Nos últimos anos, grande parte da pesquisa em saúde concentrou-se na identificação de fatores de risco, sejam eles genéticos, comportamentais, sociais ou ambientais capazes de prever a chance de um indivíduo desenvolver determinada doença. Contudo, um aspecto igualmente relevante começa a ganhar protagonismo: compreender por que algumas pessoas, mesmo expostas a riscos conhecidos, não adoecem. Esse fenômeno é chamado de resiliência.
Uma publicação na Nature Medicine debate este tema, defendendo que o estudo da resiliência deve ocupar posição central na agenda da saúde global.
O que é resiliência em saúde?
Segundo Udeh-Momoh e colegas, resiliência é a capacidade dinâmica de se adaptar e prosperar diante da adversidade. Ela pode ser analisada em quatro grandes dimensões:
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Biológica – genética, epigenética, níveis proteicos e outros marcadores moleculares.
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Psicológica – saúde mental, otimismo, baixa ansiedade, enfrentamento saudável de estressores.
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Social – suporte comunitário, redes de apoio, vínculos afetivos.
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Ambiental – poluição, temperatura, acesso à água potável, exposição a traumas coletivos.
Esses fatores não atuam isoladamente, mas em conjunto, influenciando a forma como cada pessoa responde ao risco de adoecer.
Os autores destacam o papel dos estudos multi-ômicos (genômica, epigenômica, proteômica, metabolômica etc.) combinados a dados populacionais em larga escala para descobrir marcadores de resiliência.
Um exemplo é o Global Neurodegeneration Proteomics Consortium (GNPC), que reúne 40 mil amostras de pacientes e mais de 300 milhões de medições únicas de proteínas. Esse tipo de base tem potencial para “supercarregar” a identificação de fatores que explicam por que alguns indivíduos resistem ao desenvolvimento de doenças, mesmo em condições de risco elevado.
Caso paradigmático: Alzheimer e o gene APOE ε4
O APOE ε4 é o maior fator de risco genético conhecido para Alzheimer de início tardio. No entanto, nem todos os portadores desenvolvem a doença. Dados recentes do GNPC mostram que esse alelo confere vulnerabilidade sistêmica, mas não é suficiente por si só para causar neurodegeneração. Isso reforça a importância de investigar outros mecanismos biológicos e ambientais que possam neutralizar seus efeitos negativos.
Resiliência além da biologia
A saúde mental e os fatores psicossociais desempenham papel central. Pessoas com rede de apoio social forte, baixos níveis de ansiedade e otimismo tendem a apresentar melhor função imune e neuroendócrina, tornando-se mais resistentes ao adoecimento.
O ambiente também influencia. Viver em locais com poluição atmosférica elevada ou sob estresse climático (como desidratação por ondas de calor) compromete a resiliência. Já condições protetoras favorecem maior resistência frente a doenças crônicas e infecciosas.
Gravidez, estresse e herança intergeracional
A resiliência varia ao longo da vida. A gestação, por exemplo, representa um desafio fisiológico importante: aumenta riscos de diabetes, depressão e trauma no parto. Além disso, estudos no Congo mostram que mães expostas a estresse de guerra transmitiram a seus filhos alterações epigenéticas no eixo hipotálamo–hipófise–adrenal, crucial na resposta ao estresse. Ou seja, fatores que reduzem a resiliência podem ser transmitidos entre gerações.
Envelhecimento e resiliência
O envelhecimento é o maior fator de risco para doenças crônicas. Porém, não afeta todas as pessoas da mesma forma. Pesquisas com “relógios biológicos” — baseados em epigenética e proteômica — já revelaram que órgãos diferentes envelhecem em ritmos distintos. Essa lógica pode ser aplicada também à resiliência: diferentes órgãos podem responder de maneira desigual às adversidades em fases distintas da vida.
Impactos para a saúde pública
O avanço no estudo da resiliência pode transformar a prática médica e a gestão em saúde:
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Biomarcadores de resiliência: permitirão identificar quem está mais protegido ou vulnerável, mesmo entre indivíduos com riscos semelhantes.
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Intervenções personalizadas: possibilitarão desenvolver estratégias de prevenção específicas, aumentando a “reserva de resiliência” dos mais fragilizados.
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Políticas públicas mais precisas: governos poderão estimar riscos populacionais com maior acurácia, considerando não apenas vulnerabilidades, mas também capacidades de resistência.
Assim como a compreensão dos mecanismos de doenças revolucionou a medicina moderna, decifrar os mecanismos da resiliência pode ser igualmente transformador. O futuro da saúde depende não apenas de prever quem está em risco, mas de entender quem resiste e, principalmente, por quê.
Referência:
To better combat disease, understand what makes people resilient. Nat Med 31, 2457 (2025). https://doi.org/10.1038/s41591-025-03930-1

