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Entrevista: a telemedicina e suas aplicações no Brasil

Entrevista: a telemedicina e suas aplicações no Brasil

A telemedicina constitui-se como um dos conceitos mais abordados e disseminados pelo território nacional, sobretudo na área da saúde. Por conta disso, fizemos uma entrevista com o médico Moisés Correia Dantas, que possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de Sergipe, sendo neurologista pelo programa de residência médica do Hospital Santa Izabel ("Santa Casa de Misericórdia da Bahia").

A entrevista se baseou em 10 perguntas a respeito dos diversos tópicos que permeiam o conceito de telemedicina, sendo essa o uso de informações e meios de comunicação, visando facilitar o processo de prevenção, tratamento e diagnóstico de doenças.

1.Telemedicina constitui-se como o exercício da medicina através da utilização de metodologias interativas de comunicação audiovisual e de dados, com o objetivo de assistência, educação e pesquisa em saúde, auxiliando sobretudo, áreas remotas sem acesso ao atendimento básico de saúde. Como o senhor acredita que a adequação deste conceito para a área médica irá contribuir para uma evolução da chamada “medicina humanitária”?

M. C. D. - Bom, nesse caso, acredito que a incorporação do conceito de telemedicina pode auxiliar no desenvolvimento da medicina humanitária, desde que existam profissionais que sejam deslocados até a área da população carente, e esses profissionais, sob a forma de consulta, de uma segunda opinião, acionem a telemedicina. Mas nunca, somente, através da medicina feita à distância, sem o contato, sem o toque, sem o exame físico para com o paciente. Então, se de repente alguém com formação clínica geral tiver necessidade de uma supervisão num paciente com Parkinson, por exemplo, e através de exame físico e todos os detalhes da história, acionar a telemedicina para obter a opinião de um especialista, acredito que possa ser válido, mas nunca apenas a telemedicina por si só.

2. Em 2019, um grupo de 350 voluntários da área da saúde, viajaram, com auxílio de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), da cidade de Ribeirão Preto, em São Paulo, para o sertão da Bahia, visando prestar serviços de atendimento básicos em diversos setores médicos. De que maneira o senhor acredita que, como também citado na questão anterior, a telemedicina irá contribuir para a melhoria o atendimento à saúde de populações que habitam áreas remotas do nosso país?

M. C. D. - Então nesse caso os profissionais foram até a área, deslocados meio de um transporte especial. A telemedicina poderia ajudar esses profissionais emitindo uma segunda opinião, em um eletrocardiograma que poderia ter sido feito, em uma radiografia de tórax, em até mesmo uma tomografia, e na discussão do exame clínico com um colega que estava lá na região. Tudo isso usando a telemedicina, para que do outro lado se tenha um especialista para auxiliar na análise de casos mais complexos, ajudando o colega que está em ação propriamente dita.

3. Considerando que a telemedicina prega, como um de seus pilares principais, o advento de tecnologias e meios de informação e comunicação para facilitar métodos de tratamento, diagnóstico e prevenção de doenças, o senhor já observa a chegada desses meios em seu local de trabalho?

M. C. D. - Já observo sim. Gente que trabalha no hospital observa que os pacientes que são transportados pelo SAMU dentro de um protocolo específico como Infarto Agudo do Miocárdio já recebem uma avaliação por telemedicina, a partir do momento em que o eletrocardiograma, a interpretação do quadro clínico e a orientação quanto se usar ou não os medicamentos originais quando nesta mesma situação ficam bem especificados por segundas opiniões. Então já observo sim, principalmente no protocolo do infarto já se observa esse auxílio da telemedicina em algumas situações.

 

4. Como ressaltado pela Resolução n° 1643/02, os serviços de telemedicina deveriam obedecer as normas técnicas do CFM pertinentes à guarda, manuseio, transmissão de dados, confidencialidade, privacidade e garantia de sigilo profissional. Somado a isso, o senhor acredita que esse novo mecanismo de troca de informações e comunicações possa apresentar erros relacionados à individualidade sigilosa do paciente?

M. C. D. - Como toda tecnologia de início, podem acontecer alguns erros, alguma necessidade de ajuste no intuito de termos a privacidade sempre preservada do paciente. Então os dados feitos ao vivo, sob uma consulta com o paciente necessitariam, talvez, de uma autorização prévia do paciente para o uso da telemedicina, sob o maior risco de exposição aos seus dados. Mas eu acho que, por ser muito novo, com o tempo os ajustes podem fazer com que a gente otimize a privacidade, dentre outros aspectos da telemedicina.

5. A então revogada Resolução n° 2227/18 estabelecia o conceito de teleconsulta, sendo essa a consulta médica remota, mediada por tecnologias, com médico e paciente localizados em diferentes espaços geográficos. O senhor acredita que esse novo mecanismo pode interferir de maneira substancial na relação médico-paciente, tão solicitada pelos profissionais como parte da ética médica?

