Aborto - No fundo a questão é sobre quem podemos matar
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Aborto - No fundo a questão é sobre quem podemos matar

tres meses

"Pela primeira vez em nossa tradição houve uma separação completa entre matar e curar. Ao longo da história do mundo primitivo, o médico e o feiticeiro normalmente eram a mesma pessoa. [Médico e feiticeiro] tinham o poder para matar e o poder para curar...

Com os gregos, a distinção entre ambos ficou clara. Uma profissão, a dos seguidores de Esculápio, deveria dedicar-se completamente à vida sob todas as circunstâncias, independente de classe, idade ou intelecto - à vida de um escravo, de um imperador, de um estrangeiro, de uma criança deficiente...

Esta é uma dádiva sem preço que não podemos arriscar que se corrompa. Todavia, a sociedade está sempre tentando transformar o médico num assassino - para matar a criança deficiente ao nascer, para 'esquecer' as pílulas soníferas ao lado do leito de um paciente com câncer...

É dever da sociedade proteger o médico de tais demandas."

Margaret Mead

Nossos poderes são especialistas em arrumar “treta” com o povo brasileiro. A última tragédia, vinda de avalanche junto com a desesperadora morte de um time de futebol num desastre aéreo causado pela negligência humana e com a votação do poder legislativo para blindar-se contra a maior investigação criminal política já realizada no mundo – a Lava-Jato –, foi a conclusão de que um abortamento feito até o fim do terceiro mês de gravidez não é crime, no dia 30 de novembro de 2016.

Imediatamente o caos estava armado. Argumentos esdrúxulos por todos os lados e muita sabedoria de mídia social, mas pouca consistência vinda de um povo atônito num dia de tormento no Brasil.

Tentando colocar em ordem alguns pensamentos e orientar um pouco o caos de informações e opiniões circundantes, reproduzo algumas observações que fiz e que julgo adequadas para começarmos o debate.

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A ULTRASSONOGRAFIA E A MUDANÇA DE VIDA

O que mudou a vida de Bernard Nathanson, o Rei do Aborto, num primeiro momento, não foi a crença religiosa. Foi a tecnologia e o avanço das especialidades médicas!

Abortista de excelente capacidade técnica, responsável por cerca de 75.000 abortos - entre elas, a morte de seu próprio filho no ventre de sua esposa -, ele observou horrorizado o que acontecia com o feto durante um de seus procedimentos de aborto por meio da ultrassonografia.

Também viu nascer a especialidade que pode ser denominada fetologia ou medicina fetal, compreendendo que o feto era um paciente também, e que demandava cuidados e um posicionamento humanístico do médico.

A vocação médica e a tecnologia mudaram o homem. Aquele que antes ajudara a cunhar termos como "direito de decidir" e "assunto de mulher" tornar-se-ia um dos maiores defensores da vida humana.

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Por favor, com o intuito de evitar vergonha alheia, parem de comparar fetos e bebês com apêndices, montes de células e parasitas intestinais.

Nenhum apêndice um dia irá olhar você nos olhos e pedir colo, um abraço ou um beijo.

Monte de células é uma cutícula que você arranca quando corta unha.

Parasitas intestinais, como lombrigas, por exemplo, não têm placenta e cordão umbilical.

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CHUVA DE MORTES FICTÍCIAS

Os cientistas de botequim e os militantes de plantão dizem por aí:

Morrem milhões de mulheres todos os anos no Brasil por causa do aborto (versão mais modesta: morrem dezenas de milhares todos os anos).

Informações autoexplicativas do DATASUS:

Óbitos de Mulheres em Idade Fértil e Óbitos Maternos

Óbitos Maternos por Tipo: Causa obstétrica segundo categoria CID-10

Grupo CID-10: Gravidez que termina em aborto. Período: 2014

Total = 121

000 Gravidez ectópica = 53

001 Mola hidatiforme = 4

002 Outros produtos anormais da concepção = 9

003 Aborto espontâneo = 14

005 Outro tipo de aborto = 12

006 Aborto não especificado = 25

007 Falha de tentativa de aborto = 4

Se adotássemos um critério rigoroso e confiássemos na informação obtida, diríamos que morreram quatro, isto mesmo, quatro mulheres por causa da tentativa de abortar. Mas sejamos maleáveis e tentemos imaginar que algumas pessoas tentaram abortar e informaram diferente ou mentiram para esconder sua condição (005 + 006 + 007). Teríamos então, numa das mais exageradas hipóteses, quarenta e uma mortes durante todo o ano de 2014.

