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Plasma convalescente: alternativa de tratamento para pacientes com COVID-19

Plasma convalescente: alternativa de tratamento para pacientes com COVID-19

A urgência de cientistas na busca e desenvolvimento de terapias para tratar pacientes acometidos pela COVID-19 é justificável. Apesar de apresentar taxa de mortalidade abaixo das associadas a outras doenças, como MERS-CoV e o Ebola, o SARS-CoV-2 se dissemina com maior facilidade e, por isso, põe em risco uma quantidade maior de pessoas.

Com a "infodemia" que nos cerca e nos abala (queiramos ou não), a pressão da mídia e da população que tenta acelerar do desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus aumenta cada dia mais. Isso é constatado, inclusive, pelo aumento alarmante do número de usuários que pesquisaram no Google pelo termo "vacina" nos últimos 90 dias.

Apesar da eficácia comprovada dessa estratégia de imunização ativa, sabemos que o tempo para desenvolver uma vacina é longo e tem uma justificativa válida: há muito que se descobrir antes de entregar um produto final para imunização populacional. Porém, infelizmente, não podemos esperar tanto para tratar a quantidade cada vez maior de pacientes acometidos pela COVID-19.

Dessa forma, algumas estratégias surgem como alternativas para diminuir a quantidade de óbitos de pacientes já infectados pelo vírus. Se ainda não somos capazes de evitar sua contaminação utilizando as vacinas, podemos utilizar algumas ferramentas que estão ao nosso alcance imediato. Uma dessas estratégias é o "transplante de imunidade".

 

Definição

O "transplante de imunidade" consiste em metodologias que, de uma forma ou outra, são capazes de transferir imunoglobulinas de interesse de um indivíduo doador que teve contato com um certo patógeno e desenvolveu imunidade específica contra o antígeno característico para um segundo indivíduo acometido pela doença e que não foi capaz, ainda, de desenvolver imunidade própria.

Assim, o plasma convalescente colhido por aférese administrado a um indivíduo doente pode, por definição, ser classificado como uma estratégia de imunização passiva, tal qual a administração de soros antiofídicos no caso de acidentes com animais peçonhentos. É uma das formas de se transplantar imunidade.

Plasma Convalescente

A administração de plasma convalescente para pacientes com COVID-19 vem sendo explorada em frentes de atendimento com alta demanda e, especialmente, em casos em que os pacientes apresentam comorbidades que podem agravar seus quadros rapidamente. Exemplos de tais lugares são China e Itália, países que sofreram muito com a disseminação da doença, e, mais recentemente, o Brasil, que se prepara para utilizar essa alternativa prestes a atingir o seu pico de contaminação.

Em notícia recente do Jornal da FMRP-USP, o prof. Rodrigo Calado, hematologista, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e diretor do Hemocentro de Ribeirão Preto, informou que o Brasil se juntaria aos países pioneiros na utilização de plasma convalescente para o tratamento de pacientes com COVID-19 e que daria início a testes de eficácia dessa terapia na cidade.

Quando pedi materiais para ler mais sobre essa alternativa, o prof. Calado me encaminhou uma nota técnica da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), liberada em 7 de abril, que "estimula o recrutamento de doadores de plasma convalescentes de COVID-19, para possível utilização dessa terapia em pacientes graves acometidos pela doença".

Com a chancela de um órgão tão notável logo notei que essa terapia é, de fato, promissora.

Em seguida, fiz um levantamento da literatura sobre "convalescent plasma" (termo técnico buscado no Google Scholar, em inglês). Como resultado, trago algumas informações interessantes sobre essa terapia e por que devemos ficar de olho em resultados futuros de estudos, como os conduzidos no Hemocentro de Ribeirão Preto.

1) Plasma convalescente não é uma estratégia nova

Apesar de parecerem algo novo e que atendam as nossas expectativas pelo surgimento de algo inédito para lutar contra a COVID-19, as terapias baseadas na administração de plasma doado não são recentes.

Há exemplos, inclusive, de "transplante de imunidade" durante a pandemia de gripe espanhola entre 1918 e 1925 em que pacientes recuperados doavam parte de seu sangue para que outros pacientes pudessem se recuperar. Mesmo naquela época, tais transfusões reduziram em 21% a mortalidade de pacientes acometidos pelo vírus influenza [1].

Mais recentemente, durante a contaminação de SARS-CoV e de Ebola, alguns estudos apontam que esse tipo de terapia gerou, sim, benefícios clínicos para os pacientes receptores do plasma convalescente, mesmo que as metodologias utilizadas nos estudos tenham certas limitações [2].

