta demais?

– Acho que não. E se foi, e se ele gostava de você, deve ter entendido o sacrifício.

– Obrigado por dizer isso.

– Disponha.

– Eu dizia...

– Que sofria.

– Ah, sim. O início de tudo começa por que não tinha nenhum grande motivo pra chorar. Minha família era de classe média – sem pai, morreu quando eu tinha 3, tinha bons amigos na faculdade, faço o que eu gosto, sem namorado. Não tenho tanta necessidade disso agora. Não ter um motivo claro pra sofrer me deixava envergonhada e, pra mim, era uma vergonha desprezível. Como poderia sentir assim com tanta gente pior se sentindo bem?

– Olha...não concordo com isso. A diguinidade dada ao ser que sofre é ponderada por aquilo que o aflige. Seja lá o que for. Sou eu não que digo, conheço o cara do departamento que faz a tabela desses conceitos éticos. A sala dele é colada na minha, pro bem ou por mal ouço tudo o que vem do escritório dele. Então era pura depressão o seu caso?

– Penso haver algo a mais. Na verdade a depressão acentuava.

– Diga, Denise.

– Não consigo fazer o que eu quero.

– ?

– Tudo que faço não dá certo. Explico, não que eu não faça bem feito, sou reconhecida como uma boa garota, mas ser uma boa garota me irrita profundamente. Me irritava, melhor dizendo. Nos últimos tempos, ser reconhecida como “boazinha” estava é me deixando pra baixo. Será que eu nunca vou passar disso? Boazinha?

– É só isso? Você tem mais alguma queixa que acredites ser fonte do que fizesse nessa noite?

– Não. Sou organizada e tento ser didática. Foi pouco pra ter tentado me matar?

– Olha, pra maioria das pessoas, sim. Eu, lembre-se você, posso sentir o que sente enquanto se analisa. Isso de dizer que não é boa em nada, aos olhos dos outros, é pouco pra cometer suicídio. Mas quais são as consequências do que isso provoca em ti? Depressão é encarada como justa se é advinda de uma grande perda e que, naturalmente deve logo passar. Mas isso é luto, é comum confundirem. Voltando, o fato é que o que me contas te fez atentar pra sua própria vida. Olha, Denise, pra te falar uma verdade, uma farpa de muito tempo é bem pior que uma grande estaca cravada no peito. A estaca você claramente vê, puxa, instintivamente pensa num jeito de tirar aquilo dali e se salvar. A farpa é um parasita sugando. Me preocupo muito mais com isso hoje em dia nos casos que atendo.

– Você está nessa função a um tempo considerável, imagino.

– Sim. Mais do que você pode imaginar.

– Viu muito então?

– Vi muito.

– Sacia uma curiosidade?

– Sacio.

– Antigamente existia isso?

– Depressão?

– Sim.

– Existia. Todavia, tudo era mais devagar. Sobrava tempo. Hoje só se ouve música se for de fundo. A pressa consumiu umas coisas que a alma usava pra se revigorar. E pior...adicionou outras.

– Desculpe interromper mas acho que estou me levando pro hospital. Devem achar que estou viva.

– Na verdade, agradeça por ser tão bonita. Semana passada a mesma equipe atendeu um caso de um velho, sei não se era tão velho mas velho era como parecia pela barba e roupa, com o mesmo estadiamento que o seu. Nem sequer tentaram algo. Com você está sendo diferente. Eles simplesmente a-olham e não conseguem aceitar o que as recomendações dizem no seu caso: que provavelmente nem chegas viva ao hospital. Pra sua sorte, Denise, a beleza não combina com a morte. O velho estava morto. Você só está dormindo. Confunde a cabeça deles, por isso estão te levando. A propósito, irás acordar na ambulância. Quando eles te desfibrilarem você abre os olhos e nossa conversa acaba.

– Sobre o que eu disse de mim... Disseste que logo eu volto. Se volto do mesmo jeito que eu fui logo é provável que vou tentar me matar de novo, não é?

– Sim. Provavelmente.

– Acho prudente continuar nosso diálogo então.

– Vá em frente.

– Vou fazer perguntas. Pode ser?

– Pode sim.

– Livros de auto-ajuda?

