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Revalidando o Diploma nos Estados Unidos - USMLE Steps
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Revalidando o Diploma nos Estados Unidos - USMLE Steps

Revalidando o Diploma nos Estados Unidos - USMLE Steps

Muitos médicos hoje em dia desejam revalidar o diploma no exterior por diversos motivos, desde fazer uma especialização ou residência médica até, cada vez mais frequentemente, pela insatisfação com o rumo que o país está tomando e quererem se ver livres daqui.

Um dos destinos mais cobiçados – e o com o processo de revalidação mais complicado – são os Estados Unidos. Terminei o processo de revalidação recentemente e sintetizo os passos e algumas dicas a seguir.

Quais são as etapas do processo?

A primeira parte é a burocrática junto ao Educational Commission for Foreign Medical Graduates (ECFMG) – provar que você é você mesmo e que estudou onde estudou. Uma vez vencida essa parte, o candidato está apto a agendar as provas.

A seguir, precisamos fazer três provas – os famosos USMLE Steps. Os americanos fazem essas provas ao longo da faculdade como processo obrigatório para aplicar na residência médica – o que fazemos é igual ao que eles fazem.

São elas: Step 1 (prova teste de cadeiras básicas e a mais difícil); Step 2 Clinical Knowledge (prova teste similar às nossas de residência); e Step 2 Clinical Skills (prova prática clínica). Após o candidato ser aprovado em todas, estará apto a aplicar para a especialização que deseja.

Quando prestar as provas?

Depende do seu objetivo. A maioria dos casos caem em dois cenários – o desejo de terminar a faculdade e já ingressar em uma residência médica nos EUA; ou terminar a residência no Brasil e depois aplicar para fazer um Fellowship de 1 a 2 anos lá fora.

1) Se o objetivo for de ir direto para a residência lá, sugiro fazer nos moldes deles. Geralmente prestam o Step 1 no segundo ano de Med School (vale lembrar que lá são 4 anos de College e mais 4 de Med School), o que seria mais ou menos comparável a prestarmos no terceiro ou quarto ano da nossa faculdade. Não prestaria antes pois ainda não teríamos visto todo o conteúdo básico e nem muito depois, pois já interferiria com o internato e o conhecimento de bioquímica & CIA vai ficando cada vez mais distante. Lembre-se que com esse objetivo, deve-se tirar uma nota alta, especialmente no Step 1, para competir entre as melhores universidades. Portanto, programe-se com antecedência e estude muito.

2) Se o objetivo for para fazer um Fellowship apenas, prestaria assim que tomasse essa decisão (foi o meu caso, fiz durante o segundo ano de residência de clínica médica). O processo é longo e difícil, então não perca muito tempo se decidindo e postergando o trabalho duro – só irá atrasar seus resultados. A boa notícia é de que as notas não são tão essenciais para essa etapa. Boas cartas de recomendação e currículo contam mais. Vale lembrar que se o objetivo for morar nos Estados Unidos definitivamente, essa não é a melhor opção – o exercício livre da medicina lá só ocorre com a revalidação do diploma e residência médica dentro do país. É possível morar lá sem fazer refazer a residência, mas é necessário já ter um vínculo com algum hospital – consciente de que este hospital será seu único local de atuação e que assim que esse vínculo chegar a um fim você será convidado a retornar ao Brasil (o visto é de trabalhador temporário, com duração vinculada ao seu contrato).

O mais importante é se planejar com antecedência para não perder mais anos de uma carreira que já é longa o suficiente.

Agora, um pouco de cada etapa:

Burocracias

 O candidato deverá inicialmente se cadastrar no ECFMG. Dentro dele, os passos são tomados pelos serviços online, cujo sistema chama-se OASIS. Através dele, você preenche uma Application para cada Step e tem que pagar uma taxa generosa para cada um, além de receber uma lista enorme de documentos necessários para efetivar sua candidatura. Para que as provas possam ser marcadas, toda a documentação tem que estar correta e ser verificada pelo órgão, algo que demora cerca de 1 mês a partir do momento que eles recebem lá.

