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O que um artigo de 1919 pode ensinar sobre a pandemia de COVID-19?

O que um artigo de 1919 pode ensinar sobre a pandemia de COVID-19?

A pandemia de gripe “espanhola” de 1918 a 1919 afetou quase 30% da população mundial, acumulou 675.000 mortes apenas nos Estados Unidos, cerca de 40 milhões de pessoas no mundo, sendo assim, coroada com o título de pior pandemia da história registrada. Em 1919, o evento ainda era cercado de muito mistério, mas isso não impediu o Major George A. Soper de publicar um manuscrito tão atual que poderia ser aplicado na pandemia de COVID-19 em pelo século XXI. O texto “THE LESSONS OF THE PANDEMIC” foi publicado em 30 de maio de 1919, na revista Science.

A “primeira onda” ou “onda da primavera” da pandemia de 1918 parece ter cruzado os Estados Unidos em março de 1918. Naquela época, diferente de hoje, nunca havia ocorrido tamanha catástrofe, talvez apenas a Peste Negra tenha infligido tamanha baixa, mas nunca nenhum incêndio, guerra ou fenômeno natural tivera a mesma proporção.

No inicio do artigo, já é possível entrever a falta de conhecimento da comunidade médica sobre controle de infecções respiratórias. Os Governos e as instituições de saúde tinham pouca vivência no assunto. As infecções de vias áreas eram uma proverbial caixa de Pandora, a qual abrigava um mal potencial e sobretudo desconhecido. Afinal, aquilo que começava como um despretensioso resfriado comum tomava proporções assustadoras, alguns pacientes desenvolviam maciça hemorragia pulmonar aguda ou edema pulmonar, e morriam rapidamente, em geral, menos de cinco dias após o início dos sintomas.

A crença de que a pandemia ocorreu independente de interferência humana ainda circulava pela população, havia quem culpasse no próprio meio cientifico, a Grande Guerra ou mesmo o severo inverno de 1917-18 seguido de um quente verão como responsável pela praga. Todavia, como na caixa dada por Zeus à Pandora, restava por último, a esperança. O Major Sober supera o tom derrotista do artigo dado pelo seu contexto atual, ao relembra as dificuldades subrepujadas durante a febre tifoide, um obstáculo muitas vezes dado como intransponível. Onde o homem encontra uma grande dificuldade, é de sua natureza engenhosa lançar-se em busca de uma solução. Assim, como ponto de partida, o autor deixa um relato para a posteridade sobre as lições aprendidas durante a pandemia.

O próprio Soper confessa que o controle da pandemia se baseou nas mais abstratas teorias. Afinal, o agente causador, fatores de risco, agravantes e fisiopatologia eram obscuros para a ciência da época. Por exemplo, até a década de 40, acreditou-se que a pandemia de influenza pudesse ser causada pelo bacilo de Pfeiffer, hoje melhor conhecido como Haemophilus influenza, que na verdade nem é um vírus, trata-se de uma bactéria cocobacilar Gram negativa, a qual infecta principalmente crianças de até cinco anos e pode causar complicações graves, como pneumonia, sepse, pericardite e até encefalite.

O autor comete outro equivoco ao emancipar a influenza da pneumonia, como se fossem entidades completamente diferentes, sendo que atualmente são encaradas como uma complicação. Além disso sabe-se hoje que a maioria dos indivíduos mortos em 1918 sucumbiram devido a pneumonias bacterianas secundárias, uma vez que ainda não se tinham antibióticos. Muitas décadas os separavam da produção em larga escala de antibacterianos e até da própria descoberta da penicilina, isolada por Sir Alexander Fleming na década de 1940, a qual iniciou a era de ouro dos antibióticos naturais das espécies de Streptomyces.

As enfermeiras transportam um paciente em St. Louis, Missouri, durante a pandemia de gripe espanhola em 1918.

Apesar da frágil base teórica do inicio do século XX, havia a incrível percepção de que a doença não se apresentava como múltiplas ondas de devastação, mas como um grande pico, e sobretudo pairava o sentimento de que a “influenza pandêmica” era uma entidade diferente. Hoje, entendemos que as pandemias são fruto de um shift antigênico. O genoma segmentado do vírus influenza possibilita troca de segmentos genéticos, ou seja, um rearranjo genético, alterando proteínas de superfície e logo, surge um novo subtipo de vírus.

