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E os direitos do médico?

E os direitos do médico?

E os Direitos do Médico?

*Por Max Ventura

Quando eu uso expressões tais como:
“O médico precisa lutar pelos seus direitos”
“O médico está sendo desvalorizado”
“O médico não tem segurança nenhuma”
“Absurdo o médico não ter direitos”

Para alguns, isso soa estranho, para outros é até repugnante. É comum ouvir pessoas chamarem os médicos de raça imprestável, mercenários, elitistas e blá blá blá. Normalmente as pessoas imaginam o médico com glamour, carro importado, viagens internacionais e muito dinheiro. Há também os que de modo obstinado afirmam que o médico tem tudo isso à custa do sofrimento alheio, que não fazem absolutamente nada e ganham muito.

Pra mim que ainda estou no terceiro semestre me parece assustador. É como se eu tivesse andando na contramão. As pessoas diariamente se movimentam em busca de direitos; direito da mulher, LGBT, negros, pobres, crianças, idosos, trabalhadores, agricultores e por aí vai; a lista é imensa. Todos os movimentos bem estabelecidos e bem aceitos.

Realidade-medica-do-brasil

Inclusive no âmbito da saúde, o movimento sanitarista, muito tem feito em relação ao direito do paciente; o SUS que possibilitou o acesso gratuito é uma dessas conquistas. Os profissionais de saúde também têm suas lutas; discussões também aceitas pela população e declaradas legítimas pelo povo.
De modo algum sou contrário a estes movimentos. Pelo contrário, acho válido e todos devem sim lutar por melhorias pessoais e coletivas às quais estão diretamente relacionadas ou não. Mas a questão é: Porque todos podem lutar e o médico não? Não é legitimo o questionamento médico? Para exemplificar a conjuntura atual vou listar algumas situações.

1 – A maioria dos médicos estão desempregados
Parece exagero, mas não é. A forma de contratação hoje é precária em todo o país. Normalmente é feito por contratos de prestação de serviços; estes sem nenhuma garantia. Não é difícil encontrar médicos que nunca assinaram a carteira de trabalho. A repercussão você já sabe, mas a titulo de retórica pergunto: e se ele for dispensado dos serviços? O que será dele se adoecer? E se uma médica engravidar? Será uma situação complicada sem uma boa poupança. Aposentadoria então é uma utopia.

2 – A formação está precária
Pouco se oferece e muito se exige. A abertura indiscriminada de escolas médicas em cidades sem estrutura, mensalidades absurdas e uma formação aquém do esperado é uma realidade que está se consolidando. O que será desses médicos diante de casos complicados? O erro é sempre imperdoável.

3 – Direito de escolha vetado
O governo criou a obrigatoriedade de o médico fazer residência em saúde da família. Além disso, a criação de novas vagas de residência em diversas especialidades ficará a critério da necessidade.
Neste ponto eu sinto que a pergunta: O que você vai ser quando crescer? Perdeu o valor. Na prática um médico mesmo sem se identificar com o serviço deverá obrigatoriamente ser médico de família e comunidade; o acesso à especialidade desejada só será possível se o governo achar que precisa. Isso certamente resultará em muitas frustrações e queda na qualidade do serviço prestado à população.

Hoje quando me perguntam: o que você vai ser? Eu posso responder apenas que não sei, mas que espero que o governo escolha para mim algo bom e que eu me identifique e me sinta feliz.

4 – Generalizações
Se uma pessoa faz algo errado, seja dirigir embriagado, corrupção, saiu cedo do trabalho, trabalhava ilegalmente ou cometeu um grave erro de atuação; dificilmente ganhará destaque. Mas se este for um médico, possivelmente estará na mídia; o fato de ser médico ganhará mais destaque que o ato; e para a maioria dos leitores será como se todos os outros fizessem a mesma coisa. “São todos iguais!” – Retrucam alguns.

5 – Médico supermáquina
Um vereador entra no hospital, xinga os médicos no repouso e se torna o herói da nação. Médicos tiram selfie dormindo em apoio a colega fotografado por paciente. Talvez você tenha lido sobre isso, ou até assistido o vídeo na internet. Mas é bom saber que todos os profissionais de saúde tem seu período de repouso em um plantão, mesmo que seja o único de plantão no setor. Isso faz parte da rotina diária de um hospital. Porém as duas situações ganharam visibilidade por se tratarem de médicos. É como se o médico devesse ter a capacidade de passar horas de plantão sem comer e sem dormir e ainda assim ter total rendimento.

6 – Falta de estrutura
Outro caso que chamou atenção ultimamente foi o médico que recebeu voz de prisão por não poder atender um paciente grave. Os hospitais não têm leitos suficientes, não dispõe de materiais para realização de procedimento; os médicos para não parar de vez o serviço acabam tentando dar um jeito para resolver a situação e atender a todos da melhor forma possível. O resultado? Diante do erro são processados. E se não podem atender eles é que recebem voz de prisão. Eu ti pergunto mais uma vez: Onde estão os administradores do serviço? E os políticos? Não interessa; não importa o que aconteça, o médico sempre será o culpado.

Você talvez nunca tenha ouvido falar de tantos problemas que o médico brasileiro enfrenta hoje. Eu citei apenas seis que tem tido destaque ultimamente. A realidade é bem pior. Se tiver uma oportunidade, converse com um médico a respeito. Talvez seja uma surpresa os absurdos que ouvirá e as condições as quais são submetidos.

Quanto a mim, tento manter a serenidade em minha formação. Não vou negar que tenho muito temor do futuro. Penso todos os dias como será minha vida pós-formado. Resolvi ir em frente e não desistir apesar de tudo. Mas espero que um dia as pessoas compreendam melhor a situação e tenham mais empatia. E entendam que eu só queria ter direitos. Se todo mundo têm, porque não eu?

max venturaMaximiano Ventura é estudante de Medicina do terceiro semestre pela Universidade Federal do Cariri em Barbalha-Ceará. Membro da Liga Caririense de Anatomia e Humana. Atua no SUS há 7 anos como técnico em radiologia; atualmente no Hospital Universitário Walter Cantídio - UFC/EBSERH. Preocupado com a atual precarização da formação, atuação e qualidade de vida do médico.

 

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