O termo gaslighting ganhou notoriedade nos últimos anos para descrever situações em que alguém manipula outra pessoa a ponto de fazê-la duvidar de sua própria percepção da realidade. Embora amplamente discutido em contextos sociais e clínicos, a ciência psicológica ainda carecia de um modelo estruturado para explicar como esse fenômeno acontece no cérebro.
Pesquisadores da McGill University e da University of Toronto propõem uma forma de compreender o gaslighting como um processo de aprendizagem baseado em erros de predição (prediction error minimization, PEM). O estudo foi conduzido por Willis Klein, doutorando em Psicologia, em colaboração com a professora Jennifer Bartz (McGill) e Suzanne Wood (Toronto).
Gaslighting como um processo de aprendizagem
Segundo o modelo apresentado, o gaslighting funciona explorando a confiança que depositamos em pessoas próximas. O cérebro humano opera constantemente prevendo o que deve acontecer no ambiente com base em experiências anteriores. Quando há uma discrepância entre o esperado e o real, um "erro de predição" ajustamos nossos modelos mentais para melhor se adequar à realidade.
É justamente aí que age o gaslighter:
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Ele se comporta de forma inesperada, criando surpresa e desorientação.
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Em seguida, atribui a causa dessa surpresa à suposta incapacidade da vítima de compreender a realidade.
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Repetindo esse ciclo inúmeras vezes, induz a vítima a internalizar a ideia de que não consegue confiar em sua própria percepção, o que Klein chama de se sentir “epistemicamente incompetente”.
Esse mecanismo não depende de traços específicos da vítima: qualquer pessoa, ao confiar na pessoa errada, pode se tornar alvo desse tipo de manipulação.
O papel da confiança e dos vínculos próximos
A pesquisa enfatiza que a confiança depositada em pessoas próximas é central na construção de nossa identidade e senso de realidade. Isso torna o gaslighting especialmente perigoso em relações íntimas, familiares ou profissionais de alta proximidade.
Segundo Klein, a manipulação se fortalece justamente porque utilizamos os outros como referência para validar nossas experiências. Assim, quando o manipulador mina sistematicamente essa validação, o indivíduo passa a duvidar não só de sua memória ou percepção, mas também de si mesmo.
Até hoje, o gaslighting foi frequentemente analisado sob uma lente psicodinâmica, uma abordagem menos utilizada na psicologia científica contemporânea. Este novo modelo, ao enxergar o gaslighting como aprendizagem desadaptativa, oferece:
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Base científica para investigações futuras, especialmente em psicologia cognitiva e neurociências.
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Explicações mais amplas de como o cérebro pode ser manipulado a longo prazo.
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Possibilidades de intervenção clínica, ao ajudar profissionais de saúde mental a reconhecer sinais precoces e apoiar vítimas.
Os autores destacam que pesquisas futuras podem revelar fatores que aumentam a vulnerabilidade ao gaslighting, como estilos de apego, histórico de trauma ou características individuais específicas.
O gaslighting não é apenas um termo popularizado em séries de TV ou discussões nas redes sociais: trata-se de um mecanismo psicológico profundo, com impacto potencial em relacionamentos abusivos, ambientes de trabalho tóxicos e até mesmo na esfera política.Ao entender que o gaslighting não é sinal de fraqueza, mas uma forma de manipular o modo como o cérebro aprende e interpreta o mundo, podemos olhar para essas situações com mais clareza e nos proteger melhor delas.
Referência:
McGill University. "How gaslighting tricks the brain into questioning reality." ScienceDaily. ScienceDaily, 2 October 2025. <www.sciencedaily.com/releases/2025/10/251001092238.htm>.

