"Metade do que ensinamos aos estudantes de medicina está errado; infelizmente, não sabemos qual metade." — C. Sydney Burwell (1893–1967)
Na prática dermatológica e cirúrgica, o ritual do curativo é sagrado: limpar, desbridar, esterilizar. Mas e se esse zelo higienista estiver, na verdade, sabotando a cicatrização? A medicina baseada em evidências frequentemente colide com a "medicina baseada em tradição", e o tratamento de feridas é um campo minado por dogmas antigos.
O Ritual do Desbridamento
Historicamente, acredita-se que remover qualquer tecido não viável e manter a ferida estéril acelera a cura. Contudo, evidências recentes indicam que o tecido fibrinoso (slough) pode conter colágeno e queratinas que auxiliam o reparo.
Análise Crítica (2025)
Os autores argumentam que a manipulação agressiva do leito da ferida em evolução favorável gera inflamação desnecessária e dor.
Contra a Cultura: A maioria das feridas crônicas é colonizada; essa microbiota pode modular a inflamação positivamente. Tratar colonização (não infecção) é erro médico.
Contra a Umidade Excessiva: Em úlceras de membros inferiores, o ambiente úmido pode macerar a pele perilesional. Estratégias como o uso de óxido de zinco ou alginatos para formar crostas fisiológicas podem ser superiores.
O Resgate da Compressão
O artigo destaca uma lacuna na dermatologia cirúrgica: o subuso da terapia compressiva. Em feridas de perna, a gravidade perpetua o edema e a inflamação. A compressão não serve apenas para úlceras venosas, mas é vital para prevenir deiscências e necrose em enxertos e retalhos, superando a obsessão pela "esterilidade" tópica.
Texto escrito pela acadêmica Carolina C. Reis
Referências
García-Mares A, Conde Montero E. Traditional Practices in Dermatology and Wound Care: Are They Evidence-Based? Actas Dermosifiliogr. 2025;104573.



