Menos é Mais - Será que não estamos solicitando exames demais?
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Menos é Mais - Será que não estamos solicitando exames demais?

Desde a faculdade aprendemos que durante a avaliação do paciente a sequencia anamnese, exame físico e exames complementares vai nos acompanhar pro resto de nossas vidas, principalmente como clínicos.E que exames complementares são necessários para confirmar, identificar e direcionar diagnósticos e tratamentos. Porém, em consequência do avanço tecnológico da medicina, a mecanização da prática médica e a formação irregular de profissionais a tendência a desvalorização dos achados semiológicos e a supervalorização de solicitação de exames laboratoriais tornou-se um verdadeiro problema de saúde pública.

A maior causa de aumento nos gastos em saúde, sem dúvida resulta da incorporação de refinamento diagnóstico em exames laboratoriais, muitas vezes desnecessários. Nos Estados Unidos, o National Health Found, em 2012 estimou um gasto de 16 bilhões de dólares em exames complementares de pacientes de média e alta complexidades, internados ou não, e sem dúvida este número só aumenta.

O uso excessivo de testes laboratoriais e exames diagnósticos, é particularmente comum nas unidades de terapia intensiva. Fato esse, atribuído a complexidade dos pacientes, a necessidade de um diagnóstico rápido e preciso, e porque não dizer, a questões culturais e psicológicas dos intensivistas. O medo de processos, de represálias de familiares, gestores e até de outros médicos, nos torna cada vez mais "laboratoristas" do que realmente médicos.

Em pesquisa conduzida na Universidade de Campinas com pacientes internados e ambulatoriais, mostrou a alta incidência de pedidos de exames que não possuíam alterações. Em números: 56% em pacientes internados, e 70% em pacientes ambulatoriais. Obviamente, em um país como o nosso com tantas diferenças em recursos destinados aos cuidados em saúde, a tendência, nos faz pensar que em lugares com mais estrutura e recursos tecnológicos esses números venham a ser maior. Porém, estudos desse tipo, ainda são escassos por aqui.

Um estudo interessante, publicado em 2107 na revista Chest, instituiu a utilização de um protocolo de coleta de gasometria arterial como uma estratégia educacional na equipe das unidades de terapia intensiva, coletando gasometria arterial somente a cada mudança clínica aguda do paciente, e previamente a decisão médica de qualquer intervenção associada a mudança de quadro clínico. Dessa forma houve redução em quase 50% a coleta de gasometrias arteriais. Resultando em redução de custos totais em UTI, perdas sanguíneas, e em ausência de impacto negativo nas condução das alterações clínicas dos pacientes. Sendo assim, vários guidelines e protocolos veem surgindo para conter essa enxurrada de solicitação de exames, muitos deles sem necessidades .

É imprescindível hoje, no contexto de redução de custos, e investimento em o que realmente importa para melhora nos cuidados dos pacientes, que mais estudos divulguem práticas racionais na utilização de exames complementares, e o empenho da equipe médica em desenvolver protocolos que ajudem e conscientizem o time de profissionais envolvidos na assistência ao paciente. Não só em UTIs , mas em todo processo de cuidados da saúde.

Nunca fez tanto sentido resgatar o olhar semiológico ao doente, a visita a beira do leito, a observação atenta aos detalhes na história clínica para a tomada de decisão mais acertada aos nossos pacientes.

Para acompanhar mais textos deste tipo, siga a TAG GESTÃO e a autora ROBERTA FITTIPALDI, que produz muitos conteúdos voltados para TERAPIA INTENSIVA e PNEUMOLOGIA

Referências:

JAMA Intern Med 2017 Nov 13. Andrew S. Parsons, MD, MPH reviewing Valencia V et al.

Chest. 2017 An Educational Intervention Optimizes the Use of Arterial Blood Gas Determinations Across ICUs From Different Specialties: A Quality-Improvement StudyMartínez-Balzano CD et al.

Roberta Fittipaldi Palazzo
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Medica pneumologista e intensivista. Pneumologista do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE), professora da pôs graduação de Terapia Intensiva do HIAE, cursando doutorado em Pneumologia na Universidade de São Paulo(USP).

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