Doenças Cardiovasculares nas Atividades Militares
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Doenças Cardiovasculares nas Atividades Militares

Doenças Cardiovasculares nas Atividades Militares

*Por Rodrigo Rocha Correa

Na última década a humanidade verificou um aumento estrondoso da incidência e prevalência de doenças cardiovasculares, principalmente as coronariopatias, as quais estão afetando uma faixa etária cada vez menor. Tal fato ocorre devido a alguns fatores de risco primordiais estarem presentes, principalmente o aumento da obesidade e sedentarismo, “os males do século”.

Apesar de ser um ambiente em que o estímulo à prática de atividades físicas se faz de maneira contínua, através do TFM (treinamento físico militar), o número de caso em militares está se elevando. Vários eventos relacionados na mídia expuseram de forma veemente a porcentagem de coronariopatias que afetam o ambiente militar. Pode-se afirmar que a obesidade, sedentarismo (mesmo com o espaço no expediente destinado ao TFM, alguns militares simplesmente não o fazem), tabagismo, hipertensão arterial sistêmica e dislipidemias são os fatores de risco principais. Alguns dos óbitos ocorrem de maneira drástica, caracterizando as mortes súbitas. De todas as causas de morte súbita no mundo, 90 % são de origem cardiovascular e , em sua maioria, evitáveis. No entanto, em indivíduos mais jovens, hígidos e sem fatores de risco aparentes (geralmente abaixo dos 35 anos de idade), algumas cardiopatias são praticamente imprevisíveis e, durante uma simples atividade, pode levar ao êxito letal. A principal causa de morte neste seleto grupo é a Miocardiopatia Hipertrófica, entidade em que há um aumento volumétrico e funcional dos miócitos de modo espontâneo (aventa-se a possibilidade de associação de mutações genéticas na gênese da doença), com conseqüente aumento do coração, levando na maioria das vezes a um déficit de relaxamento na fase de diástole, ocorrendo desta forma um menor volume sistólico efetivo. A demanda energética aumenta ao longo do tempo para fins de manutenção da massa muscular aumentada, predispondo desta forma a disfunções arritmogênicas e isquêmicas. Em pacientes predispostos e que fazem exercícios regulares, os exames de rastreio podem se mostrar ineficazes, visto que a hipertrofia fisiológica confunde-se com esta patologia. Basta observar nos últimos anos o número de atletas jovens que morreram de morte súbita.

https://www.youtube.com/watch?v=3aNG5lkwnZ0

Em posse de tais informações, as Forças Armadas preocuparam-se e tomaram algumas medidas no âmbito da Medicina Preventiva, a qual faz parte da Medicina Militar. No Exército Brasileiro três testes de aptidão física(TAF) são realizados anualmente, os quais consistem em corrida, flexão, barra fixa e abdominal, além de Pista de Pentatlo Militar em algumas unidades militares. São exercícios executados de maneira súbita e que demandam muita capacidade energética-muscular-respiratória. Geralmente aí que ocorrem os eventos negativos. Foi previsto em Manual de Treinamento Físico Militar no ano de 2015 a consecução de vários tipos de exames complementares de rastreio para este tipo de afecção, sempre realizados anteriormente ao primeiro TAF, com o intuito de diagnosticar alguma patologia cardíaca. Tais exames são solicitados baseando-se na faixa etária e nos diversos fatores de risco já mencionados.

Uma mudança considerável em relação ao último manual foi a mudança de faixa etária de 40 para 35 anos para a solicitação de exames, geralmente com os portadores dos fatores de risco. É visível, principalmente para mim que sou médico do Exército Brasileiro, o aumento de obesidade, diabetes mellitus tipo-2, tabagismo e hipertensão arterial sistêmica em fases cada vez mais precoces da vida, levando à elevação do potencial de anos de vida perdidos. Vale lembrar que os exames não têm custo para cada militar, sendo bancados pela Diretoria de Saúde do EB, pois são previstos em Manual específico. Ainda há a relutância de alguns militares, principalmente os de idade mais avançada, em seguir o orientado. No dia do primeiro TAF, a equipe de saúde faz um check-in com a relação de todos os militares que fizeram ou não os exames previstos. Quem não fez ou obteve alguma alteração nos exames, é proibido de realizar a atividade física. Concluindo, a anamnese, um bom exame clínico, o rastreio adequado e direcionado e , principalmente , orientação contínua e ativa, são fatores primordiais para o sucesso da prevenção das doenças cardiovasculares.

Abaixo, alguns links com matérias de morte súbita no ambiente militar:

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,pm-morre-durante-atividade-fisica-em-quartel-de-sorocaba,1779754

http://www.oimparcial.com.br/_conteudo/2016/04/ultimas_noticias/urbano/189094-sargento-do-exercito-morre-realizando-teste-fisico.html

http://acreaovivo.com.br/noticia/morte-subita-general-morre-ao-voltar-para-o-brasil/5975

 

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Rodrigo Rocha Correa

Rodrigo Rocha Correa

1 Tenente Médico do Exército Brasileiro.

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