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Por que eu não sou muito fã de fazer plantão de PS?

Por que eu não sou muito fã de fazer plantão de PS?

Faz pelo menos uns 3 artigos que eu escrevo indiretamente que eu não gosto de trabalhar em pronto socorro fazendo até a realidade me dar uma certa razão vendo a quantidade de piadas de páginas médicas de que maioria das referências vêm de pronto socorro.

Isso sem contar que boa parte dos recém-formados já quer ingressar na residência médica de cara para não terem que fazer plantão em PS ou depender disso, já vi até propaganda de cursinho e gestão financeira, de consultório com essa filosofia “até quando você vai depender de PS para ganhar dinheiro?”.

Mas o que não vi na faculdade e nem em artigo de lugar nenhum é: Por que trabalhar em PS desagrada tanto?

É fácil dizer: “porque é ruim”; mas como na medicina hoje nem sintomas de resfriado são simples, vamos discutir esse tema e bem-vindos ao lugar onde o filho chora e a mãe não vê.

Pronto socorro em qualquer sistema de saúde é uma das principais unidades de entrada, sendo público, convênio ou particular.

E o nome já diz:

Pronto= Na hora/ Socorro= Caso de necessidade.

Existem de vários tipos, tem o de oftalmologia, otorrinolaringologia, sala de emergência e um dia quero ver de homeopatia, porém o mais abundante e o de “triagem” são da clínica, pediatria, GO e ortopedia.

Sendo o de clínica definitivamente o mais abrangente pegando todos, pegando queixas de todas as “especialidades”.

O pronto socorro é on demand, traduzindo: chegou entra na fila e é atendido, nada de hora marcada e muitas vezes sem triagem para ver a gravidade.

E essa frase acima diz muito sobre o tipo de local que é um pronto socorro. Em teoria pronto socorro somente é procurado se realmente for necessário e existe até um “tempo” de atendimento dependendo dos sintomas e protocolos.

O médico tem horário pré-definido para acabar e a rotina de escala é mais flexível, tem escala de 4,6,12,24, 36h.

E não é incomum médico ter a burrice de fazer de 36 a 48h de plantão. Sério, não faça isso é perigoso ao médico e ao paciente

Parece até relativamente tranquilo e fácil falando desse jeito, marca um horário na escala vai lá faz as horinhas, vê o paciente e o colega chegando passa caso e sai.

E paga até que bem, no meu tempo de recém-formado pagava de 90-100 reais a hora líquido o que em 3 dias 12h da a média de renda do brasileiro segundo o IBGE.  

Isso que a pandemia aumentou o valor chegando as vezes a 120h líquido ou um pequeno aumento para compensar os descontos de impostos em pessoa jurídica.

Isso é ideal para quem não quer se comprometer em fazer CLT de 20/40h semanais ou faz essas horas em residência e precisa ganhar um extra (novidade: residência paga mal o suficiente para o médico não se manter atualizado e manter custos e materiais inerentes à especialização).

Mas como já diria o popular “se fosse emprego fácil não sobrava vaga” e o que mais existe é vaga de trabalho em PS de clínica.

E o que há de dificuldade é de fazer muita gente chorar, figuradamente e literalmente.

Vou enumerar para ficar fácil quais são as maiores dificuldades do PS:

Primeiro: PS é on demand e porta de entrada, ou seja, não precisa de guia de encaminhamento ou marcar horário. É chegar lá, abrir ficha e ser atendido.

Acrescente isso com a péssima educação em saúde dos brasileiros em acidentes, manejo do estilo de vida deficiente, drogadição em opióides e benzodiazepínicos(sim, não só nos EUA), ambulatórios cheios e PSF sem vaga de atendimento e doenças crônicas mal geridas e você verá que o número de atendimentos aumenta exponencialmente.

Percebe-se que é um lugar lotado e estressante com casos graves que se misturam com casos simples que mesmo com triagem é difícil discernir.

