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Você ainda não percebeu que não é especial?

Fernando Carbonieri
dez. 3 - 6 min de leitura
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Ser especial! É difícil falar sobre essa impressão em um mundo tão sensível a críticas e cheio de não me toques. Um texto como esse provavelmente deve provocar reações instantâneas do tipo: "Pessoas estão se suicidando nas faculdades de Medicina (não só nas de Medicina) e você vem com um um texto falando que elas não são especiais?"

Ou ainda: "Quem ele pensa que é para falar sobre isso? Que autoridade tem?" 

De fato não sou um especialista em saúde mental, mas sou um observador dos diversos lugares em que estive, das conversas que tive com colegas de cada especialidade médica e, principalmente, dos bate papos que tenho com os acadêmicos de medicina de todos os lugares que estive nos últimos 10 anos, desde que comecei a ser chamado para falar em congressos sobre comunicação, tecnologia e educação médica. Ao todo foram 130 palestras, simpósios e workshops. Sem contar a minha atividade na Comissão de Integração do Médico Jovem do Conselho Federal de Medicina, onde fiquei dos anos de 2014 a 2021.

Tenho alguns pontos para colocar aqui. Não tenho muitos culpados para eleger, entretanto.

De fato assistimos muitas pessoas infelizes. Docentes, discentes e médicos desconectados de objetivos, propósitos, curiosidade ou outras qualidades que motivam a evolução da arte médica. São muitos mesmo! Chega a ser assustador observar nas redes sociais, ou fora delas, o desespero das pessoas que compõem o tripé ensino - pesquisa - profissão.

Parte desse desespero é causado por práticas muito pouco agregantes. Nocivas a qualquer sistema produtivo. Estamos vivendo uma guerra velada entre os experientes, os iniciantes e os docentes. Quero descrever 3 situações para exemplificar o que estou falando:

1) Alunos vs Alunos 

Não é nenhuma novidade que a faculdade de medicina é competitiva, mas pude observar a inercia destrutiva da competição hostil em algumas das cidades que visitei recentemente. Basta uma nova prática ser incorporada e teremos uma legião de calouros repetindo alguma coisa que um veterano irresponsável tenha afirmado como verdade. 

Sendo mais específico, a moda imbecil atual (nem sei se é tão atual assim) é fazer um ranqueamento das notas desde o primeiro período como balizador das panelas de estudo, trabalhos e projetos. Como se tirar um 9.5 ou um 8.7 em provas repetidas dos anos anteriores fosse suficiente para definir a capacidade médica de uma pessoa.

"Diga-me com quem andas que te direi quem és" não é uma verdade na Medicina ou nas profissões da Saúde. A atividade médica se dá na vida real. Para as ciências médicas, prefiro citar duas frases que pautam a o caminho do profissional:

"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana." - Carl Jung 

"O médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe." - Abel Salazar

Ou seja, pare de aprender de orelhada de outros colegas ditos mais experientes que você. Mantenha o seu ideal do porque você escolheu uma profissão que, em sua essência, existe para ajudar os outros. Ninguém é especial; as pessoas se tornam especiais fazendo o que ainda não foi feito e não repetindo as ações de falsos gurus.

2) Professor/instituição vs aluno

A soberba de professores ou instituições que afirmam que o único caminho possível é o ensinado por eles é um fator um pouco complicado. Acredito que uma boa instituição é capaz de dar o subsídio científico para o futuro profissional progredir, mas infelizmente alguns ceifam futuros brilhantes por impedirem a criação de seus ensinados.

A saúde deve ser uma atividade empreendedora, na qual cada profissional deve proporcionar melhores e mais eficientes resultados que também proporcionem uma melhor qualidade de vida aos seus pacientes. Instruir de forma paternal os alunos proporciona uma legião de futuros médicos chave de fenda, que são incapazes de atuar frente ao desconhecido pois não possuem a curiosidade para resolver os mistérios da vida.

3) Professores vs Professores

Dizem que a geração Y é vista como a que acredita que sabe muito mais do que realmente domina. De fato somos assim em muitos momentos, e isso retoma a briga aluno vs aluno, mas assusta o quanto essa sensação de superlativismo povoa a atividade dos professores doutores do país. Infelizmente esses não abrem a possibilidade para trabalharem juntos, intersetorialmente, produzindo valor para a instituição sob a qual estão filiados. Promovem uma guerra do "eu publico mais que você", logo você não irá trabalhar comigo. 

Quando reconhecem que alguém tem maior capacidade produtiva, começam a minar o caminho daquela pessoa ao invés de dar apoio para o crescimento mútuo e da instituição.

Pode parecer um texto daqueles revoltados com o status quo da atualidade, mas não o é. Enquanto tem muita gente brigando para ser especial, copiando as práticas que consagraram seus mentores, tem gente muito boa, que realmente sabe que ainda não encontrou essa singularidade em meio de 8 bilhões de almas, mas buscam diariamente produzir 1% a mais. 

Finalizo com o que disse a pouco. Ninguém é especial. As pessoas se tornam especiais. Na Medicina, repetir as mesmas ações levam a execução de um procedimento ou prática, mas fazer algo diferente todos os dias, proporciona um caminho em que a busca pelo especial já não faz mais sentido.  

Comente logo abaixo, o que você acha que torna as pessoas especiais?

 


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