Atenção para os documentos!!! Cada vez que algo está errado é basicamente um mês perdido. Tudo é enviado pelo correio – o Sedex leva mais ou menos uma semana para chegar aos EUA e o FedEx chega no dia seguinte (se pagar a taxa expressa de mais de 150 reais). O correio regular leva cerca de 3-4 semanas e é o que eles usam para te notificar se algo estava errado. Então, certifique-se de que está tudo certo conforme o que eles pedem.

Uma parte que pode dar trabalho é caso você tenha feito as diferentes etapas de treinamento em diferentes instituições (exemplo: faculdade no ABC, Residência de Clínica Médica na UNIFESP e Cardiologia no INCOR). Você terá de coletar assinaturas de cada uma delas e – como toda instituição pública – o processo é demorado. É necessária a assinatura de um responsável da instituição cadastrado no ECFMG e a assinatura tem que ser exatamente igual. O departamento de assuntos internacionais das universidades tem uma cópia dessa assinatura, então peça para essa cópia ser anexada junto ao formulário para evitar erros de assinatura do responsável (recebi um retorno da documentação pois a assinatura do meu responsável que estava cadastrada continha também o carimbo, que não tinha sido colocado).

Uma vez que eles aceitarem tudo e as taxas estiverem pagas, as provas podem ser agendadas. Você escolhe um 3-month period para as duas provas testes já no momento da Application inicial (esse período pode ser modificado posteriormente) e depois escolhe o dia exato da prova pelo site do órgão que terceiriza a prova aqui no Brasil, o Prometric (são poucas cidades que oferecem, mas tem bastante vaga). As duas provas testes podem ser feitas no Brasil mediante taxa de $150. A prática tem que ser feita em uma das cinco cidades elegíveis dos EUA (Los Angeles, Houston, Atlanta, Chicago e Filadelfia) e tem vagas bem mais limitadas, então agende assim que possível (ela pode ser remarcada se feito com mais de 15 dias de antecedência sem custo adicional, então garanta a sua vaga).

Vale lembrar que eles são extremamente atrasados com tecnologia e demoram mais de uma semana para responder uma simples dúvida por email, nos obrigando a fazer uma ligação internacional se quiser sanar sua questão rapidamente.

Step 1

 É a prova mais difícil. Não só pelo conteúdo, que é mais abrangente do que o que é dado aqui, mas pela necessidade de notas altas. Quanto mais fresco o conteúdo da faculdade estiver, melhor o momento para fazer. Mas o estudo deve ser intenso e focado para os moldes da prova deles.

Como é a prova? São 7 blocos de 1 hora, com 46 testes cada um. Você tem 1 hora de intervalo que pode dispor como quiser ao longo das 8 horas totais. É brutal, e acaba testando mais a sua capacidade de concentração e resiliência.

Importante fazer bem descansado e com boa hidratação e comida leve ao longo do dia.

Como estudar? Existem cursinhos americanos – os mais famosos são o Kaplan (conteúdo e aulas bem abrangentes e bem explicadas) e o First Aid (conteúdo mais objetivo, excelente para revisão e consulta rápida).

Existem alguns simuladores de provas – estudei pelo USMLE World e achei excelente. O software é idêntico ao da prova real, as questões são parecidas e com explicação do assunto todo e excluindo alternativa por alternativa, além de as estatísticas serem bem feitas para avaliar desempenho.

É possível também agendar um simulado oficial, no mesmo lugar onde será feita a prova, pagando uma taxa (não lembro o valor).

Recomendo estudar firme durante um ano, assistindo as aulas e fazendo o máximo de questões possíveis. Tem que decorar tudo, mas tudo mesmo.

O que levar para a prova? RG, o papel do ECFMG, barras de cereal e balas, um sanduíche leve. Lá tem água, não dá para sair e tomar café. Não precisa de caneta.

