O bug que me ocorreu! O desafio de uma oratória sempre assertiva
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O bug que me ocorreu! O desafio de uma oratória sempre assertiva

 
Na última semana vivenciei uma experiência aterrorizante e que me fez parar para refletir. Participava de um fórum de inovação, com cerca de 40 palestrantes, mais de 120 espectadores presentes e transmissão ao vivo pela internet. Apesar do evento como um todo ter sido ótimo, eu não consegui desempenhar meu costumeiro papel.

Há tempos invisto no desenvolvimento de uma boa oratória, através de  cursos, leituras, estudo de vídeos e aplicação prática. De certo, já me expus a diversas situações nas quais coloquei à prova minha habilidade de comunicação em público. Além de ministrar diversas aulas, em geral, para médicos, coordenei reuniões, fui por vezes entrevistado e produzi diversos vídeos. Considero-me, assim, um bom orador e acreditava ser improvável que este tipo de bug me ocorresse a esta altura do campeonato.

Mas sim, experimentei novamente uma situação de pânico ao falar em público. Digo novamente, pois já havia passado por isso em algumas de minhas apresentações no início da pós-graduação, quando ainda me encontrava muito menos preparado.

Comparo a experiência com um bug de computador, sendo que a coisa não vai nem volta, fica travada naquele breve período que tende a durar uma eternidade. Diferente da máquina, as sensações percebidas por mim foram muito desagradáveis e minha única vontade era que pudesse ir embora daquela situação extremamente incômoda. 

Vejamos como me senti: muito inseguro, pernas bambas, palpitações, grande dificuldade para respirar, sensação de bolo na garganta, descontrole na fala, sensação de frio na barriga, pensamentos não encadeados, sudoreico e com tremores. Como médico, sei que esse quadro decorre de reações autonômicas secundárias ao medo e estresse presentes naquele momento.

Analisando o ocorrido, elenquei possíveis causas de forma a buscar evitar novas ocorrências desastrosas futuras:

1. Pouco preparo: preparar-se para uma palestra nunca é demais. Entender qual o seu público alvo, para quantas pessoas irá falar, qual o tempo de apresentação e quais recursos audiovisuais disponíveis são variáveis que devem ser conhecidas e escritas no roteiro inicial. Após isso, preparar o conteúdo a ser falado e então ensaiá-lo quantas vezes possível. Se possível, conhecer o local da apresentação também ajuda na ambientação. Esses passos, por si só, podem determinar o sucesso da apresentação.

2. Não entender claramente o propósito de minha participação no evento em questão e não alinhar os objetivos de minha apresentação com os objetivos do evento. Esse entendimento é essencial para o comprometimento da audiência com a apresentação, sendo importante saber o que se pretende mudar nos espectadores após o termino da palestra. Qual a mensagem que quero deixar?

Essa falha foi eminentemente minha, pois os organizadores propuseram encontros anteriores para network, dos quais eu não pude participar devido a compromissos pessoais. 

3. Superestimar a ausência de auxílio audiovisual: no evento em questão não seria disponibilizado o uso do PowerPoint, o que normalmente me auxilia muito nas apresentações. Costumo usá-lo como um orientador do conteúdo da minha fala e do raciocínio lógico que a embasa. Só depois fui pensar que essa lacuna poderia ter sido suprida simplesmente acessando os slides pelo celular, de forma que esse roteiro estivesse prontamente disponível no momento da fala. Ao invés disso, optei por fazer um texto o que me atrapalhou imensamente, pois no meio de minha apresentação me perdi na leitura causando um grande constrangimento. Minha única missão era relatar a história da formação da minha clinica, mas me “embananei” imensamente. A dica é que a narrativa perfeitamente planejada não é necessária e a naturalidade na fala é muito bem-vinda e na maioria das vezes mais eficaz.

4. Achar que o tempo era insuficiente: nesse evento, um dos principais desafios seriam os meros 5 minutos para apresentação. Confesso que isto me causou, desnecessariamente, um certo desconforto. É impressionante o que conseguimos transmitir de informação em 5 minutos.  Sim, eu já sabia bem disso, pois tenho diversos vídeos no Youtube, todos com menos de 3 minutos e com feedbacks muito positivos. Por algum motivo, sublimei esse conhecimento e deixei-me influenciar negativamente pelo tempo estabelecido.

5. Cansaço físico: minha semana imediatamente anterior ao evento foi extremamente atribulada. Não só no sentido negativo em relação à quantidade de afazeres e responsabilidades. Minha agenda no consultório estava excepcionalmente cheia e com novas cirurgias sendo agendadas – em princípio, tudo que eu almejo para o desenvolvimento de meu consultório.  Além disso, estava me preparando para uma viagem internacional e, o mais importante, vivenciando intensamente, ao lado de minha esposa, os medos e alegrias de nossa primeira gestação. Sim, percebo que estava exausto e que meu corpo demonstrou isso em uma hora bastante inoportuna.

Esse conjunto multifatorial exposto acima culminou em meu lapso. Ao olhar para trás e perceber o "tilt" ocorrido, além do sentimento de irritação e vergonha ao observar minha sofrível atuação, confesso também que me peguei rindo de meu atrapalhado desempenho. Acredito que um bom entendimento de nossas falhas e fracassos nos ajuda a melhorar nossas habilidades e evoluir como profissionais. Sei que falar em público é considerado um dos maiores medos da humanidade, mas também sei que é possível superá-lo com certa dedicação, coragem e preparação. Espero que esses insigths também possam ajudar e inspirar o desenvolvimento da comunicação do estimado leitor.

Ademais, que fique o aprendizado e que venham melhores realizações, pois como dizia Paulo Vanzolini: 

“Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima”


Dr. Bruno Rossini - Médico Otorrinolaringologista

Bruno Rossini
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Fundador da Clínica OTOVITA de Otorrinolaringologia em São Paulo. Apaixonado por estudar e ensinar assuntos relacionados com o desenvolvimento da carreira médica, sei da importância do conhecimento gerencial para o sucesso nessa jornada.

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