Já peguei ficha dita verde, queixa de tosse, com uma discreta hipertensão sem sinais clínicos à propedêutica que no dia seguinte o diretor clínico me ligou dizendo que o paciente retornou com piora dos sintomas e era um Edema Agudo de Pulmão (obs.: por favor analisar contexto e que diagnóstico não é ciência exata).

Segundo: Geralmente PS é um ambiente extremamente hostil para o médico e o paciente, imagine um local onde casos graves se misturam com resfriado, troca de receita e pedido de atestado médico para não trabalhar.

Não vou discutir a verdadeira incapacitação, mas já aviso que "atestadite" é um sintoma da segunda maior epidemia do Brasil, o ambiente de trabalho ruim.

Com a velha piada “quer saber a melhor triagem de Pronto socorro? Dia de jogo de futebol importante e dias muito frios”, os pronto-socorro quase que são vazios, tem vários vídeos de médicos na internet mostrando isso. Se é fake News é outra história, mas eu já presenciei isso.

E logico que isso num ambiente estressante frustra e irrita qualquer um que trabalhe lá e cresceu com a filosofia "medicina por amor".

Terceiro: Motivo político. Onde tem muita gente tem muito voto, ou que paga (ou indiretamente uma empresa paga) para ser atendido e isso bate com interesses além do bem-estar social.

Não é incomum ver político, candidato em ano de eleição, amigo de não sei quem ou líder comunitário ir em pronto socorro tentar intimidar médico, prefeito instalar câmera para ver o fluxo e no caso do convênio, gestores e auditores verem a contabilidade de atendimento e internação.

Tem discurso até de prefeito dizendo isso em eventos que se orgulha de ir em PS e mandar “médico trabalhar”.

E juro que já vi político tirar cama de repouso de médico para dizer “lugar de médico não é no repouso, é no trabalho”

Isso quando médico não é agredido e ameaçado por paciente e acompanhante para realizar atos antiéticos e ilegais.

Quarto: Estrutura, existe muito PS que além de cheio não tem com o que trabalhar, salas mal ventiladas, medicamentos e até administrações de medicações são feitos no improviso e não há equipamento para manutenção de vida. Vide respiradores e COVID.

Quinto: É a junção de tudo isso e esse é o motivo de eu não colocar o número de pessoas que vão simulando pedindo atestado, a rotatividade.

Veja nas unidades Pronto socorro o tempo de trabalho do médico mais velho que não é o diretor clínico na unidade, é muito baixo se comparado com outros locais de trabalho.

Diferente de quem tem CLT ou chance de progressão e remuneração maior, o médico de PS não pega atestado e ganha uma sobrevida ao trabalho.

Não tem opção viável ou cai fora ou pede aumento ou um médico a mais ou é compelido a sair da escala e com a grande oferta de vagas de PS/UBS/Pós e residências por aí a tendência é que o médico não fique por muito tempo e nem se interesse a ficar.

Se o horário é instável, a estrutura de trabalho e a escala idem.

Já vi equipes inteiras de médicos serem substituídas somente porque a diretoria mudou.

O que leva mais um motivo da queda de qualidade, quando entra um colaborador novo, este tem que passar por treinamento e até ele pegar o jeito e a cultura do local demora um tempo.

Estranho como muitas certificações ignoram isso mas não ignoram papelada preenchida.

Sexto, e esse é bem sutil: Um dos motivos do PS às vezes ser horrível de trabalhar é o próprio médico.

Antes que me xinguem nos comentários, as justificativas da hostilidade entre colegas no PS são as mesmas de quem simula para pegar atestado médico de incapacidade laboral temporária.

E isso não é algo pontual existem inúmeras variáveis, eu já ouvi piadas por médicos que não se ajudam.

É ortopedista que às vezes tem baixo fluxo que não atende dor lombar e até fratura de coluna.

É GO que não quer atender queixa clínica de gestante (boa parte dos clínicos e ortopedistas não sabem quais medicações podem dar e não dar a uma gestante por ex: dor lombar e hiperemese) que não seja trabalho de parto ou dor abdominal.

