Era uma vez, numa floresta, três
amigos inseparáveis, o Esquilo Sábio, a Coruja Astuta e o Coelho Saltitante, com
um desafio: construir um abrigo para passar o inverno. O problema era que cada
um deles reclamava dos outros dois por diferentes razões.
O Esquilo Sábio, era muito estudioso,
porém vivia se queixando da preguiça da Coruja e da desorganização do Coelho. O
Esquilo Sábio queria um esconderijo planejado, à prova de tempestades, com alimentos
e água suficientes.
A Coruja Astuta, uma grande
estrategista, e se queixava da teimosia do Esquilo e da pressa do Coelho. Ela
queria que a construção do abrigo fosse rápida e eficiente. A Coruja insistiu
que eles trabalhassem em equipe, usando a sabedoria do Esquilo e a agilidade do
Coelho, mas não conseguiu com que eles concordassem com sua ideia.
O Coelho Saltitante, reclamava
da seriedade dos seus amigos. Ele prefere se divertir, saltando de um lado para
o outro da floresta. Não entendia por que o Esquilo insistia em detalhes e por
que a Coruja queria pressa.
À medida que o inverno se
aproximava, o desentendimento entre os três amigos aumentava. O Esquilo Sábio
estava preocupado com a falta de preparo, a Coruja Astuta com a demora e o
Coelho Saltitante com a falta de diversão. A tensão na floresta era visível.
Veio então, uma tempestade
violenta, que destruiu a metade das provisões do Esquilo e fez a Coruja
perceber que a construção apressada do abrigo havia sido um erro. Enquanto o
Coelho, com seu instinto rápido, conseguiu escapar ileso.
Após a tempestade, os três
amigos se reuniram para avaliar os danos. O Esquilo admitiu que tinha sido
exagerado com seu planejamento, a Coruja percebeu que pressa demais nem sempre
era uma boa ideia, e o Coelho percebeu que a diversão deveria ser equilibrada
com a obrigação. Decidiram reconstruir o abrigo, usando a sabedoria do Esquilo,
a agilidade do Coelho e a estratégia da Coruja, pois tinha aprendidos com seus
erros e reconhecido que a diversidade de suas habilidades, era muito importante
para o resultado, um abrigo perfeito.
E assim, a floresta
testemunhou a formação de uma amizade ainda mais forte, baseada na compreensão,
respeito e limitações das diferenças de cada um. A lição da fábula é clara:
quando vencemos juntos, respeitando as habilidades e perspectivas de cada um,
podemos superar quaisquer obstáculos e fortalecer nossos laços de amizade.
Fazendo uma analogia com o SUS
– Sistema Único de Saúde, que também tem três personagens inseparáveis: o
Usuário, o Profissional e o Gestor, que enfrentam o desafio de construir um
Sistema de Saúde público e universal, para todos. Assim como na fábula, o problema
é que cada um deles reclama dos outros dois por diferentes razões.
O Usuário reclama do Profissional
pois paga os impostos e ele o trata mal, além do seu tempo de atendimento da
consulta ser muito rápido, e do Gestor pois os exames e consultas com
especialistas demoram muito para serem marcados, pede a implantação de novas
Unidades de Saúde e fala da necessidade de melhorar a eficiência da gestão.
O Profissional se queixa do
Usuário dizendo que ele vai muitas vezes para atendimento e que fica pedindo
solicitações de consultas e exames, e do Gestor reclama pelos baixos salários
recebidos, das condições de trabalho e da pressão que sofre para que aumente o
número dos seus atendimentos, e a necessidade de investimentos em
infraestrutura e valorização dos profissionais.
O Gestor, por sua vez, não
entende por que o Profissional além de não querer cumprir a sua carga horária,
vive solicitando exame de forma excessiva e desnecessária, e fazendo
encaminhamento do Usuário para especialistas. Fala ainda que o Usuário fica
recorrendo a justiça e fazendo denúncias nas redes sociais sobre o atendimento
que teve ou deixou de ter, o acusa de ser um mal administrador e muitas vezes
de que desvia o dinheiro da saúde, mas, não entende os problemas de ordem orçamentaria
e política.
Assim como na floresta, o SUS
tem sua tempestade com falta de investimento, apenas 1,7% do PIB nacional é
destinado para a saúde, implicando em baixos salários, poucos investimentos em construção
e manutenção das Unidades de Saúde e na implantação de inovações tecnológica.
Para enfrentar a tempestade, o
SUS necessita de uma gestão responsável, com eficiência, transparência e boas
práticas de governança. Deve também contar com a participação comunitária,
através do controle social previsto na Lei 8142/80, com os Conselhos de Saúde
envolvendo seus três personagens.
Outra ferramenta importante neste
enfrentamento é a educação. O Usuário deve ter amplo conhecimento sobre
promoção, prevenção e proteção à saúde, adquiridos através de ações e
atividades de educação em saúde. Por sua vez, o Profissional precisa de
qualificações contínuas, pois na sua graduação não teve formação para atuar no
SUS. O Gestor precisa também ter formação, muitos permanecem pouco tempo no
cargo para entender as suas nuances e implementar as políticas públicas de
saúde existentes.
Em conclusão, as reclamações e
acusações entre os três personagens Usuário, Profissional e Gestor, refletem os
desafios a serem vencidos nessa tempestade do SUS, que como na da floresta,
precisará de um esforço conjunto e um compromisso contínuo para aprimoramento da
qualidade e eficiência do nosso sistema de saúde. O SUS possui um grande potencial
e, com esforços concentrados dos três interessados, continuaremos a ter no
Brasil, o maior Sistema de Saúde Público e Universal.
Luiz Duplat é médico obstetra,
especialista em saúde da família e subsecretário de saúde de Camaçari
Email: duplat.luiz@hotmail.com






