Uma pesquisa publicada em Nature Metabolism em 11 de junho de 2025, revelou a existência de um novo circuito neural que conecta diretamente o olfato à saciedade, ao menos em camundongos. A descoberta pode abrir caminho para novas estratégias de combate à obesidade e transtornos alimentares, e nos faz repensar o papel do cheiro dos alimentos na regulação do apetite.
O estudo demonstrou que, ao sentir o cheiro da comida, camundongos saudáveis ativam um grupo específico de neurônios no septum medial, uma área pouco explorada do cérebro. Essa ativação gera rapidamente uma sensação de saciedade, mesmo antes da ingestão de alimentos. Segundo os cientistas, essa reação acontece em segundos, pois os neurônios em questão estão diretamente conectados ao bulbo olfatório, a estrutura responsável por processar os odores.
Mais impressionante ainda: essa ativação reduzia a quantidade de comida ingerida. Ou seja, apenas sentir o cheiro da refeição fazia os animais comerem menos. A hipótese dos pesquisadores é que esse mecanismo teria uma função adaptativa na natureza, ao reduzir o tempo de alimentação, os animais se exporiam menos a predadores.
Nos camundongos com obesidade, o mesmo grupo de neurônios não foi ativado ao sentir o cheiro dos alimentos. Ou seja, nesses casos, o cheiro não induziu a sensação de saciedade nem reduziu o consumo alimentar. Isso é consistente com dados anteriores mostrando que a obesidade afeta o funcionamento do sistema olfatório e a atividade neuronal no bulbo olfatório.
A descoberta sugere que a obesidade pode comprometer diretamente a percepção olfativa relacionada ao controle da fome, tornando algumas estratégias de modulação do apetite menos eficazes em pessoas com excesso de peso.
E nos humanos?
O cérebro humano possui a mesma região do septum medial identificada nos camundongos, mas ainda não se sabe se esses neurônios funcionam da mesma maneira. No entanto, estudos prévios já indicaram que certos odores específicos podem reduzir o apetite em pessoas magras, enquanto em pessoas com sobrepeso, o efeito pode ser o oposto: o cheiro pode estimular ainda mais a fome.
A coordenadora da pesquisa, Dra. Sophie Steculorum, destaca que os achados ressaltam a importância de considerar o olfato na regulação do apetite e no desenvolvimento de estratégias terapêuticas para obesidade. “Nossos dados mostram como o hábito de comer é profundamente influenciado pelo cheiro da comida. E como esse mecanismo pode falhar em pessoas com obesidade, oferecendo um novo caminho para pensar intervenções personalizadas”, explica.
Essa pesquisa abre possibilidades de intervenções sensoriais antes das refeições, como a exposição a determinados cheiros, como ferramenta auxiliar no controle alimentar. No entanto, os autores alertam: essas intervenções precisariam ser personalizadas conforme o perfil metabólico do indivíduo, já que o mesmo estímulo pode ter efeitos opostos em diferentes contextos fisiológicos.
O próximo passo é investigar se esse circuito neural responde de maneira semelhante no cérebro humano e como ele pode ser influenciado por fatores como dieta, inflamação e peso corporal.
Referência:
Max Planck Institute for Biology of Ageing. "The hunger switch in your nose: How smells tell your brain to stop eating." ScienceDaily. ScienceDaily, 12 June 2025. <www.sciencedaily.com/releases/2025/06/250612031553.htm>.






