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Pandemia e internato médico: ressignificação profissional e pessoal

Pandemia e internato médico: ressignificação profissional e pessoal

Ciclo básico, ciclo clínico e internato. Assim é dividido o curso de medicina. Cada etapa com duração de 2 anos. No final de janeiro de 2020 iniciei o internato. Etapa aguardada de forma especial por mim. Seria o momento em que teria a chance de aplicar na prática os ensinamentos recebidos durante 4 anos. Seria também o momento de confirmar algumas escolhas referentes ao meu futuro, de estar mais próximo ao paciente, de viver diariamente a parte prática, de fato, da medicina. Um ano depois posso afirmar que foi e tem sido muito mais.

Iniciei meu internato pelo estágio da pediatria. Dia após dia via e atendia as crianças e criava com essas um vínculo único de cuidado, carinho e troca. Juntamente com o boneco que utilizo em meus atendimentos pediátricos, com adesivos e palitos coloridos foi um período de aprendizado e realização. Estava fazendo o que gostava, o que havia escolhido como missão de vida, o que me fazia deitar a cabeça no travesseiro e ter a certeza de que estava no caminho correto. Não passava por minha mente os desafios que enfrentaríamos ao longo das próximas semanas, meses...

No dia que marcou o início da última semana na pediatria, veio o comunicado de que as atividades seriam suspensas por conta da pandemia recém declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Naquele dia lembro de ter imaginado que logo a situação estaria resolvida e por isso enxerguei a pausa como uma oportunidade de respirar, tomar um fôlego e me preparar para o próximo estágio que teria. Com o passar dos dias, no entanto, fui percebendo que se tratava de um problema que demoraria um tempo maior para ser resolvido.

Um novo comunicado foi emitido por minha Faculdade estendendo o período de suspensão pelos próximos dois meses. Nesse momento um sentimento de que algo precisava ser feito tomou conta de mim. Não me sentia bem estando em casa quando poderia tentar ajudar de alguma forma, ao mesmo tempo não me sentia preparado para ir para a linha de frente de forma direta. Ainda estava no início do meu internato. Ainda havia muita coisa para aprender e ver na prática. Mas, não podia ficar em casa esperando. Foi em meio a dúvidas, medo e incertezas que iniciei minhas atividades no teleatendimento da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de minha cidade.

Na estrutura montada em formato de call center, nosso desafio era atender a população que ligava para tirar dúvidas referentes aos sintomas sentidos, triar essas pessoas e orientar sobre as medidas de prevenção quanto ao novo coronavírus e sobre qual o momento de se procurar um atendimento médico presencial. Por isso, me preparei para as perguntas e situações biológicas que poderiam surgir em decorrência da pandemia causada pelo novo patógeno que enfrentávamos. Busquei protocolos, fluxogramas, orientações...

Conforme os dias foram passando, fui me habituando a questionar meus pacientes sobre sintomas gripais, doenças prévias, fatores de risco... Saber quando um paciente deveria permanecer em acompanhamento em casa e quando deveria buscar ajuda médica presencial se tornou parte do meu dia a dia.

No entanto, nem só de sintomas biológicos é composta uma pessoa e feita a medicina. Algumas vezes nossos pacientes não possuem uma dor, uma queixa física, mas sim um outro problema que para eles é importante de ser solucionado. E é nesse momento que recebemos a chance de fazer aquele algo a mais pelo próximo que faz com que a medicina seja técnica, mas, ao mesmo tempo, humanizada.

Foi assim quando conversei com Luana* e pude ouvir sobre seu drama. Contando que a filha estava envolvida com drogas e que precisava internar ela em uma clínica, pois já não sabia mais o que fazer, precisava de um teste que mostrasse que a filha não estava contaminada pelo coronavírus, pois a clínica que havia encontrado só aceitava novos pacientes com a presença de um teste negativo. Pelos protocolos seguidos por nós, a filha não se encaixava nos critérios para a realização do exame e, por isso,aaa fazê-lo não era possível naquele momento. Ao mesmo tempo, como dizer isso para a mãe angustiada do outro lado da linha que não podia pagar pelo teste e via em nós sua última solução?

Lucineia* ligou para perguntar sobre o que fazer pois a empregada estava com sintomas, mas não tinha condições para ligar para a gente. Perguntei se era possível conversar com ela e Lucineia* me relatou que pediu que a empregada não fosse trabalhar até estar melhor, mas que resolveu ligar pra gente pois como sabia que Solange* não possuía condições em sua casa para nos ligar, ficou preocupada. O que fazer num caso como este em que não podemos conversar de forma direta com o paciente e verificar seu real estado de saúde?