E o famoso “esquema de plantão”(esse nem discuto, deixo na mente de cada um).

Por esses motivos maioria dos médicos não encaram um PS, principalmente o de clínica como uma carreira.

Nenhum médico que eu conheço quer acabar num PS para se aposentar. No máximo um concursado com escala baixa e “alto” ganho, com estabilidade e aposentadoria integral ou com alguma perspectiva de crescimento (o que ambos hoje é raro)

E num ambiente de trabalho ruim, assim como o gelo é gelado, temos colaboradores desmotivados, hiper-reativos e principalmente com o potencial pouco explorado.

“Ah mas tem o diretor clínico” que em teoria ganha sem plantão com o público e mesmo assim não são as mil maravilhas.

Se médico falta em escala, ele se responsabiliza, se tem alguma briga no PS na madrugada de sábado, ele que tem que ir resolver, se há um atrito com a administração ele está na linha de tiro entre a equipe de saúde e dos administradores.

Isso sem contar que ele tem que ouvir todas as queixas de médicos as quais listei acima.

No final trabalhar em PS é mais encarado como um "bico" que um "trabalho" e nessa todo mundo, médicos, pacientes e gestores saem perdendo.

Conheço 3 tipos de pessoa que nunca fizeram pronto socorro:

- A pessoa tem muito dinheiro para não fazer (o que é normal e me dá um pouco de inveja)

- Tem tanto medo de comer bola em emergência que só fez ambulatório (o que é justificável)

- E quem não tem paciência, saúde física e mental para aguentar os motivos acima.

Em teoria pronto socorro é feito pela administração em saúde para ser rápido e resoluto em casos de urgência/emergência.

Tratar quem tem e pode ser tratado ou internar quem precisa ser internado.

E isso envolve custos, encarar o médico como uma ferramenta de trabalho mais que um ser humano.

E como gestores sabem os motivos acima porque ninguém nasceu ontem nos índices de produtividade, o motivo extra para o famoso “pegar o cônjuge traindo no sofá e para resolver joga o sofá fora” para resolver muitas vezes serviços de PS recorrem às certificações hospitalares.

Estes que para atender critério às vezes para inglês ver às vezes aumentam a burocracia de forma desnecessária, aumentam o stress por preencher papéis com duplicidade de informação, sistema de prontuário eletrônico lentos e complicados de mexer e ainda eu questiono a autopromoção desses hospitais com ostentação de certificados.

Nunca vi certificação que mede qualidade de vida no ambiente de trabalho hospitalar. Se alguém conhecer um me avisa que eu me candidato

E uma crítica às cartilhas de marketing: se o médico que não pode se autopromover ou ganhar prêmio de melhor médico porque tem hospital, plano de saúde, laboratórios e afins podem ter prêmios top of mind, ostentar certificado de avaliação, que atende bem o paciente, ou fazer um branding de atender pacientes com alta hotelaria com autopromoção?

Ir trabalhar em pronto socorro é bom? Na minha opinião é inadequado para mim e lugares com cultura de trabalho questionáveis é inadequado para maioria dos seres humanos.

Eu trabalharia em um PS de novo? É mais um "bico",  se eu precisasse muito de um extra, um parente doente que precisa de cuidados financeiros, ou se eu precisar muito de dinheiro.

Mas não recomendo viver de PS a vida toda, procure um ambulatório com autonomia, faça cursos de atualização, faça networking (que as vezes um PS pode trazer) que uma hora um emprego que você goste é encontrado (perceba que eu não disse residência), a residência médica pode ser alternativa (algumas tem plantão de PS na carga horária) e sem picaretagem, por favor.

Médicos têm que manter o mínimo de classe e a ética.

Bem, mas esses e outros assuntos são mais complexos vamos deixar para os próximos artigos.

Academia Médica
Henri Hajime Sato
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Médico, curioso local, formado em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos, falhei em ser patologista e hoje procuro a significância na vida, na medicina e no trabalho

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