Cada morte é uma tragédia, com certeza. Mas se alguém quiser prevenir mortes, proibir a existência de piscinas parece ser algo mais eficaz que liberar o aborto, já que em 2013 tivemos 142 afogamentos em piscinas no Brasil![1]

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DEFESA DA VIDA HUMANA PELA CLASSE MÉDICA

Nutro a esperança de que o Conselho Federal de Medicina tenha muitos médicos comprometidos com a vida humana.

Mas não se esqueçam de que foi justamente da gestão passada do Conselho que veio a proposta de aborto liberado até à 12ª semana e a sugestão para que fosse implementado no Brasil um protocolo do tipo Groningen, de eutanásia infantil.

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FETO NÃO É HUMANO?

Status humano é questão genética e científica muito bem estabelecida. Ninguém sério no meio acadêmico, mesmo que esteja a favor do aborto, levantaria a hipótese de que um feto não é humano. É humano ontologicamente e geneticamente a partir do momento da concepção. O que está em discussão realmente é quais humanos podemos matar e quais não podemos. Fetos humanos não viram tatus ou samambaias, eles viram pessoas adultas, viram crianças, viram idosos, e todas essas categorias são categorias de seres humanos.

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VAMOS DISCUTIR A QUESTÃO?

Aborto não é questão.

Aborto é o extermínio de uma vida humana!

Aceitar a discussão sobre exterminar ou não vidas humanas ao nosso bel prazer já é um forte indício de deficiência cognitiva e moral.

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BARBARISMO CEREBRAL

Uma das formas mais estúpidas de argumentar que já vi....

"Você é contra o aborto? Não aborta então." Como se, ficando cada um na sua, não houvesse problema.

Logo,

Você é contra a tortura? Não torture então (os outros que torturem).

Você é contra o estupro? Não estupre então (deixe que outros o façam).

Você é contra mutilação genital? Não mutilea então...

Com uma diferença: nenhum dos três anteriores destruirá irremediavelmente e integralmente a vida humana.

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ANALOGIA BOBA E MORTE CEREBRAL

Achar que do critério pragmático de morte encefálica pode-se deduzir o critério biológico e ontológico para se definir o início da vida humana é um verdadeiro non sequitur. É uma analogia boba, burrice mesmo.

Não precisa nem ser médico para perceber isso. Basta pensar logicamente para compreender que critério de morte para pessoas em processo de morte é algo totalmente distante de estabelecer um critério para o início da vida. Critério este já muito bem estabelecido no caso dos humanos com base na embriologia e na genética.

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DESÂNIMO PROFUNDO

"Porque eu acho que não dá para falar que o feto é humano"

Fonte Bibliográfica: Eu acho que ouvi dizer na internet e eu acho que é científico.

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Prof. Dr. Hélio Angotti Neto é Colunista do Academia Médica, Coordenador do Curso de Medicina do UNESC, Diretor da Mirabilia Medicinæ (Revista internacional em Humanidades Médicas), Membro da Comissão de Ensino Médico do CRM-ES, Visiting Scholar da Global Bioethics Education Initiative do Center for Bioethics and Human Dignity em 2016, Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do UNESC, Presidente da Comissão de Bioética do Hospital Maternidade São José/UNESC e criador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina (SEFAM).

[1] SOCIEDADE BRASILEIRA DE SALVAMENTO AQUÁTICO – SOBRASA. Afogamentos. O que está acontecendo? Boletim Brasil 2015, Dr. David Szpilman. Internet, http://www.sobrasa.org/new_sobrasa/arquivos/baixar/AFOGAMENTOS_Boletim_Brasil_2015.pdf

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Hélio Angotti Neto

Hélio Angotti Neto

Doutor - UNESC

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