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"Lições da Floresta: Três Personagens do SUS em Busca de Uma Saúde Universal"

"Lições da Floresta:   Três Personagens do SUS em Busca de Uma Saúde Universal"
Luiz Duplat
mai. 8 - 6 min de leitura
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Era uma vez, numa floresta, três amigos inseparáveis, o Esquilo Sábio, a Coruja Astuta e o Coelho Saltitante, com um desafio: construir um abrigo para passar o inverno. O problema era que cada um deles reclamava dos outros dois por diferentes razões.

O Esquilo Sábio, era muito estudioso, porém vivia se queixando da preguiça da Coruja e da desorganização do Coelho. O Esquilo Sábio queria um esconderijo planejado, à prova de tempestades, com alimentos e água suficientes.

A Coruja Astuta, uma grande estrategista, e se queixava da teimosia do Esquilo e da pressa do Coelho. Ela queria que a construção do abrigo fosse rápida e eficiente. A Coruja insistiu que eles trabalhassem em equipe, usando a sabedoria do Esquilo e a agilidade do Coelho, mas não conseguiu com que eles concordassem com sua ideia.

O Coelho Saltitante, reclamava da seriedade dos seus amigos. Ele prefere se divertir, saltando de um lado para o outro da floresta. Não entendia por que o Esquilo insistia em detalhes e por que a Coruja queria pressa.

À medida que o inverno se aproximava, o desentendimento entre os três amigos aumentava. O Esquilo Sábio estava preocupado com a falta de preparo, a Coruja Astuta com a demora e o Coelho Saltitante com a falta de diversão. A tensão na floresta era visível.

Veio então, uma tempestade violenta, que destruiu a metade das provisões do Esquilo e fez a Coruja perceber que a construção apressada do abrigo havia sido um erro. Enquanto o Coelho, com seu instinto rápido, conseguiu escapar ileso.

Após a tempestade, os três amigos se reuniram para avaliar os danos. O Esquilo admitiu que tinha sido exagerado com seu planejamento, a Coruja percebeu que pressa demais nem sempre era uma boa ideia, e o Coelho percebeu que a diversão deveria ser equilibrada com a obrigação. Decidiram reconstruir o abrigo, usando a sabedoria do Esquilo, a agilidade do Coelho e a estratégia da Coruja, pois tinha aprendidos com seus erros e reconhecido que a diversidade de suas habilidades, era muito importante para o resultado, um abrigo perfeito.

E assim, a floresta testemunhou a formação de uma amizade ainda mais forte, baseada na compreensão, respeito e limitações das diferenças de cada um. A lição da fábula é clara: quando vencemos juntos, respeitando as habilidades e perspectivas de cada um, podemos superar quaisquer obstáculos e fortalecer nossos laços de amizade.

Fazendo uma analogia com o SUS – Sistema Único de Saúde, que também tem três personagens inseparáveis: o Usuário, o Profissional e o Gestor, que enfrentam o desafio de construir um Sistema de Saúde público e universal, para todos. Assim como na fábula, o problema é que cada um deles reclama dos outros dois por diferentes razões.

O Usuário reclama do Profissional pois paga os impostos e ele o trata mal, além do seu tempo de atendimento da consulta ser muito rápido, e do Gestor pois os exames e consultas com especialistas demoram muito para serem marcados, pede a implantação de novas Unidades de Saúde e fala da necessidade de melhorar a eficiência da gestão.

O Profissional se queixa do Usuário dizendo que ele vai muitas vezes para atendimento e que fica pedindo solicitações de consultas e exames, e do Gestor reclama pelos baixos salários recebidos, das condições de trabalho e da pressão que sofre para que aumente o número dos seus atendimentos, e a necessidade de investimentos em infraestrutura e valorização dos profissionais.

O Gestor, por sua vez, não entende por que o Profissional além de não querer cumprir a sua carga horária, vive solicitando exame de forma excessiva e desnecessária, e fazendo encaminhamento do Usuário para especialistas. Fala ainda que o Usuário fica recorrendo a justiça e fazendo denúncias nas redes sociais sobre o atendimento que teve ou deixou de ter, o acusa de ser um mal administrador e muitas vezes de que desvia o dinheiro da saúde, mas, não entende os problemas de ordem orçamentaria e política.

Assim como na floresta, o SUS tem sua tempestade com falta de investimento, apenas 1,7% do PIB nacional é destinado para a saúde, implicando em baixos salários, poucos investimentos em construção e manutenção das Unidades de Saúde e na implantação de inovações tecnológica.   

Para enfrentar a tempestade, o SUS necessita de uma gestão responsável, com eficiência, transparência e boas práticas de governança. Deve também contar com a participação comunitária, através do controle social previsto na Lei 8142/80, com os Conselhos de Saúde envolvendo seus três personagens.

Outra ferramenta importante neste enfrentamento é a educação. O Usuário deve ter amplo conhecimento sobre promoção, prevenção e proteção à saúde, adquiridos através de ações e atividades de educação em saúde. Por sua vez, o Profissional precisa de qualificações contínuas, pois na sua graduação não teve formação para atuar no SUS. O Gestor precisa também ter formação, muitos permanecem pouco tempo no cargo para entender as suas nuances e implementar as políticas públicas de saúde existentes.

Em conclusão, as reclamações e acusações entre os três personagens Usuário, Profissional e Gestor, refletem os desafios a serem vencidos nessa tempestade do SUS, que como na da floresta, precisará de um esforço conjunto e um compromisso contínuo para aprimoramento da qualidade e eficiência do nosso sistema de saúde. O SUS possui um grande potencial e, com esforços concentrados dos três interessados, continuaremos a ter no Brasil, o maior Sistema de Saúde Público e Universal.

Luiz Duplat é médico obstetra, especialista em saúde da família e subsecretário de saúde de Camaçari

Email: duplat.luiz@hotmail.com



Luiz Duplat

Médico, Prefeitura Municipal de Camaçari

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