[ editar artigo]

Por que doença? Hipócrates e sua teoria equilibrada

Por que doença? Hipócrates e sua teoria equilibrada

O texto a seguir é a transcrição do primeiro episódio do podcast Literatura Viral.

ÖTZI, A MÚMIA DO NEOLÍTICO

Olá, minha querida e meu querido, meu nome é Áureo e esse é o Literatura Viral, o podcast em que eu vou discutir literatura e epidemias. Porque, né, só falamos do Corona 24 horas por dia, ainda não deu para encher o saco... E a sorte está lançada, senhoras e senhores.

Primeiríssimo episódio e nós vamos começar pela Itália, onde mais? Con i fratelli d'Italia. A Itália deu tanto o que falar no início da pandemia e agora voltou às mídias com um novo lockdown. Mas a Itália que interessa para gente não é a Itália de hoje, pelo menos o que me interessa para o meu podcast agora. A Itália que me interessa é a Itália de cinco mil anos atrás e nós vamos passear pelos alpes, uma parte específica dos alpes, que se chama Ötzal que é próxima da fronteira com a Áustria e por isso tem esse nome superitaliano. Essa parte dos alpes fica numa região que se chama Trentino-Alto Adige, onde tem a cidade de Trento por exemplo, né? Famosinha. E que era na verdade antigamente parte do império Austro-Húngaro então por isso esse nome germânico.

     A questão é que em 1991 dois turistas austríacos que passeavam por essa zona que já é dentro da Itália, mas não existe uma fronteira exatamente veem um corpo conservado congelado e chamam os bombeiros que levam o corpo até a Áustria, pensando que se tratasse de um de alpinista morto. E conforme as análises forenses são feitas sobre esse corpo, percebem que na verdade ele não era um alpinista morto há poucos anos, como se suspeitava, mas sim uma múmia pré-histórica. É uma múmia de 3100 a 3.400 antes da era comum, ou seja, uma pessoa que morreu há pouco mais de 5000 anos.

Essa múmia, trata-se de um homem, estava nesse estado de conservação incrível porque, no momento da morte, ele caiu no que era então uma região pantanosa e o seu corpo ficou preservado no que era um tipo de água lameada, que não tinha oxigênio. Por isso, a carne acabou não sendo corroída por bactérias e essa água anaeróbica conservou o corpo que depois ele acabou congelando. Então, a gente tem um corpo de 5000, mais de 5000 anos de idade, que está em estado perfeito de conservação, que  é possível até saber o que ele comeu na última refeição. E essa múmia foi batizada de Ötzi, por causa da montanha onde ele foi encontrado.

Imediatamente começou o quebra-pau entre a Itália e a Áustria quando se percebeu a importância dessa descoberta. Essa é a múmia mais bem conservada já encontrada na Europa. E brigaram durante um tempo, mas acabou que a Itália comprovou que ele foi retirado de território italiano e a múmia teve que ser devolvida. Ela está hoje na Itália, na cidade de Bolzano, e é possível visitar, pois existe um museu que se chama Ötzi, como o nome dele mesmo.

   Ninguém sabe da existência desse museu, mas ele é uma das atrações turísticas mais estranhas da Europa, mais peculiares assim... Eu fui para lá e recomendo fortemente. É uma visita interessantíssima. E a coisa legal do Ötzi é que ele não estava pelado. Ele estava cheio de coisas, ele morreu na verdade no momento em que ele estava lutando com alguém. Tanto que ele morre em uma posição estranha como se ele tivesse puxando uma flecha para colocar no arco. Então ele foi encontrado com todas as roupas dele, ele usava uma bolsinha de couro com uma tira cruzada no peito, ele tinha uma outra pequena bolsa, que ele carregava um pedaço de carvão aceso que ele usava para fazer fogueiras, ele tinha várias armas, ele tinha um sapatinho e ele usava calças, e tudo isso tá perfeitamente conservado e você vê isso no museu. Você vê, inclusive, o próprio Ötzi. Eu fui para lá pensando que eu encontraria uma réplica ou fotos, mas na verdade, o museu é construído ao redor de uma câmara frigorífera em que, lá no meio fica a múmia estendida. Mas o que interessa para gente hoje não é Ötzi em si. Ele é extremamente interessante, mas o que interessa para esse podcast são as coisas que ele levava na bolsa. Eu falei que ele tem uma bolsinha de couro e dentro dessa bolsa ele trazia vários cogumelos.