M. C. D. - Olha, sem a presença, sem o contato do médico com o paciente, eu acredito que seria totalmente inviável. Teleconsulta à distância eu acho que a gente não deve fazer. Um abdome agudo precisa ser palpado, uma lesão de pele precisa ter suas características da palpação evidenciadas, uma tireoide precisa ter essa palpação também. Em tudo isso a gente precisa fazer essa avaliação correta do paciente, in loco, precisamos pôr a mão no paciente, precisamos analisar muitas coisas, muitos detalhes da marcha. Tudo que exige contato, na medicina, como no exame físico, não pode ser substituído pela telemedicina. Infelizmente eu também concordo com revogação. Nada de teleconsulta. A telemedicina eu acho que pode ser um meio de pegar uma segunda opinião de um profissional que está distante mediante a avaliação do profissional que está in loco.

6. A chegada de novos robôs cirúrgicos para hospitais e centros terapêuticos facilitou a operação de cirurgias com melhor precisão, mas ainda mantiveram a chance de ocorrência de erros graves. Como indicado por alguns estudos, os médicos do futuro deverão saber como manusear tais máquinas, se ainda quiserem estar ativos no mercado. Como o senhor avalia a inserção desta tecnologia no mercado da saúde, avaliando os lados positivos e negativos?

M. C. D. - Bom, o uso de robôs vem mostrando uma redução de algumas complicações, e assim como em toda e qualquer área cirúrgica, ainda vai contar com a experiência do cirurgião, já que o robô é apenas manuseado à distância pelo mesmo. Então, a gente tem que ter muito cuidado nisso, os cirurgiões erram na cirurgia tradicional, erram de forma recorrente, e isso existe, por imperícia, de repente, podendo acontecer mesmo com paciente com cirurgia com robô. O ideal é que se compare sempre os dois métodos, o tradicional e o da cirurgia por robô, e assim se analise sempre as vantagens e as desvantagens. Por exemplo, vantagens: menor incidência de infecção, já que o robô está totalmente esterilizado e o cirurgião vai estar distante, sem contato com as mãos, sem o contato com o ar expelido, com pelos, então a probabilidade de infecção é menor. Outra coisa do robô é que a gente vê que o tamanho das incisões são menores, já que a gente vê que se fazem várias pequenas incisões para abrir uma cavidade, e isso diminui o tempo de recuperação. Então isso são as vantagens, as desvantagens são que como é novo, é uma tecnologia cara, de difícil acesso ainda, que requer treinamento específico do cirurgião, sendo que nem todos são devidamente treinados ainda, que requer um sistema de comunicação adequado para não haver nenhum tipo de prejuízo entre a comunicação entre a mão do cirurgião e o robô, então tem essas vantagens e desvantagens.

 

7. Um dos maiores benefícios da telemedicina é em relação aos custos. Ao se apropriar da telemedicina, centros de saúde contarão com o apoio de um grande número de especialistas, sem o ônus de manter um corpo grande de funcionários in loco. Um dos lados negativos pode ser o aumento da taxa de desempregados, caso essa medida se estenda ao longo do território brasileiro. Como o senhor avalia isso?

M. C. D. - Como toda tecnologia, ela oferece esse risco, de aumento do desemprego, mas não necessariamente por isso ela deve deixar de ser empregada, desde que traga benefícios maiores para a população. É um ônus do qual a gente tem que arcar, como tivemos várias tecnologias, ou seja, o e-mail aposentou a carta, e aí houve o desemprego como a redução do número de carteiros, e ninguém voltou a usar a carta. Então a vida segue, tecnologias começam a ser incorporadas, e aposentam outras mais antigas, por exemplo, o computador chegou e quem usava da datilografai ficava desempregado, pois não se adequou. Então cabe a nós ficar se adequando às novas tecnologias que vão surgindo. Eu acho que num momento inicial, necessariamente a gente vai ter esse desemprego, até porque o especialista vai ficar numa ponta e vai ter uma demanda, sendo que ele vai ser usado na telemedicina. E cada especialista tem um limite físico de consultas, então em um plantão de telemedicina de 8 horas, ele consegue exceder um número x de consultas. Se precisar de muitas consultas para que ele possa atender, vai ter que chamar outro especialista, é algo que precisa ser feito, mas existe essa possibilidade sim. A telemedicina tenta trazer mais benefícios para a população, mas infelizmente é algo que tem que acontecer sim, os “impostos” vão diminuir com relação aos especialistas.

8. Um dos possíveis entraves com relação a aplicação da telemedicina é a segurança digital. O medo de ataques cibernéticos, manuseio de dados, divulgação de informações sigilosas, dentre outras, ainda permanece como parte dos fatores que marcam a relutância da aplicação da telemedicina na maioria dos centros de saúde do Brasil. Qual a sua ótica acerca disso?

