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Por que comparar seu esforço com o dos colegas pode sabotar sua carreira científica

Comunidade Academia Médica
mai. 11 - 4 min de leitura
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Trabalhar duro é importante, mas se comparar com colegas pode ser um obstáculo perigoso.

Essa é a principal mensagem de um estudo publicado no Contemporary Educational Psychology e conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio (Ohio State University). A pesquisa revela como a forma como os estudantes universitários percebem seu próprio esforço pode impactar diretamente sua confiança e desempenho.

A investigação foi realizada com 690 estudantes de graduação matriculados em três turmas de química introdutória, disciplina frequentemente temida por alunos e tida como "disciplinadora" nas carreiras científicas. O objetivo era entender como dois tipos de percepção de esforço influenciavam o desempenho acadêmico e a autoimagem científica dos alunos:

  • Esforço por critério (criterion effort): quando o aluno percebe que está se esforçando porque o conteúdo exige dedicação.

  • Esforço comparativo (comparative effort): quando o estudante sente que está se esforçando mais do que seus colegas — e interpreta isso como sinal de menor capacidade intelectual.

A armadilha da comparação

Os resultados mostraram que o esforço comparativo pode ser prejudicial. Alunos que acreditavam estar se esforçando mais do que seus colegas tendiam a avaliar negativamente sua própria capacidade científica. Esse efeito foi observado tanto em homens quanto em mulheres.

“Comparar o esforço com o dos outros pode levar o estudante a pensar que precisa compensar uma suposta falta de habilidade, o que afeta sua autoconfiança”, explica a professora Shirley L. Yu, coautora do estudo e líder do SPARKS Lab (STEM Participation, Achievement, and Resilience through Knowledge and Skills).

Ou seja: quanto mais o aluno acha que precisa “correr atrás” em comparação com os outros, maior a chance de ele concluir que não é bom em ciência — o que, por sua vez, impacta seu desempenho e motivação.

Esforço por critério: aliado da confiança e do bom desempenho

Por outro lado, a percepção de que se está se esforçando por mérito próprio foi associada a melhores resultados, especialmente entre mulheres. Estudantes do sexo feminino que percebiam seu próprio esforço de forma positiva apresentavam maior autoimagem científica e melhor desempenho nas provas — desde que essa percepção não estivesse baseada em comparações com colegas.

A explicação, segundo os autores, pode estar relacionada aos estereótipos de gênero que ainda permeiam as ciências exatas:

“Muitas mulheres sentem que precisam se dedicar mais para romper barreiras invisíveis e provar que pertencem ao campo científico. Por isso, o esforço é visto como algo positivo e necessário”, afirma Hyewon Lee, autora principal do estudo, agora pesquisadora na Universidade da Califórnia, Irvine.

Curiosamente, para os homens, a percepção de esforço não se associou à autoimagem científica. Seu senso de competência estava mais ligado ao desempenho real obtido anteriormente — como notas nas provas ou nos exames de admissão, como o ACT e SAT.

Um ciclo de reforço positivo — ou negativo

O estudo também identificou um ciclo de feedback entre esforço percebido e desempenho. Alunos que tiveram bons resultados no primeiro exame tenderam a reforçar sua percepção de esforço positivo, mantendo a motivação. Já aqueles com foco no esforço comparativo apresentaram piores desempenhos ao longo do curso.

Essa dinâmica destaca a importância de experiências iniciais positivas em disciplinas STEM, especialmente para mulheres. Quando o esforço é reconhecido como motor da conquista — e não como sinal de deficiência —, os estudantes se tornam mais resilientes e confiantes.

Repercussões educacionais

Esse estudo é o primeiro a investigar a relação entre percepção de esforço, autoimagem científica e desempenho em turmas reais de graduação. Suas descobertas reforçam a necessidade de intervenções pedagógicas que valorizem o esforço individual sem promover comparações entre colegas.

Para os educadores, fica o alerta: introduzir práticas que reconheçam o progresso individual, criar ambientes colaborativos em vez de competitivos e oferecer suporte emocional podem ser estratégias decisivas para reduzir a evasão em cursos de ciências e estimular a permanência de estudantes, especialmente mulheres, nas carreiras STEM.


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