A SABEDORIA POPULAR E A FLUIDEZ ENTRE CURANDEIROS E MÉDICOS

A questão é que esses cogumelos são usados até hoje para matar vermes. Eles têm algum princípio ativo, alguma substância, não sei qual é infelizmente, que mata vermes. Existem estudos que comprovam, a gente consegue olhar o estômago dele, que ele não só tem vermes, como ele tem a espécie de vermes que seria morta pelo princípio ativo dos cogumelos que ele carrega e, portanto, seria muito ingênuo da nossa parte considerar que se trata de uma mera coincidência. O Ötzi estava carregando cogumelo há cinco mil anos como medicamentos. Ele provavelmente estava consumindo esses cogumelos com o objetivo de se livrar dos vermes. Isso demonstra para a gente que ele não só tinha consciência de que ele tinha vermes, como ele tinha consciência de como matar esses vermes. Meu Deus! Como ele conseguiu essa consciência? São os alienígenas, são ETs? É X-Files agora? Não. Não é bem por aí. Certamente vai ter quem vai dizer isso, mas não vai ser no meu episódio. A questão é que o Ötzi demonstra para gente uma das coisas sobre a evolução da história da medicina.

 Se a gente conseguisse falar com Ötzi há 5000 anos, ele provavelmente não saberia explicar porque aqueles cogumelos matam os vermes. Ele certamente teria uma explicação, talvez mágica, talvez ritualística, não sei, mas o fato de essa explicação que ele nos desse talvez estaria errada porque não tem como ele saber de princípios ativos e substâncias químicas, etc. O fato de a explicação, de a teoria estar errada, não implica necessariamente que a prática não funciona. Durante a história, na vida prática, as pessoas têm a oportunidade de experimentar várias ervas, várias plantas e criar pequenos remédios, emplastros se a gente quiser. E de pouquinho em pouquinho se cria uma sabedoria popular que muitas vezes pode justificar a eficácia desses remédios com teorias que são espúrias, mas isso não implica necessariamente que esses remédios não funcionassem. Existe um subcampo da arqueologia que se chama arqueologia experimental. E o que esses caras, o que os arqueólogos experimentais fazem é, entre várias coisas, é justamente tentar pegar receitas de remédios ou de cerveja até um estudo em que eles encontram a receita de cerveja do século IX e recriam. Uma das coisas que eles fazem é justamente pegar essas receitas e testar esses remédios, testar essa farmacopeia, a palavra bonita para dizer a coleção de remédios.

 Muitos deles funcionam. Como a sua amiga bruxinha Wicca vai saber te recomendar um chazinho para isso, um chazinho para aquilo. A explicação do funcionamento pode ser da energia, pode ser astrológica, mas isso não implica que, necessariamente, o remédio não funcione. A medicina tem uma história longuíssima e ela é tão longa quanto a história da humanidade. Ela não depende de um laboratório nem de um sistema de interpretação e formalização desse conhecimento. Ao longo da história, a medicina não se fazia como se faz hoje: primeiro a teoria e depois a prática. O que sempre aconteceu, ou pelo menos até o século XIX, dá para argumentar, aconteceu o contrário: a prática antes da teoria. E o Ötzi prova isso para gente. O fato de ele ter esses cogumelos demonstra isso pra gente.

 Por isso que eu resolvi começar o podcast discutindo o Ötzi. Eu acho a história dele realmente fascinante e eu recomendo que você procure mais informações sobre ele. A pesquisa de como ele morre é interessantíssima. A gente sabe, por exemplo, que ele é um homem de uns quarenta, cinquenta anos. Ele provavelmente era o chefe da tribo, porque ele era algum tipo de aristocrata.