 

2) A administração de plasma convalescente é segura

Todos os estudos citados [1-3] apontam que nenhum paciente apresentou qualquer tipo de reação adversa à administração de plasma convalescente. Logo, não haveria nenhuma contra-indicação até o presente momento para sua administração, independentemente de comorbidades prévias e gravidade do quadro instalado.

 

3) Achados laboratoriais

Achados laboratoriais recentes demonstram que a COVID-19 causa, entre outras coisas, quadros de leucopenia (dos quais 70% dos poucos leucócitos existentes são neutrófilos) associados a altas concentrações de proteína C-reativa [4]. Assim, esses dois parâmetros laboratoriais podem ser utilizados como indicativos de melhora do quadro clínico e, também, para predição do avanço da doença.

Quando administrado nos primeiros 3 dias a partir do início da apresentação de sintomas, o plasma convalescente propiciou melhora dos níveis de leucócitos e adequação das concentrações de proteína C-reativa no sangue [3], aumentando a capacidade de combate ao vírus pelo organismo receptor do plasma.

4) Achados de imagem

Sabe-se que os pacientes acometidos pela COVID-19 apresentam opacidades em "vidro fosco" em imagens provenientes de tomografias computadorizadas [4], caracterizando a síndrome respiratória aguda severa (SARS).

Dessa forma, notou-se outro impacto benéfico da administração do plasma convalescente: a melhora do aspecto radiológico proveniente das lesões pulmonares causadas pelo vírus em um prazo de até 7 dias [3].

 

5) Catalisação da recuperação

Por último, mas não menos importante, está a diminuição do tempo de recuperação de pacientes que receberam transfusão de plasma convalescente.

Considerando o caos nos sistemas de saúde mundiais, sobretudo em países de dimensões continentais e com atrasos de desenvolvimento, como o Brasil, esse ponto revela-se importantíssimo para garantirmos o acesso a leitos de UTI e respiradores por todos os cidadãos contaminados pelo SARS-CoV-2.

Há dados que apontam que a transfusão de plasma convalescente efetuada antes de 14 dias da manifestação da doença aumentou consideravelmente a taxa de pacientes que receberam alta antes do 22º dia de internação em comparação com os que não receberam a transfusão (58,3% contra 15,6%) [2].

 

Considerações finais

O "transplante de imunidade" constitui uma alternativa promissora para o tratamento de pacientes de COVID-19 internados em nossos hospitais. Há dados suficientes que comprovam a sua eficácia e que corroboram a postura dos médicos, pesquisadores e instituições que tentam captar plasma de pacientes recuperados para tratar os que ainda lutam contra o coronavírus.

Apesar de não substituir iniciativas de imunização ativa, como as tão desejadas vacinas anti-SARS-CoV-2, as terapias baseadas em plasma convalescente dão fôlego para os que trabalham incessantemente no desenvolvimento de uma "cura" e ânimo para os médicos que tentam, a todo custo, poupar vidas nessa pandemia.

Ainda, uma última coisa (não científica) vale ser notada: a beleza que existe no ato humano de doar plasma com anticorpos para ajudar a salvar, literalmente, a vida de alguém.

Portanto, se você se contaminou com a COVID-19 e venceu a luta, procure saber se o hemocentro próximo de onde mora está com iniciativas de transfusão de plasma convalescente. Seu ato pode salvar vidas!

 


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Referências bibliográficas

[1] CHEN, L. et al. Convalescent plasma as a potential therapy for COVID-19. The Lancet Infectious Diseases, v. 20, n. 4, p. 398–400, 2020.

[2] CHENG, Y. et al. Use of convalescent plasma therapy in SARS patients in Hong Kong. European Journal of Clinical Microbiology and Infectious Diseases, v. 24, n. 1, p. 44–46, 2005. 

[3] DUAN, K. et al. Effectiveness of convalescent plasma therapy in severe COVID-19 patients. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, p. 1–7, 2020.

[4] ROTHAN, H. A.; BYRAREDDY, S. N. The epidemiology and pathogenesis of coronavirus disease (COVID-19) outbreak. Journal of Autoimmunity, n. February, p. 102433, 2020.

Academia Médica
Eduardo Pavarino
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Eduardo Pavarino é bacharel em Ciência da Computação pela UNESP e graduando em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). Além disso, é Co-fundador da Hackmed Conference & Health Hackathon e escritor do Alpha Squad da Academia.

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