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É possível ciência sem imaginação?

É possível ciência sem imaginação?

Apesar da fragilidade, medos e incertezas, o ser humano sempre se mostrou grande demais para ficar aprisionado à gaiola do corpo. Nossa mente tem asas muito maiores que as de qualquer outra espécie presente na natureza. Asas que não são físicas, mas que carregam sonhos e desejos capazes de transformar o mundo em que a gente vive.

Por vezes valorizamos demais apenas os aspectos imediatos e facilmente explicáveis da vida e nem nos damos conta de que ação e razão são apenas partes de um sistema muito maior e muito mais complexo. Mais do que uma simples fuga do universo material ou movimento de pura e simples abstração, a imaginação é peça fundamental para a construção daquilo que chamamos de realidade.

De modo simplificado, imaginar é a habilidade de formar imagens em nossas cabeças e usá-las para construir e antecipar situações. Somente os seres humanos possuem essa capacidade. Uma exclusividade que nos acompanha desde que nossos ancestrais começaram a vagar por aí. 

De acordo com o arqueólogo e paleontólogo francês André Leroi-Gourhan, o privilégio de poder antecipar acontecimentos no tempo garantiu aos nossos parentes distantes as habilidades técnicas que nos permitiram chegar até aqui. A interação entre homem e ferramenta, fundamental para o desenvolvimento do cérebro humano, só foi possível graças ao exercício de antecipação e de projeção no tempo que só a imaginação é capaz de produzir. 

Mirando o alto

Talvez o ato de contemplar o céu tenha sido responsável por um dos primeiros grandes espantos da nossa espécie. Historicamente, diz-se que foi através da união entre razão e imaginação dos filósofos pré-socráticos que surgiu o embrião do pensamento científico ocidental. Mas, qual o papel da imaginação nos dias de hoje? 

Longe de estar atrelada apenas ao fazer artístico e literário, o exercício imaginativo está naturalmente instalado nas mais diversas instâncias do ser. Até mesmo naquelas em que o uso da mais fria e objetiva razão se faz necessário.

“Supor que a ciência não necessita de imaginação é uma das tristes falácias da nossa educação preguiçosa”, escreveu Jacob Bronowski em “O Olho Visionário”, livro que reúne algumas conferências dadas pelo autor sobre as proximidades entre ciência e arte. 

Bronowski foi uma das mentes mais inquietas do meio científico. Polímata de grande envergadura, Bronowski sempre nutriu especial interesse por áreas cinzentas, como a intersecção entre o pensamento científico e o artístico, inspirado principalmente pela poesia. Na década de 1970, ele escreveu e apresentou “The Ascent of Man" (A Escalada do Homem), programa da BBC em 13 partes que abriu caminho para outras importantes produções de divulgação científica, como a impecável “Cosmos”, originalmente  escrita e apresentada por Carl Sagan.

Imaginar é preciso

O trabalho científico é baseado em hipóteses. Os testes e experimentos, com todo o seu rigor e metodologia, partem antes de ideias que depois precisam ser colocadas à prova. A teoria da relatividade de Albert Einstein nasceu da inquietação de uma mente que à certa altura ousou imaginar como seria disputar uma corrida com um raio de luz. Ideia que pode parecer ingênua à primeira vista, mas que foi responsável por uma verdadeira revolução.

Não podemos esquecer que a ciência também é moldada pela ocasião, pelas características fundamentais de cada tempo. Desta forma, a imaginação científica está diretamente ligada ao cotidiano, aos "assuntos do dia”. Foi assim com Newton, que guinou para a astronomia por esta ser de grande importância para o tempo em que vivia, onde o entendimento do posicionamento e movimento das estrelas era essencial para a navegação. 

Ao contrário do que muitos podem pensar, razão e imaginação não são inimigas figadais. Da mesma forma que acontece a um poeta ou pintor, a inspiração é elemento presente na vida de todo bom cientista. Imaginar é parte intrínseca de toda investigação científica e nunca deveria representar ameaça à seriedade da mesma.

Como muito bem já  nos apontava Karl Popper em seu ensaio sobre o incremento do conhecimento científico: “Entre os verdadeiros perigos que ameaçam o progresso da ciência não figura a possibilidade de ele concluir sua tarefa, e sim coisas como a falta de imaginação (às vezes, consequência de falta de interesse real).”

Embora não seja tarefa das mais fáceis, evitar que ciência e imaginação continuem a se digladiar inutilmente nas arenas das discussões vazias deve ser o norte de qualquer pessoa minimamente comprometida com os avanços que as pesquisas científicas, em qualquer área, continuam a proporcionar à sociedade como um todo.

“Mas, afinal, o que isso tudo tem a ver com a medicina?”, algumas pessoas podem estar a se perguntar. E a resposta é bastante simples: tudo e mais um pouco! 

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Jocê Rodrigues
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Escritor, jornalista e editor. Sou um dos coordenadores do "Encontros de Leitura", do ITS, em parceria com a EMERJ. Pesquiso principalmente sobre as inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

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