As roupas e as armas dele são muito refinadas para época, então ele, digamos assim, ele era riquinho. Ele tem uma outra condição médica também, porque ele tem reumatismo e ele é tatuadão, ele tem mais de 100 tatuagens espalhadas pelo corpo e essas tatuagens coincidem com os pontos de artrose, então ele tinha dores nas juntas e tal, e várias dessas tatuagens são colocadas acima dessas lesões ósseas. Então isso é outra indicação de conhecimento mágico, ritualístico, médico, porque as coisas não são muito separáveis, até muito recentemente. Mas o meu propósito em apresentar o Ötzi para vocês aqui hoje, na verdade, tem a ver com apresentar esse conceito do que é a medicina ao longo da história. A medicina como a gente entende hoje como um conjunto de valores teórico-científicos, ligados a uma prática experimental e cética, em que o laboratório é a figura, a imagem central ao redor do qual esse saber é organizado, essa é uma perspectiva recente. Essa perspectiva data de 1860 em diante. E perpassa um processo que o Foucault vai chamar de medicalização, a gente vai falar muito desse assunto em muitos episódios, então não vou nem gastar minha lábia aqui agora.

    Mas é importante a gente entender que ao longo da história não existe uma distinção tão clara entre o que é o saber médico-científico e o que é o saber curativo-médico-popular. Basicamente o curandeiro, o xamã, a benzedeira e o médico, ao longo da história, são figuras que se sobrepõem, todos eles são tudo isso ao mesmo tempo.

HIPÓCRATES E A TEORIA DOS HUMORES

 E é por isso que agora a gente pode falar de Hipócrates, o dito pai da medicina. Eu gostaria de saber quem é a mãe porque aparentemente a medicina é filha de chocadeira né, só tem pai. E esse pai não é o Ötzi, aparentemente, é o Hipócrates. Hipócrates que é um autor grego e viveu antes da era comum, então em torno do século V antes da era comum. Mais ou menos ele era contemporâneo às figuras como Sócrates ou Aristóteles. Aristóteles nasceu em 384 antes da era comum, o Sócrates bebe cicuta em 399 antes da era comum. Então ali dá para imaginar o Hipócrates passando pela Ágora lá e dando tchau para a moçada.

 A questão do Hipócrates é que ele escreve vários tratados médicos sobre o tratamento de várias doenças, né, e ele desenvolve uma teoria geral que explica o porquê que a doença acontece em primeiro lugar. Ao desenvolver essa teoria, ele só usa fatores naturais, como alimentação, como sono, como quantidade de exercício e ele não justifica as doenças de modo, utilizando subterfúgios espirituais ou dizendo que a vontade dos deuses, etc. Ele tem um tratado sobre a epilepsia, por exemplo, que os gregos consideravam uma doença sagrada. Uma a pessoa epilética quando ela não tivesse um ataque epilético ela estaria tendo... seria uma experiência de possessão de alguma forma. E o Hipócrates crítica muito isso, etc. Então, por isso que ele muitas vezes é chamado por fazer essa separação, essa tentativa de explicar usando elementos naturais, é o motivo pelo qual ele é várias vezes chamado de o pai da medicina. E a teoria que ele desenvolveu é uma teoria que vai ter um legado gigantesco. Um legado que dura até 1800 e pedradas, então ele desenvolve essa teoria em 400 antes da era comum e essa teoria vai durar pelo menos outros dois mil anos , tá!? Ela dura 2.200 anos tranquilamente. Passando por um médico romano, o maior dos médicos romanos, Galêno, que vai também contribuir com essa teoria dos humores. E o que é a teoria humoral ou teoria dos quatro humores ou teoria hipocrática? Porque o Hipócrates não é hipócrita ele é hipocrático é... trocadilho infame. Ela postula a existência de quatro elementos essenciais dentro do corpo humano e esses quatro elementos não são terra, ar, fogo, água, coração, mas são quatro líquidos mais ou menos, quatro humores e esses humores são: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. Esses humores seriam produzidos em diferentes órgãos do corpo e é um sistema razoavelmente complexo, eles são afetados pela forma como você come, o quanto você dorme, quão estressado você é, etc.

