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O grande médico
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O grande médico

O grande médico

Por que lavamos as mãos? Para deixá-las limpas. Limpas de quê? De impurezas, germes, bactérias! A resposta a estas perguntas nos parecem muito óbvias, no entanto, nem sempre foi assim.

Imaginem a cena: um médico sai de um laboratório de anatomia e autópsias, suas mãos estão sujas de sangue e pus. Ele tira o excesso de imundícies com um pano velho e sujo também. Segue para a ala do hospital onde estão várias pacientes. Gestantes em trabalho de parto e algumas que acabaram de parir. Chega na primeira paciente que vê e resolve examiná-la. Sem luvas! Sem lavar as mãos! Faz um toque para avaliar o grau de dilatação do colo do útero. Segue para a próxima paciente e assim vai. Mas existem colegas seus e estudantes de medicina com as mãos tão sujas ou mais que as suas. Eles fazem o mesmo, seguem examinando, dezenas de vezes.

Parece um pesadelo? Um filme de terror daqueles bem grotescos não é? Pois bem, era exatamente isso que acontecia na maioria dos hospitais da Europa e dos Estados Unidos em meados do século XIX. Não por coincidência a mortalidade dessas mesmas mulheres que eram internadas atingia níveis estratosféricos. Ninguém entendia porque. Umidade? Atmosfera impregnada de vapores deletérios?  Até o próprio medo das pacientes era visto por muitos médicos como uma das causas para esta alta taxa de mortalidade! Parece brincadeira, mas não era.

Nesta época, antes do mundo descobrir os germes e bactérias, era difícil de entender mesmo. Pasteur, Lister, Holmes, Kock? Eles ainda não haviam feito suas grandes descobertas.Nada do que fosse invisível existiria. A ciência como a conhecemos estava dando os primeiros passos. O microscópio era considerado um artefato de pouca utilidade dado que as imagens por ele fornecidas eram ruins e de pouco entendimento. A febre puerperal, este o nome da doença que matava tantas mulheres, reinava absoluta e sem oposição.

Então surgiu uma luz. Uma esperança em meio a tanta dor e desespero. Um jovem médico húngaro e que viera estudar em Viena, capital do Império Austro-Húngaro de então. Seu nome era Ignácio Felipe Semmelweiss. Com muita inteligência e quase sem querer(como se isso existisse) ele entendeu o que estava acontecendo. Soube observar os sinais e as pistas e traduzir isso em uma teoria e em um método, o que salvaria e ainda salva milhares de vidas.

Ele queria ser clínico e estudar com Dr Rokitansky ou com Dr Skoda, ambos grandes professores da época. Não foi aceito por nenhum deles como assistente(nessa época não havia residência médica). Acabou sendo aceito por um certo Dr Klein então chefe da divisão de obstetrícia do Grande Hospital de Viena. A obstetrícia daqueles tempos era considerada uma disciplina inferior. O médico tinha que dividir espaço com as parteiras. Não era isso que Dr Semmelweiss queria mas aceitou o cargo.

Logo que passou a trabalhar na Primeira Divisão, como era chamada a ala de internação, ele se deparou com as mortes incontáveis. Ali os estudantes de medicina andavam a examinar muitas pacientes, várias vezes, aprendendo e(sem ainda saber) matando. Havia uma outra ala chamada de Segunda Divisão onde apenas as parteiras cuidavam das pacientes. Ali o número de mortes era absurdamente inferior aos da Primeira. Não havia estudantes e nem médicos circulando por lá. O que poderia explicar isso? O que os estudantes e médicos faziam de diferente das parteiras?

Depois de muita observação, muitas autópsias e análises ele entendeu. As parteiras não dissecavam cadáveres! As mãos delas não estavam impregnadas daquela matéria podre e do pus que muitos cadáveres apresentavam. Ele não sabia da existência das bactérias, mas sabia que as mãos sujas estavam transmitindo a doença dos cadáveres para as pacientes. Um de seus amigos morreu apresentando os mesmos sintomas da febre puerperal após se cortar acidentalmente com um bisturi contaminado. Era isso!

Lavar as mãos! Algo tão simples para nossos dias mas que na época foi uma revolução. Dr Semmelweiss chegou a elaborar uma solução de ácido clórico e obrigou a todos, estudantes, médicos e até mesmo as parteiras a banhar suas mãos em uma bacia com a substância antes de lidar com as pacientes. O resultado apareceu logo. A taxa de mortalidade caiu vertiginosamente e chegou a ser zerada muitas vezes. A esperança renascia.

Nos meses e anos subsequentes Semmelweiss se manteve firme e resoluto em sua meta. Muitos tornaram-se seus inimigos e diziam que seu método era errado. Muitos se sentiam culpados por terem sido responsáveis por tantas mortes, mesmo que sem saber. Dr Ignácio demorou alguns anos para transformar seu trabalho em um livro ou em um artigo científico mais robusto, o que lhe dificultou muito a aceitação por parte da comunidade médica. Ele achava tão óbvio que nem precisaria explicar academicamente.

Dr Semmelweiss pensou. Pensou fora da caixa. Foi muito além dos padrões estabelecidos, do preconceito e dos dogmas vigentes. Sua estória é muito maior e mais interessante do que este humilde texto de forma que existem alguns bons livros sobre este grande herói e gênio. Aconselho que conheçam mais sobre ele. Uma grande inspiração para todos nós.

Da próxima vez que forem lavar as mãos lembrem-se do Dr Ignácio Semmelweiss. É por causa dele que fazemos isso.

“Lavem as mãos senhores! Lavem as mãos!”

 

Recomendo: The Doctor´s Plague – Germs, Childbed Fever and the Strange Story of Ignác Semmelweiss. Sherwin B. Nuland

O Dono da Vida; Marc Thompson

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