Os dados epidemiológicos recentes da Europa desenham um cenário de alerta: as notificações de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) bacterianas enfrentam uma escalada preocupante. Entre 2014 e 2023, as notificações de gonorreia entre homens que fazem sexo com homens (HSH) aumentaram quase 300%, enquanto a sífilis avançou 90% e a clamídia 180%. Preocupantemente, observou-se também um aumento de quase 200% nas taxas de gonorreia entre mulheres jovens (20-24 anos).
Conforme os ensinamentos de Rudolf Virchow, as epidemias são sintomas de estruturas sociais, e a máxima ressoa com urgência diante deste cenário, agravado pela circulação de "novas" ameaças, como o Mpox e linhagens de Shigella extensivamente resistentes a medicamentos.
O Que Diz o Relatório do ECDC (Dados 2024-2025)
O European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) publicou recentemente o relatório de monitoramento das respostas às epidemias de ISTs, com dados validados até meados de 2025. O documento avalia a resposta de 29 países e expõe contrastes significativos. Embora 24 países tenham estabelecido políticas de vacinação contra Mpox para grupos de risco, a cobertura vacinal real permanece baixa e heterogênea.
Paralelamente, a profilaxia pós-exposição com doxiciclina (Doxy-PEP) começa a se desenhar como uma realidade clínica: embora apenas 5 países possuam orientações nacionais formais, o uso informal ou prescrito com base em evidência empírica já é relatado em diversos outros locais. No entanto, barreiras estruturais persistem: o custo do teste diagnóstico ainda recai sobre o indivíduo em 13 dos 29 países analisados, e ferramentas de acesso facilitado, como a autocoleta (self-sampling), têm disponibilidade limitada na maioria das nações.
Análise Crítica e Impacto Prático
Para a prática clínica, a interpretação destes dados revela pontos cegos éticos e técnicos que exigem mudança de conduta. O primeiro ponto crítico reside no risco da sífilis congênita. Embora 27 países tenham políticas de rastreio no primeiro trimestre da gestação, cerca de metade (15 países) não relata protocolos claros para repetir o teste no terceiro trimestre. Na obstetrícia, isso representa uma "janela de oportunidade perdida" para prevenir a transmissão vertical, cujos casos têm aumentado.
O segundo ponto é o desafio diagnóstico frente à Resistência Antimicrobiana (RAM). O uso massivo de testes de amplificação de ácidos nucleicos (NAAT), embora excelente para um diagnóstico rápido, reduziu drasticamente a realização de culturas. Sem culturas, perdemos a capacidade de monitorar a suscetibilidade antimicrobiana da Neisseria gonorrhoeae. Somada a isso, a fragilidade da cadeia de suprimentos é evidente, com 8 países relatando escassez recente de penicilina benzatina, o pilar do tratamento da sífilis.
Nota do Editor
Um dado alarmante do relatório é a lacuna de informação ("data gaps"). Pouquíssimos países conseguiram fornecer dados robustos sobre a cobertura real de testagem e tratamento em populações-chave. Para a medicina baseada em evidências, a ausência de dados é um risco tão grande quanto a doença em si. Sem saber quem estamos deixando de testar, o planejamento de intervenções torna-se impreciso. Como profissionais, devemos defender e participar ativamente da notificação compulsória e da coleta de dados de qualidade, elevando o índice de suspeição clínica em cada consulta.
*Texto elaborado por: Carolina C. dos Reis
Referências:
Monitoring of the responses to sexually-transmitted infection epidemics in EU/EEA countries, 2024 – ECDC ;
Global health sector strategies on HIV, viral hepatitis and STIs 2022-2030 – WHO ;
Gonorrhoea: Annual Epidemiological Report for 2023 – ECDC ;
Congenital syphilis - Annual Epidemiological Report for 2023 – ECDC .






