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Bebês transgênicos, macacos clonados e quimeras: experimentos chineses que confrontam limites bioéticos

Bebês transgênicos, macacos clonados e quimeras: experimentos chineses que confrontam limites bioéticos

A China tenta se tornar líder em pesquisa genética e clonagem, e as áreas cinzentas da legislação ditatorial local abriram caminho para experimentos às vezes controversos, na linha tênue entre ciência e ética. 

  • Cientistas chineses foram os primeiros em 2015 a conseguir modificar genes de embriões humanos, de acordo com a revista Nature;
  • No mesmo ano, um canteiro de clonagem animal estava sendo construído em Tianjin, com a ambição de produzir até um milhão de gados de corte por ano.
  • No início de 2018, pesquisadores chineses conseguiram dar à luz pela primeira vez macacos geneticamente idênticos pela mesma técnica de clonagem usada há mais de 20 anos para a famosa ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado. 
  • Um grupo de pesquisa da China anunciou em 15 de abril na revista científica Cell que conseguiu desenvolver em laboratório embriões híbridos de macaco e humano.
  • Durante o experimento, os embriões cresceram e se multiplicaram, sobrevivendo por até 19 dias em cultura. É a primeira vez que as células das duas espécies se comunicam com sucesso, gerando uma quimera (denominação para o ser criado a partir de dois animais). O estudo está dividindo a comunidade científica a respeito dos limites éticos envolvendo uma combinação de seres tão próximos na cadeia evolutiva e as possíveis consequências disso.

O polêmico experimento com células humanas cultivadas em embriões de macaco

Embriões de macaco contendo células humanas foram feitos em um laboratório. A pesquisa, feita por uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos e da China, gerou um novo debate sobre a ética de tais experimentos. Os cientistas injetaram células-tronco humanas (células que têm a capacidade de se desenvolver em muitos tecidos diferentes do corpo) em embriões de macacos. Os embriões em desenvolvimento foram estudados por até 20 dias. Outros chamados embriões de espécies mistas, ou quimeras, foram produzidos no passado, com células humanas implantadas em embriões de ovelhas e porcos.

Estados Unidos, Reino Unido e Japão já limitaram as pesquisas com quimeras envolvendo células humanas. O estudo mencionado neste texto foi financiado pelo governo chinês em parceria com uma universidade espanhola e uma fundação americana. Em maio de 2021, a Sociedade Internacional para Pesquisas com Células-Tronco (ISSCR) deverá publicar novas regras para estudos com células-tronco que devem envolver as quimeras, pois há um comitê da instituição especificamente para discuti-las atualmente.

Se estas pesquisas podem contribuir para o desenvolvimento de medicamentos, ou de tratamentos, para doenças humanas, elas levantam questões éticas, especialmente no que diz respeito à clonagem humana.  De acordo com Qiu Renzong, pioneiro das questões de bioética na China, os pesquisadores muitas vezes escapam das sanções, porque devem prestar contas apenas à sua instituição. E alguns não recebem qualquer punição por negligência.

"A China protege muito os cientistas. Se cometermos um pequeno erro, para por aí. Não há sanções", lamentou nesta terça-feira em Hong Kong, à margem de uma conferência internacional sobre modificações genéticas.

Leis mais flexíveis permitiram que a China tivesse uma vantagem no campo biomédico, aponta Michael Donovan, fundador da Veraptus, uma empresa de biotecnologia baseada no país asiático.

"Em muitos setores, se o legislador não decidiu, é que podemos avançar, com cautela. É nessas águas turbulentas que a pesquisa sobre modificação genética se encontra neste momento", diz. E não há a pressão de grupos religiosos como existe, por exemplo, nos Estados Unidos, "mas trata-se da vida, e as pessoas ainda se preocupam com irmos rápido demais". Parece que na China não temos restrições morais que nos impeçam de realizar esse tipo de pesquisa", disse à AFP Fang Gang, professor assistente de biologia na Universidade de Nova York em Xangai.

Alguns cientistas, no entanto, levantaram preocupações sobre o experimento, argumentando que embora os embriões neste caso tenham sido destruídos em 20 dias, outros poderiam tentar levar o trabalho adiante. Eles estão pedindo um debate público sobre as implicações da criação de quimeras com parte humana e parte não humana.

 


 

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Referências:

[1] Contribuição quimérica de células-tronco pluripotentes estendidas humanas para embriões de macaco ex vivo: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(21)00305-6

[2] Falha na regulação bioética tem permitido experimentos polêmicos na China: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2018/11/27/interna_mundo,721800/falha-na-regulacao-bioetica-tem-permitido-experimentos-polemicos-na-ch.shtml

[3] O polêmico experimento com células humanas cultivadas em embriões de macaco: https://epocanegocios.globo.com/Vida/noticia/2021/04/o-polemico-experimento-com-celulas-humanas-cultivadas-em-embrioes-de-macaco.html

[4] Primeiros embriões macaco-humanos reacendem o debate sobre animais híbridos: https://www.nature.com/articles/d41586-021-01001-2

[5] Quimerismo interespécies com células-tronco pluripotentes de mamíferos: 

https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(16)31752-4?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0092867416317524%3Fshowall%3Dtrue

Academia Médica
Bárbara Figueiredo
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20 anos. Acadêmica de Medicina na Fundação Educacional de Patos de Minas. Estagiária da Academia Médica. Instagram: @figueiredobabi

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