M. C. D. - Isso já foi meio que até abordado na outra questão, mas eu enfatizo novamente. A segurança cibernética deve ser enfatizada. Hoje em dia, a gente sabe que é muito necessária a segurança em qualquer fonte de dados sigilosos. Dos mesmos modos que são feitas as seguranças para dados de banco, dados sigilosos, outros podem ser feitos a esse nível para a telemedicina também, com seus custos, evidentemente, que com o maior investimento em segurança e internet, precisamos saber que os custos vão aumentar, é essencial que se tenha a segurança dos dados do paciente, pois afinal de contas são dados sigilosos, sendo um problema que deve ser abordado da melhor forma. São aspectos que devem ser levados em conta, os custos e em que molde, que padrão de segurança deverão seguir esse tráfego de informações. Então é algo novo que devemos traçar melhor para o protocolo de dados do paciente, e assim otimizar essa segurança, mas é um problema que deve ser levado em consideração.

9. Desde o início do século XXI, o Ministério da Saúde vem tentando, por meio de uma série de medidas, solucionar o problema da escassez de profissionais da saúde em determinadas regiões do país. Uma delas parte exatamente através da telemedicina, que possibilita a tais profissionais realizarem o atendimento sem necessariamente estar na região. O senhor acredita que isso poderá impactar nas horas de trabalho prestadas por esses profissionais, tornando a profissão mais onerosa e desgastante?

M. C. D. - Nós temos o Ministério do Trabalho, nós temos o Conselho Federal de Medicina que podem regulamentar tempo de trabalho, número de atendimentos, para que nós tenhamos qualidade. Se o número de atendimentos está muito grande, então a gente determina mais de um profissional que fica na outra ponta da telemedicina. Então é algo novo que precisa ser regulamentado. Portanto, para evitar que isso ocorra, e isso é possível que ocorra, sobrecarga dos profissionais, basta regulamentar o tanto de atendimentos num plantão de oito horas, no máximo (mas que isso não é recomendável), o tempo mínimo para o colega fazer um atendimento, então uma referência lá na telemedicina. Se isso se regulamentar, a gente pode fazer, se não regulamentar, se for deixar na mão de quem está na outra ponta de quem tá determinando o que pode ser feito, sem um acordo, ou seja, o lado dos profissionais e o lado dos trabalhadores, a balança pode pender para um dos lados, com certeza. Então o que eu recomendo é que se isso for estabelecido vamos entrar um acordo de trabalho, o número de atendimentos, o tempo gasto, para não sobrecarregar os profissionais e evitar os erros médicos que podem acontecer.

10. Com relação ao mundo, a telemedicina já era utilizada em alguns países da Europa, sobretudo durante o inverno, onde o frio tornava incapacitante a ida aos hospitais, tanto por parte dos pacientes como pelos profissionais. Outros exemplos foram durante surtos de doenças e pandemias, como a que estamos vivendo hoje. Com a política de quarentena instaurada, diversos médicos optaram por utilizar meios tecnológicos para realizar o atendimento dos seus pacientes, assim como a recomendação de tratamento e prescrição de medicamentos. O senhor acredita que essa é realmente uma medida eficaz para que se possa realizar o pleno acompanhamento dos pacientes, ou os erros aos quais está sujeita superam os benefícios?

M. C. D. - Eu sou contra a teleconsulta, então eu acho que tem que ter o médico, sendo que esse deve tocar no paciente, evidenciar os sinais do exame físico. O médico tem que propiciar a maior precisão possível no diagnóstico dos pacientes. Um exemplo de viés é como que faz a ausculta pulmonar; a paciente fala que tá com dispneia, e aí eu quero ver, quem vai por teleconsulta, por exemplo, dá o diagnóstico diferencial da dispneia, então na congestão pulmonar secundária a uma Insuficiência Cardíaca, de uma crise asmática, uma bronco-reativação secundária a uma DPOC. Como é que faz isso, sem tocar, sem auscultar, não medir. Então eu acho que não adianta, medicina é presencial, a gente tem que usar a medicina armada, tocar no paciente, auscultar, percutir, e sempre, não adianta, não tem como. Situações, por exemplo, como a pandemia, abrem certas exceções para algumas situações específicas, como por exemplo, o paciente já é um paciente subsequente de um determinado colega, então o paciente só precisa mostrar um exame laboratorial pro médico, então pra evitar o contato é mandada uma foto do exame e é feita a orientação, sendo esse um paciente de acompanhamento regular. Nessa situação eu acho válido, agora se nessa mesma situação o paciente for mostrar o resultado do exame e surgir com uma ou outra nova queixa, uma discreta mudança no quadro, cai por terra, então não adianta só mostrar o exame, mudou o quadro tem que mudar, então tudo isso tem que ser levado em consideração. Eu realmente não gosto da ideia da teleconsulta totalmente à distância, o médico tem que tocar, tem que palpar, tem que auscultar.

 

 


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Fernando Antônio Ramos Schramm Neto
Fernando Antônio Ramos Schramm Neto Seguir

Atual graduando em Medicina pela Universidade Salvador.

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