– Mais valia ter gasto o dinheiro com os de filosofia.

– Tentei uma vez. Desisti. Broxante, sabe?

– Começou com o que?

– Assim falava Zaratustra.

– Ah, explicado. Atendi esse cara umas tantas vezes. Ficávamos horas na labuta. Sujeito bacana, se conseguir ficar calmo com os ataques dialéticos a conversa rende bem. Cortei a relação porque comecei a desconfiar que ele achou algum jeito de burlar o sistema e se lembrar de mim quando voltava. Uma vez fiquei olhando ele tomar veneno e a rosto dele... não parecia o de alguém que estava se matando. O bigode exagerado dificultava as expressões faciais, demorei pra perceber que ele fingia a dor da morte. Enfim, começou mal com esse livro. Ele mesmo dizia que deveria ser o último livro da terra pra se ler. Do jeito dele era assim: “Ao idiota que fazer desse não seu último livro. Isso é o que escrevi na dedicatória. A editora não gostou e mudou”.

– Tentei Fédon, ou da Alma.

– Vixi...

– Tinha lido a Apologia de Sócrates antes. Parcamente entendi e continuei. Não rolou.

– Já leu O Pequeno Príncipe?

– Não li.

– Alice no País dos Espelhos?

– Vi o filme.

– Hum...

– A despeito das más escolhas que fiz, tenho alguns amigos que posso ter conversas profundas.

– Não se trata disso. Acho que você não se construiu.

– Como assim?

– Nosso tempo é curto: vamos as metáforas! Você nasce com o cérebro zerado, Denise. Tem o básico na forma de instinto, no mais, zerado. Conforme se cresce se é influenciado por aquilo que te cerca. Por uns anos o cérebro aceita várias variáveis, porém, mais ou menos na adolescência ele é programado pra cansar. Acho que deveria ser depois, mas fui voto vencido na reunião quando decidiram. Que seja! Fato é que ele cansa. É aí que ele precisa do padrão.

– Explique-se.

– Não importa o que seja. Ter religião, não acreditar em nada. Ser fanático por um torcida organizada violenta, engajado na luta a favor dos direitos humanos... ele é um simulador, vai te fazer acreditar no que você decidiu inconscientemente acreditar enquanto formava o caráter, e faz isso por necessidade. Ele não tem razão de existir se não ver um sentido nas coisas. Entenda, Denise, você precisa que sua mente sofra uma programação. O homem é um ser lógico. O cérebro é um ente que vive de padrões. Sem um algorítimo, sua cabeça convulsiona. Como você não pode ser dissociada do seu cérebro, se ele entra em pane, você implode junto.

– Foi isso o que me levou a capotar o carro?

– Foi um processo que levou a isso. O nome do processo você chamou de depressão.

– Ainda dá tempo de achar esse padrão?

– Dá. Ta na texto original, cláusula pétrea: “Molde-se quando for.”

– Como se faz? Já sei... por minha conta, certo?

– Pegasse o fio de meada.

– Algum conselho?

– Compre um cachorro dessa vez. Aquele gato me dava vontade de fazer uma forca.

– Uma última pergunta:

– Diga.

– Se não vou lembrar de ti como essa conversa vai ter influência em mim quando eu voltar?

– Vai ser na forma de impulso. É quase o saber sem saber da memória muscular de dirigir um carro. Uma vontade constante e profunda de querer buscar seu lugar ao sol, seu eu-interior, acho meio brega os nomes que dão mas o tempo é curto e assim você entende. Sabe como quando sai de um teatro emocionada mas não lembra das falas dos atores? Mais ou menos isos. Fato é que a acomodação acaba aqui, Denise.

– Obrigado pela conversa.

– Por nada. É meu trabalho. Uma última coisa: “Leve o tempo que precisar pra achar aquilo o que você procura na vida e, quando encontrar, não recue ante nenhum pretexto. Porque o mundo tentará te dissuadir“.

– Você leva jeito mesmo pra essas coisas.

– AFASTA!

– Como é?

– AFASTA! Administra adrenalina IV. Ela tá com pulso forte. Deixa de sobreaviso no hospital o Dr. Marcelo.

Fim.

Eric Andrius

UNISUL- Campus Pedra Branca

5º semestre

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