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Dr. Celmo Celeno Porto sobre o futuro da relação médico paciente

Dr. Celmo Celeno Porto sobre o futuro da relação médico paciente

Dr. Celmo Celeno Porto sobre o futuro da relação médico paciente

O Academia Médica entrevistou em abril de 2014 o Professor Celmo Celeno Porto.

Conhecido por sua obra "Semiologia Médica - Porto" que está em sua 7ª edição, ele falou sobre o futuro da profissão médica, quando o assunto é a relação médico-paciente. As novas tecnologias, a revolução da informação e o empoderamento do paciente também foram abordados pelo mestre porto.

A entrevista foi conduzida pela acadêmica de Medicina da Universidade Estadual de Londrina e colaboradora do Academia MédicaAna Carolina Salem.

AM - Como o sr. vê o modo como a relação médico-paciente é abordada na formação médica atualmente? 

Dr. Celmo Celeno Porto - Considerando que a relação médico-paciente é a essência da medicina, eu acredito que a abordagem ainda não está nos níveis que precisará chegar. Ainda se dedica pouco tempo, ainda não há estratégias educacionais que permitam o aprendizado, então não vejo ainda como satisfatória a abordagem da relação médico-paciente na formação.


AM - O que o Dr. pensa sobre o uso de novas tecnologias na prática médica? O uso de aplicativos para smartphones, tablets, por exemplo, podem otimizar a consulta e ampliar o poder da semiologia no diagnóstico de doenças? 

Dr. Celmo Celeno Porto - A tecnologia é absolutamente essencial na prática médica, e ainda é pouco, ainda precisa mais. E vamos ter mais tecnologia. O grande segredo é vencer o desafio que é conciliar o método clínico, que permite o contato direto com o paciente, com os recursos tecnológicos. Cada vez vão ser mais usados, é inevitável, o mundo eletrônico/digital faz parte do nosso momento, e todos os pacientes hoje têm acesso ao mundo digital, seja internet, seja smartphone, tablet e eles vão usar cada vez mais. Nós devemos aprender a usar, otimizar esse material que está sendo colhido para poder melhorar a prática médica.

Acredito que a consulta online ainda não será possível, mas o que vai ser possível, e já é uma proposta, é a monitorização. A consulta é pessoal, é frente a frente, é olho no olho, mas depois que ela é feita, que eu já tenho o conhecimento, o diagnóstico, já tenho uma proposta terapêutica, não há nenhum problema em fazer a supervisão/monitoramento online, ou por vários recursos disponíveis.


AM - Como o uso dessas novas tecnologias tem influenciado a relação médico-paciente?

Dr. Celmo Celeno Porto - Têm influenciado mal, porque o médico acha que a tecnologia substitui o contato direto, isso é um grande mal. Isso é um grande prejuízo, isso só piora a prática médica. Tem que conciliar, o desafio é conciliar o exame clínico, o contato com o doente, com os recursos tecnológicos.


AM - Nos últimos anos, houve uma mudança geral na relação entre médicos e pacientes. Com o surgimento do paciente expert (e do Dr. Google), o médico deixa de ser o detentor exclusivo do conhecimento, porque o paciente tem a chance de buscar informações na internet e muitas vezes já chegar com o “diagnóstico pronto” da sua doença. Diante disso, o que fazer quando nos deparamos com um paciente assim (o “paciente expert”)?

Dr. Celmo Celeno Porto - Todos os pacientes vão consultar o ‘Dr. Google’, esteja prevenida quanto a isso. Eles vão ter um mundo de informações, basta você colocar lá dor de cabeça, experimenta fazer isso, vão aparecer milhares de informações, e o doente vai receber. Mas ele não sabe elaborar, ele não tem a capacidade de saber qual informação é boa pra ele, então quem vai ajuda-lo vai ser o médico, no momento que ele chega lá no consultório, às vezes até mais confuso, com tanta informação. O médico tem que admitir que hoje isso faz parte da prática médica, e nem pode ficar hostil, ofendido, ele deve ver com naturalidade. A informação quando ela é bem orientada, ela só favorece. Então, se o médico ajuda o paciente a encontrar sites adequados, ele pode indicar sites adequados. Por exemplo, Alzheimer, a família precisa aprender mais sobre Alzheimer, indica pra família um site adequado, vai ser só bom.


AM - Para finalizar, gostaria de saber qual o conselho o sr. poderia dar para nós, futuros médicos?

Dr. Celmo Celeno Porto - Eu não gosto de dar conselhos, eu gosto de ajudar vocês a encontrar os caminhos. Que caminho é mais adequado? Primeiro, insubstituível: Contato com o paciente. Esse é insubstituível, nem o livro do Porto vai substituir. (risos) Então, primeira orientação, desde o início do curso, faça contato direto com o paciente. De preferência com supervisão, com alguém que possa te ajudar a vencer aquela fase inicial, mas mesmo quando não tem supervisão, vá junto ao paciente, vá ‘apanhar’, vá ficar desorientada. Segunda coisa que eu diria pra vocês, entender o contexto não só da doença, mas também do doente. A medicina não é objetiva: ‘tem uma doença, dou um remédio’; não é assim. A medicina precisa entender o contexto, é preciso envolver a família, o trabalho do paciente, ai então você poderá ter uma boa formação médica. Sempre entender o paciente como pessoa, acima de tudo colocar a condição humana do paciente. A doença é uma intercorrência, e às vezes você nem vai curá-la, as vezes você vai controla-la. Mas outras vezes você não vai nem controla-la, ela é incurável, o paciente vai evoluir, mesmo assim, vá cuidar do paciente. Então você troca o paradigma de curar, pelo de cuidar. Esse é o grande segredo:

O sucesso seu na profissão, vai ser quando você aprender a cuidar dos pacientes.

Em um tempo em que exercer a profissão se tornou algo tão desafiador, devido às condições muitas vezes precárias as quais médicos e pacientes estão expostos; em um cenário onde prevalecem medidas eleitoreiras, guiadas apenas por interesses financeiros, e não por uma preocupação real com a saúde pública, é nesse período de transição, revolta e vontade de mudança, que nós tivemos a oportunidade de ouvir as palavras inspiradoras de três grandes mestres da medicina do Brasil. Ensinamentos que podemos levar como exemplo, para não desanimar diante das adversidades, mas sim lutar para uma prática médica cada vez melhor, cada vez mais humana. E por fim, como bem disse Dr. Leandro Diehl:

não deixar que “uma profissão que tem milhares de anos de existência, seja vítima de caprichos fortuitos e circunstâncias transitórias”.

Academia Médica
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