A displasia broncopulmonar continua sendo uma das principais complicações respiratórias em recém-nascidos muito prematuros, associada a maior mortalidade, internações prolongadas e comorbidades de longo prazo em diversos sistemas. Dados recentes da rede neonatal chinesa mostram que quase um terço dos prematuros muito imaturos desenvolve displasia broncopulmonar, e essa proporção pode chegar a quase 80% entre aqueles que nascem antes de 28 semanas de idade gestacional. Diante da ausência de terapias capazes de reverter o dano pulmonar estabelecido, a prioridade tem sido investir em prevenção e em estratégias que protejam o pulmão ainda em desenvolvimento.
Um estudo de coorte multicêntrico, publicado em JAMA Network Open, traz novas evidências de que os corticosteroides administrados à gestante antes do parto prematuro podem reduzir o risco de displasia broncopulmonar em recém-nascidos muito prematuros. Mais do que isso: os autores quantificam, pela primeira vez, como parte desse efeito protetor passa por um “caminho em cadeia” que envolve menos síndrome do desconforto respiratório neonatal, menor necessidade de ventilação mecânica invasiva e, por fim, menor chance de displasia broncopulmonar.
O que o estudo investigou
Os pesquisadores analisaram recém-nascidos muito prematuros internados em 28 unidades de terapia intensiva neonatal de nível III, acompanhando a relação entre o uso de corticosteroides antes do parto e a ocorrência de displasia broncopulmonar. O foco esteve em um ponto crucial da prática clínica: não apenas se os corticosteroides reduzem complicações respiratórias imediatas, mas se eles também são capazes de diminuir o risco dessa doença pulmonar crônica típica da prematuridade.
Na prática, corticosteroides administrados à gestante em risco iminente de parto prematuro entre 24 semanas e 33 semanas e 6 dias de gestação já fazem parte das recomendações de diretrizes internacionais, por estarem associados à redução de mortalidade neonatal, de síndrome do desconforto respiratório neonatal e a desfechos neurológicos, cardiovasculares e gastrointestinais mais favoráveis. O estudo agora procura responder: até que ponto essa estratégia também protege contra a displasia broncopulmonar e como isso acontece.
Displasia broncopulmonar: inflamação, imaturidade e agressão pós-natal
A displasia broncopulmonar é resultado de múltiplos fatores atuando sobre um pulmão imaturo. Em prematuros com menos de 29 semanas, ela se caracteriza principalmente por parênquima pouco desenvolvido, alterações na vascularização pulmonar e diferentes padrões histopatológicos, como áreas de fibrose, atelectasia e cistos.
A inflamação desempenha papel central nesse processo. A exposição intrauterina a inflamação por exemplo, em contextos de infecção ou endotoxemia desorganiza a alveolarização e a angiogênese, atrai neutrófilos e macrófagos para o pulmão em desenvolvimento e se associa diretamente ao início da displasia broncopulmonar. Após o nascimento, intervenções necessárias, como ventilação mecânica invasiva e suplementação de oxigênio, podem agravar o quadro ao expor vias aéreas imaturas à hiperóxia e ao barotrauma, desencadeando estresse oxidativo, liberação de citocinas inflamatórias e parada no desenvolvimento pulmonar.
Nesse cenário, a síndrome do desconforto respiratório neonatal e a ventilação mecânica invasiva são reconhecidas como importantes fatores de risco para displasia broncopulmonar, justamente por traduzirem a combinação de imaturidade pulmonar e maior necessidade de suporte ventilatório agressivo.
Como os corticosteroides antes do parto atuam
O estudo parte da hipótese de que os corticosteroides administrados antes do parto prematuro podem proteger o pulmão do recém-nascido por dois grandes mecanismos: promoção da maturação pulmonar e ação anti-inflamatória.
