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Maus tratos contra gestantes em trabalho de parto - Novos dados publicados no Lancet

Maus tratos contra gestantes em trabalho de parto - Novos dados publicados no Lancet

Apesar de ter sido realizado em países com uma condição sanitária e educional muito pior que o Brasil, os dados apontados pela pesquisa no Lancet chamam a atenção para uma falta extrema de empatia entre que pode ocorrer entre profissionais de saúde e pacientes. 

Lembro-me de ter vivenciado no meu estagio situações nas quais pude ouvir de pessoas que trabalham em centro obstétrico (médicos e enfermeiros), chamadas de extrema falta de sensibilidade ou ainda, de puro e gratuito insulto. Acredito que qualquer um que tenha vivenciado um centro de parto possa contar pelo menos uma história de assédio moral entre profissional e parturiente ou profissional e familiar.

Então, por isso acredito ser tão importante mostrar esses dados recém publicados no Lancet, capitaneados por pesquisa da Organização Mundial de Saúde. Leia-o em tradução livre e depois comente-o em seguida.


Novas evidências de um estudo liderado pela OMS, publicado  no Lancet, mostram que mais de um terço das mulheres em quatro países de extrema pobreza sofreram maus-tratos durante o parto em unidades de saúde. Constatou-se que mulheres mais jovens e com menos escolaridade correm maior risco de maus-tratos, o que pode incluir abuso físico e verbal, estigmatização e discriminação, procedimentos médicos realizados sem o consentimento deles, uso de força durante os procedimentos e abandono ou negligência pelos profissionais de saúde. .

O estudo, realizado no Gana, Guiné, Mianmar e Nigéria, constatou que 838 (42%) das 2.016 mulheres sofreram abuso físico ou verbal, estigma ou discriminação. 14% sofreram abuso físico - sendo mais comumente golpeados, atingidos ou perfurados. Também houve altas taxas de cesarianas não consensuais, episiotomias (cortes cirúrgicos realizados na abertura da vagina durante o parto) e exames vaginais.

As diretrizes da OMS promovem cuidados de maternidade respeitosos para todas as mulheres, que são cuidados que mantêm 'dignidade, privacidade e confidencialidade, garantem liberdade de danos e maus-tratos e permitem escolha informada e apoio contínuo durante o trabalho de parto e parto'.

Altos níveis de maus-tratos verbais e físicos

O estudo observou 2.016 mulheres durante o trabalho de parto e parto no Gana, Guiné, Mianmar e Nigéria. Também foram realizadas entrevistas com 2.672 mulheres após o nascimento, encontrando níveis semelhantes de maus-tratos às observações diretas.

Entre as mulheres de 2016 observadas pelos pesquisadores, 35 (13%) partos de cesariana foram realizados sem o consentimento da mulher, assim como 190 de 253 episiotomias (75%). Os exames vaginais ocorreram sem consentimento em 59% dos casos (2611 de 4393 exames).

Além do abuso físico, observou-se que 752 (38%) das mulheres de 2016 experimentavam altos níveis de abuso verbal - na maioria das vezes, sendo gritadas, repreendidas e ridicularizadas. 11 mulheres sofreram estigma ou discriminação, geralmente em relação à raça ou etnia.

O caminho a seguir

Para combater os maus-tratos durante o parto, os sistemas de saúde devem ser responsabilizados e devem existir recursos suficientes para fornecer serviços de saúde materna acessíveis e de qualidade e políticas claras sobre os direitos das mulheres. Os profissionais de saúde também precisam de apoio e treinamento para garantir que as mulheres sejam tratadas com compaixão e dignidade.

As estratégias possíveis incluem:

  • Redesenhar as alas de trabalho para atender às necessidades das mulheres, incluindo a privacidade e a companhia de trabalho;
  • Melhorar o processo de consentimento informado em todas as intervenções médicas;
  • Fornecer orientação e apoio suficientes para os profissionais de saúde para ajudá-los a prestar assistência de melhor qualidade;
  • Permitir que todas as mulheres que desejam ter um acompanhante de sua escolha durante o trabalho de parto e parto;
  • Construir a demanda pública por serviços de maternidade de alta qualidade, que ofereçam assistência centrada nas mulheres e não toleram qualquer forma de maus-tratos.

As associações profissionais também podem desempenhar um papel crucial na promoção e apoio a cuidados respeitosos entre parteiras, obstetras e outras prestadoras de maternidade e salvaguarda de seus direitos. A OMS pede que essas entidades colaborem para garantir que os maus-tratos durante o parto sejam consistentemente identificados e relatados, e que medidas localmente apropriadas sejam implementadas.

As conclusões do estudo devem ser usadas para informar políticas e programas para garantir que todas as mulheres tenham experiências positivas de gravidez e parto, apoiadas por profissionais de saúde habilitados em sistemas de saúde que funcionem bem.

Esta pesquisa foi possível graças ao apoio do povo americano através da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e do Programa Especial de Pesquisa, Desenvolvimento e Treinamento em Pesquisa em Reprodução Humana do PNUD / UNFPA / UNICEF / OMS / Banco Mundial, Departamento de Saúde Reprodutiva e Pesquisa, OMS.

Notas para editores

O relatório está publicado aqui.

Em 2014, a OMS emitiu uma declaração sobre a prevenção e eliminação de desrespeito e abuso durante o parto nas instalações. A declaração da OMS posicionou os maus-tratos durante o parto como uma violação de direitos e confiança entre as mulheres e seus profissionais de saúde. Também pediu maior ação, diálogo, pesquisa e advocacia.

As recomendações da OMS de 2018 sobre atendimento intra-parto para uma experiência positiva do parto destacam a importância do atendimento centrado na mulher para otimizar as experiências de trabalho e parto das mulheres por meio de uma abordagem holística baseada em direitos humanos. Isso inclui a prestação de cuidados de maternidade respeitosos que mantêm a dignidade, a privacidade e a confidencialidade das mulheres, possibilitam a escolha informada e o apoio contínuo durante todo o trabalho de parto e parto, além de garantir a liberdade de maus-tratos.

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Academia Médica
Fernando Carbonieri
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Inovação é sua forma de exercer a medicina. Em 2012 criou a Academia Médica, comunidade dedicada a "FALAR O QUE A FACULDADE ESQUECEU CONTAR". Membro Comissão do Médico Jovem do CFM, especialista em Bioética

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