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Cuidado com o que fala, doutor(a)!

Cuidado com o que fala, doutor(a)!

Em pronunciamento público nessa última semana, o presidente Jair Bolsonaro parabenizou o Dr. Roberto Kalil, cardiologista do hospital Sírio-Libanês e presidente do conselho do InCor (HC-FMUSP), por defender o uso da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com COVID-19 após ter sido acometido por essa doença e recebido tal medicação.

Independentemente da visão política particular de cada um de nós, como acadêmicos de medicina e médicos atuantes precisamos refletir acerca desse episódio.

Será que o Dr. Roberto Kalil foi feliz ao emitir sua opinião sobre seu tratamento com hidroxicloroquina de forma pública e com alcance nacional?

Mais do que tentar responder a essa pergunta, farei ainda mais questionamentos para refletirmos juntos.

 

O médico como um deus

Não é novidade que médicos e médicas são endeusados.

No meu primeiro dia de aula da faculdade, fui recebido, junto com meus colegas de turma, por um professor da universidade que tratou de nos "assustar" logo de cara:

"A partir de hoje, tudo o que vocês falarem ou fizerem terá um peso social diferente do que tinha antes de vocês se tornarem estudantes de medicina. Tenham cuidado a partir de agora."

Achei que aquilo fosse um mero ataque de vaidade de um cátedra de uma universidade reconhecida (cena que convivo quase diariamente).

Mas não era. Ele estava certo. Comprovei o que ele disse logo nos primeiros finais de semana que pude voltar para minha cidade natal e conversar com meus familiares e amigos. Algo havia mudado.

Mais recentemente, em reunião de pauta com o Alpha Squad da Academia Médica, tivemos o privilégio de ouvir a Dra. Cristina Veloso falar sobre o poder de influência que os médicos têm. Ela deixou claro que devemos usar isso sempre da melhor forma possível, levando informação de qualidade para colegas e para pacientes. Minha perspectiva sobre o peso da palavra do médico ganhou mais um reforço (e que reforço! Obrigado, Dra. Cristina).

Imagem da nossa reunião de pauta semanal com a presença da dra. Cristina (retirada da publicação do Alpha Squad).

Desde a sua concepção, a medicina lida com as fraquezas e os prejuízos biológicos e mentais dos pacientes. Mais diretamente, lida com a vida e a morte. Logo, o profissional médico representa, antes de qualquer coisa, a personificação de uma esperança quase divina: carrega em suas mãos a chance do paciente derrotar a morte e voltar à vida.

Assim, para as pessoas que não lidam diretamente com a área da saúde, o médico é praticamente uma divindade. Da mesma forma que a maioria delas se ajoelha perante uma entidade divina reconhecida pelas mais variadas religiões para clamar por uma intercessão, em momentos de intensa enfermidade as pessoas passam a rogar da mesma maneira pela intervenção médica.

Isso é lindo e poderoso e talvez seja o que a profissão médica tenha de mais bonito: oferecer a possibilidade de um ser humano cuidar de outro quando este se encontra em estado de total fragilidade, despido de qualquer orgulho ou vergonha e entregue de corpo e alma aos cuidados de um ou mais desconhecidos.

Portanto, da mesma forma que os deuses são, por definição, representações de tudo o que é certo, os crentes das "divindades médicas" encaram tudo o que os médicos fazem ou falam como correto e exemplar. É uma inferência lógica.

"Se uma pessoa que lida diretamente com a vida e a morte de outra não pode errar, então tudo o que ela diz e faz está certo, pois caso contrário constituiria uma antítese do próprio ser médico".

Em um dos mais belos trabalhos científicos que já li, "Como médicos se tornaram deuses: reflexões acerca do poder médico na atualidade", os autores Andrea Cristina Lovato Ribeiro e Alcindo Antônio Ferla expõem que, entre outras coisas, o modelo de atenção à saúde vigente também é responsável por esse endeusamento devido ao papel central que o médico exerce. Tudo passa pelo médico e ele tem que saber um pouco de tudo para conseguir atender corretamente seus pacientes, uma vez que o conceito contemporâneo de "saúde" não é mais somente a "falta de doença", mas sim "falta de doença e qualidade de vida".

Sendo assim, é preciso saber como explorar todas as diferentes capacidades do paciente para não só curá-lo de sua patologia, mas dar a melhor qualidade de vida possível dentro do cenário de vida que se apresenta.

"Quem só sabe de medicina, nem de medicina sabe" - Abel Salazar

 


O caso Kalil

O Dr. Roberto Kalil é um médico renomado, reconhecido nacionalmente por sua atuação no hospital Sírio-Libanês e no InCor (HC-FMUSP), além de suas consultorias em programas de televisão (programa Bem-Estar, da Rede Globo) e redes sociais.

Se, pelo simples fato de ser médico, sua fala já tem grande peso, quando consideramos seus cargos de atuação, sua relevância ganha uma outra dimensão.