Do ponto de vista da maturação, os corticosteroides:
-
reduzem a proliferação excessiva de células pulmonares,
-
encurtam a distância de difusão dos gases,
-
estimulam a síntese de surfactante,
-
facilitam a reabsorção de líquido nas vias aéreas no momento do nascimento.
Esses efeitos se traduzem em menor risco de síndrome do desconforto respiratório neonatal e, consequentemente, menor necessidade de ventilação mecânica invasiva. Estudos experimentais citados pelos autores mostram ainda que a combinação entre surfactante e betametasona aumenta a capacidade residual funcional em modelos de prematuridade, sugerindo um efeito sinérgico: além de reduzir a incidência de síndrome do desconforto respiratório neonatal, os corticosteroides potencializam a resposta ao surfactante exógeno.
Do ponto de vista anti-inflamatório, os corticosteroides parecem exercer um efeito mais duradouro. Em modelo experimental de displasia broncopulmonar induzida por endotoxina intrauterina, a exposição a corticosteroides antes do parto levou a uma melhora de aproximadamente 15% na resistência total do pulmão e a um aumento de cerca de 9% na complacência, preservando a alveolarização e o crescimento vascular. Ao atenuar a inflamação, os corticosteroides ajudam a manter o curso normal do desenvolvimento pulmonar, o que pode explicar a parcela direta e substancial do efeito protetor observada no estudo clínico.
O achado mais inovador do trabalho é a análise de mediação, que quantifica como diferentes etapas se interligam entre a exposição aos corticosteroides e a ocorrência de displasia broncopulmonar. Segundo os autores, cerca de 38% do efeito protetor dos corticosteroides parece ser indireto, distribuído em três componentes:
-
mediação independente pela síndrome do desconforto respiratório neonatal, responsável por aproximadamente 14% do efeito;
-
mediação independente pela ventilação mecânica invasiva, em torno de 18%;
-
uma mediação “em série”, em que os corticosteroides reduzem a síndrome do desconforto respiratório neonatal, o que diminui a necessidade de ventilação mecânica invasiva e, assim, reduz o risco de displasia broncopulmonar, correspondendo a cerca de 6% do efeito total.
Os 62% restantes do efeito foram atribuídos a vias diretas, possivelmente relacionadas à modulação da inflamação intrauterina e à promoção direta da maturação alveolar e vascular, independentemente da síndrome do desconforto respiratório neonatal e da ventilação mecânica invasiva.
O estudo também reforça a importância de completar o esquema de corticosteroides antes do parto. Recém-nascidos de mães que não receberam corticosteroides tiveram aproximadamente três vezes mais chance de desenvolver displasia broncopulmonar em comparação aos expostos a esquemas completos. Já os esquemas incompletos não mostraram redução significativa de risco.
Os autores destacam que diretrizes europeias recentes para manejo da síndrome do desconforto respiratório neonatal recomendam investir em estratégias que prolonguem a gestação o suficiente para completar o esquema de corticosteroides em gestações com alto risco de parto prematuro extremo, justamente para maximizar o benefício pulmonar.
Uma análise de subgrupos sugeriu uma possível eficácia maior entre recém-nascidos únicos, nascidos por parto vaginal, entre 28 semanas e 28 semanas e 6 dias de gestação. No entanto, a proteção atenuada em outros grupos não significa ausência de benefício. Os autores levantam explicações como o “paradoxo da sobrevivência” ao melhorar a viabilidade de prematuros muito imaturos, aumenta-se o número absoluto de bebês suscetíveis à displasia broncopulmonar e a influência de fatores pós-natais não completamente captados, como lesão induzida pela ventilação, sepse ou uso prolongado de oxigênio.
Referência:
Gao L, Zheng Z, Lin X, Shen W, Chinese Multicenter EUGR Collaborative Group. Antenatal Corticosteroids and Bronchopulmonary Dysplasia in Very Preterm Infants. JAMA Netw Open. 2025;8(11):e2545606. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.45606

