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Monumentos à saúde e os Moais da Ilha de Páscoa: o que uma coisa tem a ver com a outra?

Fernando Carbonieri
mai. 11 - 7 min de leitura
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Fazendo minhas atualizações matinais, mergulhado naqueles journals de bioética que tanto me instigam, aproveito para tomar o meu café. Vejo as notícias sobre a adoção massiva de novas terapias — como os agonistas de GLP-1 redefinindo tratamentos e o futuro das escolhas profissionais dos novos médicos — e fico pensando em como a nossa profissão é fascinante e mutável.

Nós, médicos e gestores, estamos sempre buscando nos adaptar e incorporar o que há de mais avançado para o bem-estar dos pacientes. Contudo, se olharmos com um pouco de distanciamento histórico, percebemos que os tempos e os domínios tecnológicos são rigorosamente cíclicos. O que hoje é o ápice da vanguarda e resolve uma grande dor, amanhã se torna o status quo que precisará ser repensado frente à próxima onda de inovação.

É exatamente esse convite à pausa e à reflexão que a Prof.ª Marta Fischer e Cristiano Chiaramonti nos trazem no recém-publicado artigo "Diamond e Potter: um diálogo sobre o futuro da humanidade". O texto promove um encontro intelectual inédito entre o biólogo Jared Diamond e o oncologista Van Rensselaer Potter para analisar o colapso da civilização Rapa Nui, na Ilha de Páscoa. E, de uma maneira muito sensível, a história deles fala profundamente sobre a forma como organizamos a saúde, a tecnologia e a nossa sociedade hoje.


O Moai da Late Majority e as Nossas Boas Intenções

Para entendermos o cenário, os autores lembram que o colapso é "compreendido como degradação e ruptura de sistemas complexos, leva a declínio ou desaparecimento de sociedades, ecossistemas e até mesmo das condições de habitabilidade do planeta". Na Ilha de Páscoa, aquela sociedade desenvolveu soluções brilhantes e construiu imponentes estátuas de pedra.

Como o artigo bem pontua, "os moais expressavam a capacidade organizacional dos clãs e funcionavam como marcadores de prestígio social, ao mesmo tempo em que exigiam a partilha de recursos materiais e humanos, tanto na construção quanto na manutenção biológica de construtores e transportadores".


Aqui, faço um paralelo com o nosso natural ciclo de adoção de tecnologia na saúde.

Muitas vezes, investimos em estruturas de inovação gigantescas, buscando oferecer a melhor infraestrutura possível. Mas, mergulhados na exaustão da rotina, podemos nos assentar na chamada late majority: ficamos confortáveis nas práticas já consolidadas e esquecemos que as diretrizes que hoje defendemos um dia também foram inovações disruptivas que precisaram quebrar velhos paradigmas.

Quantos "moais" a gente acaba construindo na nossa prática sem perceber?

Por vezes, o foco intenso na hiperespecialização ou em tecnologias super nichadas nos distancia de enxergar o sistema como um todo. Fazemos isso com a melhor das intenções, buscando salvar vidas, mas podemos esgotar recursos vitais (sejam eles ambientais, financeiros ou o próprio capital humano das equipes) em nome de um modelo isolado.


A Falsa Sensação de Segurança e a Economia do Conhecimento

Um dos pontos mais fascinantes que Fischer e Chiaramonti trazem é sobre a nossa relação de dependência com a tecnologia. Os habitantes de Rapa Nui não eram negligentes; eles desenvolveram estratégias resilientes de adaptação. Contudo, o texto questiona se essas soluções inovadoras não teriam estabelecido "uma falsa sensação de segurança e, assim, mascarado a necessidade de mudanças mais profundas e sistêmicas, cujo adiamento culminaria em problemas irreversíveis".


Na medicina, corremos o risco de entrar no que a filósofa Isabelle Stengers, citada no artigo, chama de economia do conhecimento: "o processo que oferece respostas consideradas convincentes às demandas do desenvolvimento econômico e social ao mesmo tempo que inviabiliza o reconhecimento da realidade existencial de pertencimento a uma biodiversidade complexa". Ou seja, resolvemos um problema imediato no centro cirúrgico ou no "ERP" de gestão do hospital, mas esquecemos a saúde do tecido social e ambiental lá fora.


Como alertam os autores de forma compassiva: "a lição do colapso dos Rapa Nui é que, sem políticas de equilíbrio entre população, recursos e cultura, mesmo em sociedades detentoras de tecnologias avançadas, o erro de esgotar o próprio sustento em nome de objetivos imediatos pode ser repetido".


Potter, o Cuidado Coletivo e a Analogia Biológica

Para ampliar essa visão, entra a lente firme, porém cuidadosa, do pai da bioética, Van Rensselaer Potter. Com sua experiência profunda em pesquisa e oncologia , Potter fez um exercício macroscópico e comparou o avanço insustentável da humanidade ao comportamento de uma célula cancerígena no organismo.


Os autores detalham que "a transposição por analogia da constatação biológica para as ações do ser humano, viabilizadas pela tecnologia, que priorizavam a resolução de problemas pontuais mas que poderiam afetar o equilíbrio do ecossistema a longo prazo, levou à conclusão de que o impacto da espécie humana para o planeta Terra se compara ao câncer no organismo humano".

Isso não é um ataque à inovação, mas um chamado à nossa responsabilidade coletiva. A bioética deve ser a ferramenta para deliberação coletiva, criando medidas que não olhem apenas o curto prazo.

Toda essa densidade teórica requer pessoas que se importem o suficiente para trazer o tema à tona. A Prof.ª Marta Fischer e o pesquisador Cristiano Chiaramonti merecem nosso reconhecimento e leitura atenta.

Lendo os argumentos do artigo, fui transportado de volta às aulas da Prof.ª Marta durante meus créditos de mestrado na PUCPR. Foi lá que compreendi que o pensamento sistêmico é a ferramenta mais empática e eficiente que podemos ter. A bioética ambiental é a verdadeira ponte para o futuro. Precisamos olhar para o paciente, para o médico, para o hospital e para a cidade como partes de um mesmo sistema vivo, o que hoje chamamos de lógica One Health.

As intersecções aqui trabalhadas forma discutidas durante o 1º Smart City Health Conference que qaconteceu em Curitiba entre os dias 25, 26 e 27 de Março de 2026, concomitantemente com a maior feira de Cidades Inteligentes das Américas, a Smart City Expo Curitiba 2026

Escrevemos o manifesto de nossas atividades porque acreditamos que não há saúde humana sem considerar o meio ambiente, e a tecnologia que desenvolvemos deve ser o fio condutor que reequilibra o sistema, não um fator a mais de estresse. É fundamental reconhecermos que o ser humano faz parte do ecossistema e não é proprietário dele.

Prof.ª Marta, meu muito obrigado por continuar fomentando reflexões que moldam a nossa atuação prática. As portas da Academia Médica e o nosso podcast estão abertos para ampliarmos essa conversa.

Para todos nós, que dedicamos nossas vidas ao cuidado do outro, fica o gentil — porém vital — recado final do estudo:

"A escolha é clara: ou o ser humano aprende com o passado e substitui a lógica da acumulação por uma ética de equilíbrio ou se torna prisioneiro de seus próprios monumentos ao progresso".

🧐? Como você acha que podemos inovar na nossa rotina hoje sem perdermos a visão do ecossistema e da saúde a longo prazo? Compartilhe a sua vivência nos comentários; estamos juntos nessa curva de aprendizado.


Fernando Carbonieri

Médico, Diretor Executivo da Academia Médica, Grupo Academia Médica

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