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Medicina e Literatura: o médico como contador de histórias

Medicina e Literatura: o médico como contador de histórias

A ideia do médico como narrador, capaz de informar de maneira clara e também de entreter, é bastante presente na atualidade. Não é à toa que ficamos impressionados e maravilhados com as incríveis histórias contadas por autores como Siddhartha Mukherjee, Atul Gawande, Lisa Sanders, Henry Marsh, Jean Starobinski, Drauzio Varella, Oliver Sacks, entre outros. Excelentes escritores que dividem os perrengues e conquistas de suas profissões com o leitor.

São relatos fortes, emocionantes, que convidam à reflexão e a um entendimento mais profundo do que é o ser humano. Muito embora estejamos vivenciando já há algum tempo uma ótima fase para os livros com narrativas médicas, é preciso lembrar que  estes autores e autoras fazem parte de uma tradição bem mais antiga, que provavelmente começa lá com os xamãs, há mais de 30 mil anos. 

De acordo com um dos meus heróis e pensadores de cabeceira, o filósofo e mitólogo romeno Mircea Eliade, o xamã era também “um mago e um medicine-man: a ele se atribui a competência de curar, como aos médicos, assim como a de operar milagres extraordinários, como ocorre com todos os magos, primitivos e modernos”. 

E como eles faziam isso? Através de histórias!

As práticas xamânicas quase sempre incluíam ritos e cerimônias que estavam diretamente ligadas a narrativas de longas viagens e perigosas aventuras ao mundo inferior para o resgate das almas dos enfermos. 

Segundo conta Yuval Noah Harari, a capacidade de contar e de acreditar em histórias é uma das características mais fundamentais da nossa espécie. “A ficção nos permitiu não só imaginar coisas como também fazer isso coletivamente”, escreveu em Sapiens.  Foi por meio dela que conseguimos nos agrupar em um grande número de pessoas de forma mais ou menos harmoniosa. 

Acreditar nas mesmas coisas, nas mesmas ficções, é a cola que nos une e que nos impede de entrarmos em guerra constante uns contra os outros. Essas crenças compartilhadas, costuradas em nossa psique por milhares de anos de evolução biológica, tornam possível uma união que dificilmente existiria de outro modo.

Hoje é possível enxergar claramente a evolução da narrativa médica dentro da literatura, mas o percurso para chegar até aqui começa um pouco antes. Diz-se que essa relação entre medicina e literatura acontece de maneira mais forte durante a era do Romantismo, uma época onde o avanço profissional dependia diretamente não apenas de conhecimento técnico, mas também do sucesso social do médico. 

No século 19, algumas publicações foram de grande importância para a disseminação do conhecimento envolvendo a saúde e para a formação do médico como pessoa de prestígio. É o caso de revistas como a Edinburgh Review e Blackwood’s Edinburgh Magazine, que ajudaram a moldar a cultura médica daquele período. 

Escritas e editadas por grandes personalidades da medicina, essas publicações desempenharam importante papel na discussão sobre leis, costumes e novidades e traziam em seu conteúdo textos técnicos e também ficcionais de nomes como David Macbeth Moir, W. P. Alison, Samuel Warren e Robert Gooch. 

A famosa pergunta “pode um médico ser um humanista?”, feita por Robertson Davies em sua famosa conferência no Hospital  John Hopkins em 1984, ilustra bem a situação de declínio do ensino amplo e vasto do profissional da saúde em favor de uma formação mais especializada, mais ensimesmada, que perdura até os dias de hoje. Uma derrocada que, como demonstra Michel Foucault, curiosamente tem início justamente no século 19. 

À falta de uma formação mais ampla e humana dos profissionais da saúde na contemporaneidade, se junta a escassez de publicações que fomentem ideias e incentivem a interação mais próxima entre público e os profissionais da saúde. Uma aproximação que tem acontecido em outras áreas da ciências, principalmente por conta da atual pandemia Covid-19, mas que ainda se mostra lenta e receosa quando se trata especificamente das ciências médicas. 

Não existe uma fórmula mágica para a resolução do problema, é claro. Mas, em um mundo de pessoas cada vez mais encasteladas em suas próprias certezas e convicções, a criação de espaços que permitam o acesso às mais diversas narrativas, é um dos passos cruciais para chegarmos até ela. 

 


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Jocê Rodrigues
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Escritor, jornalista e editor. Sou um dos coordenadores do "Encontros de Leitura", do ITS, em parceria com a EMERJ. Pesquiso principalmente sobre as inusitadas intersecções, costuras e remendos entre ciência, medicina e literatura no Século XIX.

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