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COVID-19 em Crianças: Benigna?

COVID-19 em Crianças: Benigna?

Toda literatura médica de qualidade ou não sobre COVID-19 em crianças já em sua introdução comenta que é uma doença menos prevalente e benigna em crianças.

Será que realmente podemos afirmar isto?

Em relação ao número de casos, gravidade dos sintomas, necessidade de internações em unidades de terapia intensiva e mortalidade, esta afirmação está completamente correta.

No entanto, duas variáveis nos fazem repensar esta afirmação:

A- Durante mês de abril no Reino Unido e outros países da Europa houve relatos e alertas aos familiares e comunidade médica de crianças que apresentavam sintomas como febre, erupções cutâneas, hiperemia conjuntival, prostração cansaço e que rapidamente evoluíram para sinais de baixo débito com necessidade de internação em unidades de terapia intensiva.

A grande maioria das crianças teve a COVID-19 com manifestações leves ou foram assintomáticas, ou tiveram contato domiciliar com familiar COVID-19 +, entre 2 e 6 semanas antes do início do quadro. Algumas crianças ainda tinham Rt PCR positiva para SARS-Cov-2.

Devido ao número crescente de casos, em maio houve comunicados do Royal College of Paediatrics and Child Health, da World Health Organization e Center for Diseases Control and Prevention para alertar população e classe médica, especificamente os pediatras e emergencistas desta nova e grave entidade clínica, que coloca em risco a vida de crianças expostas previamente à COVID-19.

Devido às semelhanças clínicas com a conhecida Doença de Kawasaki, inicialmente se achou que seria um surto desta vasculite autoimune tendo como gatilho este novo coronavírus. Evidências demonstraram que os casos não contemplavam todos os critérios para Doença de Kawasaki e a denominação temporária internacionalmente aceita no momento, desta complicação é Síndrome Inflamatória Multissistêmica em Crianças(MIS-C).

Trata-se de uma complicação tardia grave onde a maioria dos pacientes apresentam-se com choque cardiogênico, enzimas cardíacas elevadas, necessidade de suporte ventilatório e drogas inotrópicas. Todos os casos internam em unidades de terapia intensiva por tempo médio de 5 a 7 dias e com mortalidade 10 vezes maior que a mortalidade da COVID-19 em sua fase aguda.

B- Crianças correspondem a aproximadamente 2% do número total de casos, a necessidade de internar é de 5 a 10 % e com uma mortalidade de 0,2 a 1,0%.

Estes números corroboram para afirmação de benignidade e não agressividade desta pandemia em crianças quando comparadas aos adultos.

Com a determinação de pandemia pela Organização Mundial de Saúde em março, praticamente 90% das escolas do mundo fecharam, deixando em torno de 2 bilhões de crianças sem escolas e isoladas em suas casas.

Este isolamento prolongado em casa, necessário sem dúvida nenhuma, trouxe importantes consequências negativas a todos, mas sem dúvidas mais marcantes aos idosos e crianças.

Alteração da saúde mental hoje é a principal preocupação e angústia de pais e pediatras como efeito secundário da COVID-19. Estimando que 40% das crianças tiveram e/ou ainda tem alterações como depressão, angústia e ansiedade.

Outras consequências tão importantes são: inatividade física, menor exposição ao sol e suas consequências, piora da saúde alimentar visto que 3/4 dos alunos de escolas públicas tem suas principais refeições nas escolas, aumento dos índices de sobrepeso e obesidade além de absurdos e inadmissíveis aumentos de agressões físicas e abusos sexuais.

Como o Brasil tem 48,5 milhões de estudantes, estima-se que pelo menos 20 milhões de crianças(40%) estão sofrendo e tendo importantes consequências secundárias negativas desta grave e mais fatal epidemia em nosso país.

 Os traumas das agressões e abusos, consequências dos déficits de aprendizagem, alterações imunológicas e nutricionais do afastamento prolongado das escolas, com certeza já trazem e trarão por um irreparável período de tempo, graves consequências ao enorme número de crianças vulneráveis de nosso país.

Após estas duas ponderações repito a pergunta do início deste texto:

A COVID-19 É BENIGNA EM CRIANÇAS ?

 


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Referências

1-Pediatric Mental and Behavioral Health in the Period of Quarantine and Social Distancing (COVID-19). Jiancheng Ye. JMIR Pediatr Parent . 2020 Jul 7. doi: 10.2196/19867. Online ahead of print

2-Multi-System Inflammatory Syndrome in Children (MIS-C) Following SARS-CoV-2 Infection: Review of Clinical Presentation, Hypothetical Pathogenesis, and Proposed Management.Children (Basel), 2020 Jul 1;7(7):E69. doi: 10.3390/children7070069

 

Academia Médica
Rubens Cat
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Médico pediatra e professor associado da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atual chefe do Departamento de Pediatria do Hospital de Clínicas (HC-UFPR)

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