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Padrão Alimentar “Planetary Health” na Gestação e Desenvolvimento Fetal

Padrão Alimentar “Planetary Health” na Gestação e Desenvolvimento Fetal
Comunidade Academia Médica
dez. 21 - 7 min de leitura
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A obesidade infantil permanece como um desafio de grande escala. Nos Estados Unidos, entre 2017 e 2020, cerca de 1 em cada 5 crianças apresentou obesidade, totalizando mais de 47 milhões. Esse cenário reforça o interesse crescente no campo conhecido como Developmental Origins of Health and Disease (DOHaD), que investiga como exposições em períodos críticos do desenvolvimento, especialmente durante a gestação, podem influenciar o crescimento e a saúde do indivíduo ao longo da vida. Entre essas exposições, a alimentação materna ocupa um lugar central.

É nesse contexto que o estudo publicado em Jama Network Open, se propôs a responder uma pergunta ainda sem evidências diretas: seguir mais de perto a Planetary Health Diet, medida pelo Planetary Health Diet Index (PHDI), está associado a diferenças no crescimento e na composição corporal do feto? A Planetary Health Diet foi proposta em 2019 pela EAT-Lancet Commission como um padrão alimentar predominantemente baseado em vegetais, com quantidades moderadas de alimentos de origem animal. Um elemento importante dessa proposta é que suas recomendações consideram o impacto ambiental de cada grupo alimentar. Depois disso, diferentes estudos passaram a quantificar a adesão a esse padrão por meio de índices como o PHDI — mas, até então, não havia evidência sobre possíveis associações com desenvolvimento fetal.

A maioria das pesquisas nesse tema costuma avaliar medidas no nascimento, como peso e comprimento do recém-nascido. Já o acompanhamento do padrão de crescimento intrauterino ao longo da gestação, especialmente com avaliação mais detalhada de composição corporal, é menos frequente. Alguns trabalhos anteriores, usando outros padrões alimentares, produziram resultados variados. Há estudos que associaram dietas vegetarianas na gestação a neonatos menores, com menor peso e comprimento médios quando comparados a dietas não vegetarianas. Em outra direção, maior adesão a índices de qualidade alimentar como Alternative Healthy Eating Index-2010, Alternate Mediterranean Diet Score e DASH foi associada a um aumento médio de 97 a 100 gramas no peso ao nascer (quartil 4 versus quartil 1). Mesmo quando o foco se desloca para medidas fetais durante a gestação, os achados não são consistentes: alguns estudos não encontraram associação entre determinados padrões alimentares e medidas fetais por ultrassonografia 2D; outro trabalho relatou associações diferentes conforme a composição do padrão, com variações na circunferência cefálica ao longo dos trimestres. Em síntese, ainda havia uma lacuna: faltavam dados sobre a PHDI e, sobretudo, sobre medidas fetais mais refinadas.

Para preencher essa lacuna, os autores conduziram um estudo de coorte longitudinal, acompanhando gestantes com ultrassonografias seriadas ao longo da gravidez. O diferencial metodológico foi combinar medições tradicionais por ultrassonografia bidimensional (2D) com avaliações tridimensionais (3D). A justificativa é direta: trajetórias de crescimento avaliadas em diferentes momentos podem refletir melhor processos de programação metabólica do que uma medida isolada ao nascer. Além disso, o ultrassom 3D permite medir volumes de órgãos e membros e captar componentes como músculo, osso e gordura — informações que não podem ser obtidas pela ultrassonografia 2D.

Os resultados indicaram que maior adesão materna ao PHDI esteve associada a diferenças estatisticamente significativas em medidas e trajetórias de crescimento fetal, especialmente no segundo e no terceiro trimestres. Entre gestantes com alta adesão, os fetos apresentaram maior peso fetal estimado (EFW) e maior circunferência cefálica (HC) no terceiro trimestre. Também foi observado menor comprimento do úmero (HL) no segundo trimestre, mas maior comprimento do fêmur (FL) no segundo trimestre e ao longo da gestação. Ainda no terceiro trimestre, esse grupo apresentou maior área abdominal e maior volume fracionário de gordura no braço (fractional fat arm volume). Já entre gestantes com adesão moderada, em comparação com o grupo de alta adesão, os fetos tiveram maior comprimento do úmero , maior volume médio pulmonar e maior volume médio renal no segundo trimestre.

Os autores destacam que esses achados são considerados “novos” justamente porque existem poucos estudos avaliando padrões alimentares maternos com ultrassonografia 3D. Ao comparar com a literatura disponível, eles observam que estudos anteriores com outros índices alimentares e medidas 2D produziram resultados mistos: alguns encontraram menor peso fetal estimado associado a baixa adesão à dieta mediterrânea em determinado trimestre, enquanto outros não observaram relação entre padrões alimentares e EFW ou circunferência abdominal em diferentes momentos da gestação. O estudo também chama atenção para um ponto que pode explicar divergências entre pesquisas: dietas “plant-based” podem ser muito diferentes entre si, e a proporção e a qualidade dos alimentos vegetais e de origem animal podem alterar padrões de crescimento e composição corporal fetal.

Há estudos que associaram maior ingestão materna de carboidratos (como fontes de amido) a maior gordura abdominal fetal e padrões alimentares ricos em itens amiláceos e grãos não integrais a maior adiposidade neonatal. Outros trabalhos relataram associações entre maior ingestão de carboidratos no final da gestação e maior gordura ao nascer, e entre maior ingestão de gordura ou carboidratos e maior massa de gordura na prole. A interpretação proposta pelos autores é que padrões com maior presença de alimentos vegetais e proteína animal em quantidade moderada podem influenciar deposição de gordura fetal por vias ligadas ao metabolismo lipídico materno, enquanto crescimento de tecido magro depende de disponibilidade de proteína e aminoácidos — o que reforça plausibilidade biológica, sem estabelecer causalidade.

Na conclusão, a mensagem é que fetos de gestantes com alta adesão ao Planetary Health Diet Index (PHDI) apresentaram, no terceiro trimestre, maior maior peso fetal estimado (EFW), maior circunferência cefálica, maior volume fracionário de gordura no braço e maiores medidas abdominais, com tendência semelhante para adesão moderada a partir do segundo trimestre. Ainda assim, mesmo quando estatisticamente significativas, essas diferenças podem não ser clinicamente relevantes. Em outras palavras, os resultados devem ser vistos como hipótese geradora — especialmente porque, embora o PHDI seja frequentemente discutido como estratégia de sustentabilidade ambiental, suas possíveis associações com adiposidade fetal e implicações para crescimento neonatal e risco de sobrepeso e obesidade na infância ainda precisam ser investigadas em estudos futuros, idealmente considerando também outros fatores de estilo de vida.


Referência:

Clayton PK, DeVilbiss EA, Lim S, et al. Adherence to the Planetary Health Diet Index and Fetal Body Composition. JAMA Netw Open. 2025;8(12):e2544153. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.44153



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