Logo, se eu, um mero acadêmico, penso muito antes de opinar sobre qualquer coisa relacionada à área da saúde, tenho certeza que o Dr. Kalil também pensa antes de falar.

Certo???

 

1) Falta de comprovação de eficácia

O uso da hidroxicloroquina e da cloroquina é, neste momento, polêmico.

Apesar de alguns estudos sugerirem que essas drogas têm potencial para tratar pacientes infectados pelo coronavírus, não existe nada que comprove isso. Logo, afirmar qualquer coisa antes de estudos científicos obterem dados suficientes para embasar conclusões é, no mínimo, precipitado.

Há outros profissionais, inclusive do InCor, que enxergam esses medicamentos segundo essa última óptica.

A Dra. Ludhmila Abrahão Hajjar, por exemplo, cardiologista e intensitivista, médica e professora do InCor, além de diretora de ciência e tecnologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia, defende que a cloroquina não é a salvadora que pensamos (veja aqui sua entrevista para a Folha).

> Quem está certo?

 

2) Consequências para outros pacientes

Com a recente falta desses medicamentos na farmácia do Brasil, noticiada intensamente na última quinzena, constatamos como o desespero de leigos pode afetar negativamente o tratamento de pacientes que fazem uso regular de hidroxicloroquina ou cloroquina para combater doenças autoimunes, como artrite reumatoide e lúpus.

Se antes, com um mera notícia de jornal, as pessoas já corriam para as farmácias, o que elas pensarão depois de ouvir um médico falar sobre esse medicamento?

Com certeza essa fala do Dr. Kalil refletiu em pessoas que, de fato, estão doentes e colocou em risco todas as outras que desejam se automedicar com a "pílula mágica" contra Covid-19.

> A sua fala causou mais benefícios ou mais prejuízos aos pacientes brasileiros?

 

3) Complexidade do tratamento

Em uma de suas entrevistas recentes para a Rádio Jovem Pan (link aqui), o Dr. Kalil revelou que, além da hidroxicloroquina, tomou diversos outros medicamentos para aliviar o seu quadro grave de pneumonia.

"Tomei corticoide, anticoagulante, antibiótico."

Assim, nem mesmo ele sabe determinar qual o papel de cada medicação na sua evolução e recuperação. Ele próprio assume, na entrevista, que, provavelmente, a hidroxicloroquina não foi a única responsável pela sua recuperação.

> Por que dar tanta atenção a essa droga? Por que não dar a mesma importância aos corticoides, anticoagulantes e antibióticos?

> Por que ressaltar que ela deve ser usada para tratar pacientes de Covid-19?

 

4) Relação médico-paciente

O tratamento do Dr. Kalil foi determinado segundo a vontade dele (paciente) e o consenso do seu médico, no âmbito da relação médico-paciente e com todas as suas garantias, como realmente deveria ser e foi.

Porém, felizmente, cada médico tem uma visão sobre os inúmeros tratamentos para as mais diferentes doenças. Apesar do cientificismo ser o alicerce da conduta médica, muito do que se faz na prática clínica se baseia em conhecimento empírico. Aliás, é isso que diferencia bons médicos de maus médicos e que pode poupar vidas em momentos críticos de tomadas de decisão urgentes.

Logo, cada médico analisa seus pacientes de forma única. Nunca haverá dois casos idênticos, mesmo que sejam muito semelhantes.

> Então, por que não valorizar a relação médico-paciente no contexto de tomada de decisão com relação ao tratamento contra o Covid-19 ao invés de indicar uma medicação como "salvadora"?

 


O fim dos porquês

Depois de ler e pensar tanto sobre o assunto e ficar assustado com a proporção que a fala do Dr. Kalil tomou nas publicações da imprensa nacional dos últimos dias, decidi trazer esse assunto para os leitores da Academia.

Creio que, independentemente do cargo que ocupamos atualmente, esse caso traz à tona muitos questionamentos que devem ser feitos sempre que pensamos em publicar alguma opinião nossa.

Como o professor disse no meu primeiro dia de aula, somos diferentes a partir do momento que entramos em uma escola de medicina. Não há como fugirmos, gostemos ou não.

Assim, qualquer coisa que a gente faça ou fale ganha outra proporção graças ao endeusamento do "ser médico".

Da mesma forma que decidimos se devemos intervir ou não em um paciente grave, temos que sempre colocar na balança os benefícios e os prejuízos que uma fala pode gerar e, a partir do saldo dos pratos da balança, interpretar se é válido ou não torná-la pública.

Caso não façamos isso, podemos colocar muitas vidas em risco.

O que você, caro(a) leitor(a), achou da atitude do Dr. Kalil? Coloque sua opinião nos comentários :)

Academia Médica
Eduardo Pavarino
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Eduardo Pavarino é bacharel em Ciência da Computação pela UNESP e graduando em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). Além disso, é Co-fundador da Hackmed Conference & Health Hackathon e escritor do Alpha Squad da Academia.

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