E o que fazer quando precisamos optar entre se proteger da doença e não ter nada em casa ou sair para trabalhar e correr o risco de se contaminar? Foi esse questionamento que recebi quando atendi Flora*, vendedora ambulante do zoológico que relatou que estava com três contas de luz atrasadas, quatro de água e que já havia buscado ajuda de diversas formas e não tinha encontrado. Ao ver nosso número na televisão resolveu ligar para saber se tínhamos um posicionamento sobre quando tudo isso acabaria e ela poderia voltar a trabalhar. Percebi por seu tom de voz, suas palavras e a maneira com que conversava comigo, sua simplicidade, humildade, e tive uma vontade enorme de abraçá-la naquele momento. Não sabia o que dizer. Existem coisas que fogem do nosso controle e do poder que está em nossas mãos.

A pandemia que chegou ao Brasil deixou claro o quanto somos um País que teima em tratar de forma igual os desiguais. E a cada ligação que recebi onde os pacientes desejavam falar de coisas não relacionadas aos sintomas do coronavírus eu parava para ouvir. Era o mínimo que podia fazer. Emprestar meus ouvidos a quem deseja desabafar e colocar para fora o que está sentindo. Acredito que essa é nossa função maior.

Permaneci por três meses na SMS. Após sentir que havia cumprido minha missão ali e que precisava de novos desafios, me despedi de meus colegas, de minhas supervisoras, do prédio que tão bem me acolheu e fui para outro serviço. Passei a atuar na coleta do RT-PCR para pesquisa do coronavírus, o famoso “teste do cotonete”. Em paralelo desenvolvi atividades semelhantes as que fazia na SMS em um hospital de referência para o covid na cidade. Foram dois meses atuando nesses locais.

O dia em que completei cinco meses de atuação nesse cenário também marcou o dia em que me despedi do hospital em que estava atuando. Era o momento de retornar ao internato médico e continuar dando sequência à minha formação. Por cinco meses havia ficado longe dele. Cinco meses muito intensos, de muitos aprendizados, muitas histórias para contar e pessoas que vou levar comigo para o resto da vida em meu coração e minhas memórias.

Retomei as atividades do internato e iniciei pelo estágio de Urgência e Emergência, lembrando do menino que quando criança desejou ter uma ambulância e que agora tinha a chance de atender no Samu. No estágio de Clínica Médica pude confirmar minha vocação para a área clínica e vi, pela ótica do paciente, que de gripezinha a covid nada tem quando passei pela experiência do outro lado. Na Ginecologia e Obstetrícia desmaiei no primeiro dia no centro obstétrico e me emocionei a cada criança recém-nascida que eu via. E na Clínica Cirúrgica me surpreendi com o Leonardo que foi instrumentar e suturar.

O último ano foi muito intenso e bem diferente de qualquer imaginação que um dia eu possa ter feito do internato. Foi um ano de muito trabalho, muita resiliência e quase nenhuma pausa. Há pouco mais de um ano a máscara machuca o rosto, a impossibilidade de abraçar o paciente machuca o coração e as cenas vistas a cada dia vão deixando marcas dentro da gente. Estamos cansados. Exaustos. Buscando forças sei lá de onde. A nível físico, mental e emocional.

Mas, como Milton canta, "é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho sempre, quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida". E foi assim que iniciei há algumas semanas, oficialmente, o último ano da graduação. Com a certeza de que até aqui valeu a pena. Com o sentimento de que estou mais longe do início e mais perto do fim dessa etapa. Com o desejo de que ao tocar uma alma humana eu continue sendo outra alma humana.

Jamais tive a pretensão de curar, pois entendo que isso é algo que foge do meu controle e das minhas possibilidades. Se nessa caminhada eu conseguir acertar tratamentos e meus pacientes forem curados ficarei feliz. Mas, acredito que isso vai além de uma simples medicação ou procedimento. Acredito que há uma força maior envolvida a qual não somos capazes de explicar. Por isso, nunca tive essa objeção dentro da medicina. Mas, tenho sim a objeção de aliviar o sofrimento humano. Tornar a vida de meus pacientes mais leves. Fazer com que eles possam dar um sorriso. Seja por meio de um atendimento. Seja através de um abraço. Seja através de um olhar. Seja através do silêncio que faço quando coloco a disposição deles, meus ouvidos.

E é munido desses sentimentos, que após uma pausa, retomo minha participação aqui na Academia Médica. Com a missão de escrever, contar histórias, compartilhar experiências e trocar vivências. Com o desejo de fazer da medicina e da Saúde áreas cada vez mais humanas, sem que percamos a técnica. Com a vontade de conversar e discutir sobre o que a faculdade esqueceu de nos contar. E aí, vem comigo?

*Por questões éticas os nomes citados e asteriscados não correspondem a realidade. 

 


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Leonardo Cardoso
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Acadêmico de medicina, cursando o 11º período pelas Faculdades Pequeno Príncipe. Sonho com uma Saúde mais humanizada, equitativa e de qualidade, além de gostar muito de ler e escrever.

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