Enquanto que em 1919 pouco se sabia sobre o inimigo, em 2020 temos disponível on-line, a sequência genômica completa do vírus da gripe de 1918, deduzida a partir de tecido pulmonar fixo e congelado de vítimas da época. Em contrapartida experimentamos na pandemia da COVID-19, que são necessários poucos dias para divulgar um completo sequenciamento de um novo coronavírus humano.

O artigo de 1919, a sua maneira, menciona as dificuldades de se evitar a alimentação da cadeia de transmissão por assintomáticos e de manejar o período de incubação, que ainda são um obstáculo. Desde aquela época, foi cogitada como uma boa estratégia responsabilizar o paciente pela proteção daqueles ao seu redor, uma vez que esse seria uma fonte produtora de patógeno. Surgia assim, um esboço de isolamento social. Essa tática revelou-se um sucesso em algumas cidades e vilarejos pequenos, mas foi vista como impraticável e inviável para grandes cidades.

“O ônus é colocado em um lugar que provavelmente não será carregado. Não está na natureza humana de um homem que pensa que só está com um simples resfriado, se manter em rígido isolamento como um meio de proteger os outros na pequena chance desse poder causar uma infecção realmente perigosa”.

Hoje nos noticiários vemos que não somente é possível, mas também recomendável, sendo as cidades com melhores resultados no controle da COVID-19, aquelas que primeiro adotaram as medidas de isolamento domiciliar e controle de circulação de pessoas, a exemplo de São Francisco, nos Estados Unidos.

O texto é dotado de grande lucidez e “atualidade”, mesmo que o autor se coloque muito próximo da pandemia para verdadeiramente avaliar sua proporção. Por outro lado, nós leitores, estamos muito distantes, sendo difícil simpatizar com sua realidade, talvez a frase“It comes, it spreads, it vanishes with unexampled suddenness” nunca arrepie nossa nuca. A obsolescência de algumas ideais e a limitações da época passam desapercebidas pela obra.

O desfecho do texto abarca 12 simples e condensadas regras recomendadas pelo cirurgião-general das Forças Armadas e chancelada pelo secretário de Guerra dos EUA. As regras surpreendem, pois não parecem ter sido escritas a mais de um século, abordam questões como saúde ventilatória, segurança epidemiológica e contágio por fômites, podendo as recomendações serem consideradas atemporais:

  1. Avoid needless crowding - Influenza is a crowd disease.
  2. Smother your coughs and sneezes-othersdo not want the germs which you would throw away.
  3. Your nose, not your mouth was made to breathe through – get the habit.
  4. Remember the three C's-a clean mouth, clean skin, and clean clothes.
  5. Try to keep cool when you walk and warm when you ride and sleep.
  6. Open the windows – Always at home at night; at the office when practicable.
  7. Food will win the war if you give it a chance – help by choosing and chewing your food well.
  8. Your fate may be in your own hands- wash your hands.
  9. Don't let the waste products of digestion accumulate - drink a glass or two of water on getting up.
  10. Don't use a napkin, towel, spoon, fork glass or cup which has been used by another person and not washed.
  11. Avoid tight clothes, tight shoes, tight gloves – seek to make nature your ally not your prisoner.
  12. When the air is pure breath all of it you can-breathe deeply.

 

Referências bibliográficas

  1. Jeffery K. Taubenberger. The Origin and Virulence of the 1918 “Spanish” Influenza Virus. ProcAm Philos Soc. 2006 Mar; 150(1): 86–112
  2. A. Soper. THE LESSONS OF THE PANDEMIC. Science. 1919 May;49(1274):501-506.
  3. https://www.aarp.org/politics-society/history/info-2020/spanish-flu-pandemic.html

 


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Miguel Augusto Pereira
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Miguel Augusto M. Pereira é acadêmico de Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Diretor Nacional de Extensão da Associação Brasileira de Ligas Acadêmicas de Medicina (ABLAM) e Membro da Comissão de Integração do Médico Jovem pelo CFM.

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