Então o Hipócrates vai ver a saúde como inserida em um contexto holístico. Um contexto em que os teus hábitos e a tua saúde estão intrinsecamente ligados também a tua vida social, etc. E basicamente a ideia é de que, enquanto esses humores estão em equilíbrio, você é uma pessoa saudável. A partir do momento em que existe um desequilíbrio nesses humores é, talvez, porque você se alimentou de algum alimento que você consumiu em demasia ou você dormiu muito pouco ou está estressado demais, etc. Se estes humores acabam saindo, é desequilíbrio e algum deles prevalece sobre os outros aí sim, você vai ter alguma doença. Então, a coisa interessante sobre a teoria da saúde do Hipócrates é que não existem doenças. Existe uma única doença. E essa doença, na verdade, pode ter muitos sintomas a forma como ela se manifesta é plural, mas tem uma única origem e a origem é sempre um desequilíbrio dos humores. Não tem germes, não tem bactérias, não tem vírus... Ó que beleza. É só o desequilíbrio dos humores. Se for sangue demais, então você é sanguíneo. Se for fleuma demais, então você é fleumático. Se for bílis amarela demais, então você é colérico. Se for bílis negra demais, então você é melancólico. É por isso que anos atrás, quando eu era um jovem estudante de letras, um jovem Padawan na UFPR, eu fui ler Memórias do Subsolo, do Dostoiévski, e o primeiro parágrafo começa com alguma coisa do gênero: "eu sou um homem doente. Eu sou um homem mau. Acho que tenho problema do fígado."  Quando eu li isso pela primeira vez eu dei risada, porque eu achei que ele estava sendo irônico. Ele está admitindo que é uma pessoa malévola e  está botando a culpa dele no fígado, que claramente não pode ter relação alguma. Mas, na verdade ele não está sendo nem um pouco irônico.  Dostoiévski está se referindo a uma teoria médica, a teoria dos humores, em que efetivamente, se o fígado dele, que é o lugar de onde vem a melancolia, ou seja, de onde vem a bílis negra, se o fígado dele tem um problema, isso vai criar um desequilíbrio nos humores que, sim, vai fazer com que ele se veha como uma pessoa malévola, como ele se coloca no início do romance. 

Então o Dostoiévski não está sendo nem um pouco irônico, na verdade. Ele está simplesmente fazendo um diagnóstico médico, ou o personagem está fazendo seu próprio diagnóstico. E o leitor do Dostoiévski naquele momento, é um livro de 1800 e pedrada, entende isso automaticamente enquanto a gente precisa fazer uma arqueologia do saber para cavar esse conhecimento lá no século XIX, para entender o que que realmente está por trás dessa frase.

Se esse livro fosse publicado hoje, ele certamente seria irônico, mas em 1800 e pouco, isso não era ainda o caso. Então essas são duas ideias muito importantes com que a gente fecha o nosso primeiríssimo episódio do Literatura Viral, em que eu praticamente não falei de literatura, né? Acontece. Falei do Dostoiévski e como o Nietzsche dizia, se a história tivesse sido escrita por ela seria muito mais interessante. Então o Dostoiévki me salva. As duas ideias importantes da teoria dos humores são que: primeiro, existe uma única doença até mil oitocentos e pouco e essa doença é o resultado de um desequilíbrio dos humores; a segunda coisa importante é que a forma como esse desequilíbrio se dá segundo o humor que prevalece, isso gera mudanças no comportamento do paciente, então uma pessoa colérica é uma pessoa iracunda, brabona, enquanto que uma pessoa melancólica é uma pessoa depressiva, mas com tendências artísticas também.

Então existe uma conexão entre a doença, que o paciente é imagina que tenha, e o comportamento que ele tem no mundo, então se você tem um certo tipo de humor prevalente, isso te faz mais artístico ou menos artístico. Veja que interessante. Hoje a gente argumentaria que uma pessoa tem um dom para alguma coisa ou ela tem uma vocação para outra. Mas, até recentemente a gente poderia argumentar que é uma questão de humores. Se bem que hoje, a gente falaria em hormônios... Mas, é isso. É o que eu tenho para dizer por hoje: Ötzi e Hipócrates. No próximo episódio a gente já começa a falar do conceito de epidemia, o que estatisticamente quer dizer epidemia e daí nós finalmente podemos falar de medo. A gente vai chegar na literatura rapidinho. Prometo. Abraço, é nóis!

 

Academia Médica
Áureo Lustosa Guérios
Áureo Lustosa Guérios Seguir

Sou doutorando na Universidade de Pádua e ministro os cursos sobre Humanidades Médicas aqui na Academia Médica. Também produzo o podcast Literatura Viral, em que discuto de modo descontraído como as epidemias aparecem na história e na arte.

Ler conteúdo completo
Indicados para você