Um promissor estudo publicado no The New England Journal of Medicine revelou que a ivermectina, quando administrada em larga escala à população, pode reduzir significativamente a incidência de malária, especialmente entre crianças. A pesquisa faz parte do projeto BOHEMIA (Broad One Health Endectocide-based Malaria Intervention in Africa), liderado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), com apoio da Fundação "la Caixa", em colaboração com o Centro de Pesquisa em Saúde de Manhiça (CISM) e o Programa de Pesquisa KEMRI-Wellcome Trust.
Redução significativa de malária no Quênia
O ensaio clínico realizado em Kwale County, Quênia, mostrou uma redução de 26% nos novos casos de malária entre crianças de 5 a 15 anos, quando comparado ao grupo controle que recebeu albendazol. O protocolo envolveu mais de 20 mil participantes e 56 mil doses administradas, com ivermectina na dose de 400 mcg/kg mensalmente, durante três meses consecutivos no início da estação chuvosa, período crítico para a transmissão do parasita.
Os resultados foram ainda mais expressivos em áreas onde a distribuição da medicação foi mais eficiente e menos afetada por fronteiras dos clusters de intervenção. O perfil de segurança foi excelente, com apenas efeitos adversos leves e transitórios já conhecidos da ivermectina.
Apesar dos avanços com métodos tradicionais como os mosquiteiros impregnados com inseticida (LLINs) e a pulverização residual interna (IRS), a resistência crescente dos mosquitos a esses inseticidas e mudanças em seus padrões comportamentais (picadas ao ar livre ou em horários fora do padrão) reduzem a eficácia das estratégias convencionais.
Neste cenário, a ivermectina surge como uma ferramenta complementar valiosa: o medicamento não apenas trata doenças parasitárias, como a oncocercose e a filariose linfática, mas atua indiretamente contra a malária ao matar os mosquitos que picam pessoas tratadas com a droga.
Desafios e aprendizados de Moçambique
Em Mopeia, Moçambique, onde o estudo foi replicado em crianças menores de 5 anos, a eficácia da intervenção foi comprometida por eventos climáticos severos, como o ciclone Gombe (2022) e por um surto de cólera que afetou drasticamente a logística da distribuição. No entanto, o estudo revelou aprendizados importantes sobre a necessidade de engajamento comunitário robusto, colaboração com as autoridades de saúde locais e adaptação às realidades socioculturais e ambientais.
Benefícios colaterais positivos à saúde pública
A pesquisa também mostrou efeitos colaterais benéficos relevantes da administração em massa da ivermectina. Em Moçambique, houve redução importante de escabiose e piolhos, enquanto no Quênia a população relatou um declínio notável nas infestações por percevejos, ganhos adicionais que reforçam a relevância do medicamento em programas de saúde coletiva, sobretudo em áreas endêmicas.
Perspectivas para implementação global
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já revisou os achados por meio de seu Grupo Consultivo sobre Controle Vetorial e reconheceu o impacto da intervenção, recomendando a continuidade dos estudos. Autoridades nacionais de saúde em diversos países africanos também receberam os dados para avaliar a possível inclusão da ivermectina em seus programas de controle da malária.
Como destaca o pesquisador Carlos Chaccour, coautor do estudo:
“A ivermectina demonstrou grande potencial em reduzir a transmissão da malária e pode complementar as medidas já existentes. Com continuidade nos estudos, ela pode se tornar uma ferramenta eficaz até mesmo para esforços de eliminação.”
Referência:
Barcelona Institute for Global Health (ISGlobal). "Ivermectin: The mosquito-killing pill that dropped malaria by 26%." ScienceDaily. ScienceDaily, 26 July 2025. <www.sciencedaily.com/releases/2025/07/250724232415.htm>.