Step 2 CK

Para quem se preparou para e prestou uma prova de residência no Brasil, essa parte não é tão assustadora. É semelhante em conteúdo e não cobra muitas notas de rodapé.

Como é a prova? São 8 blocos de 1 hora , com 44 testes cada um. Novamente você tem 1 hora de intervalo para dispor como quiser ao longo das 9 horas totais. Também muito cansativa, e com enunciados longos. Importante fazer bem descansado e com boa hidratação e comida leve ao longo do dia.

Como estudar? Confesso que para essa prova não estudei muito. Fiz ela apenas 1 mês após o Step 1 justamente por acreditar que meus estudos para residência foram suficientes, e de fato foram. Fiz o maior número de questões que consegui do USMLE World e novamente usei o Kaplan e First Aid como material didático. O simulado oficial também é uma opção.

O que levar para a prova? RG, o papel do ECFMG, barras de cereal e balas, um sanduíche leve. Lá tem água, não dá para sair e tomar café. Não precisa de caneta.

Step 2 CS 

É a prova prática. Essa prova não precisa ser feita com pressa para ter o resultado antes de submeter as applications para os hospitais, que acontece de agosto a outubro. Não há um resultado quantitativo, apenas Fail ou Pass. Por essa razão, sua aprovação só tem a finalidade de habilitar o médico, e não como classificatória, e pode ser feita até 31 de dezembro do ano (o Match sai em março do ano seguinte).

Como é a prova? Das três provas, é a mais tranquila. São 12 boxes, cada uma com um ator se queixando de algo. Você conduz a consulta (história, exame físico direcionado e um closure) em até 15 minutos (é tempo mais do que suficiente!) e depois tem mais 10 minutos para escrever a consulta no prontuário, junto com sua impressão diagnóstica e os exames complementares que gostaria de pedir. Não é necessário tratamento. Essa prova tem 3 itens de avaliação: conteúdo médico, comunicação e proficiência em inglês. Quase 100% dos americanos são aprovados e 20% dos imigrantes são reprovados – quase todos pelo quesito proficiência da língua inglesa. O mais importante é ficar tranquilo na hora de tirar a história e lembrar o que estudou e aprendeu. Lembrar de fazer um resumo do quadro para o paciente e depois do exame físico, comunica-lo da sua impressão diagnóstica com clareza e sem usar jargão médico.

Como estudar? O estudo é basicamente treinando casos. O USMLE World tem 46 casos diferentes e tem uma plataforma online para treinar o registro no prontuário que é idêntico ao real. Atente-se apenas à ortografia!!! No simulador, há correção automática, na prova não. Estude sempre pensando onde vai o Y na palavra, se tem dois Ps ou dois Ls ,etc. O First Aid também tem mais uns 40 casos.

Para treinar os casos, é vital ter alguém pra treinar junto. Pais, professores, colegas...alguém precisa personificar o paciente. A partir desse treino de muitos casos, perguntando sempre as mesmas coisas, você pega o jeito. Claro, direcionando para onde o caso te levar, mas o grosso é o mesmo. Existem centros nos EUA que fazem um curso intensivo de alguns dias para estudo que me disseram que vale bastante a pena, mas não são baratos.

O que levar para a prova? Jaleco, de preferencia sem bordados (eles dão uma etiqueta para cobrir bordados e nome no jaleco), e estetoscópio. Não precisa de caneta, comida, prancheta e outros instrumentos de propedêutica – eles disponibilizam tudo e o almoço é bem razoável, além de ter lanche e refrescos nos intervalos.

Quando todas as provas forem finalizadas, o ECFMG emite um certificado e envia para o Brasil. Porém, basta o seu número de inscrição para a maioria dos processos internos, pois eles acessam os dados online.

Uma vez aprovado nos Steps e com um vínculo com um hospital já estabelecido, ainda será necessário uma permissão do estado (equivalente ao nosso CRM) e do visto americano (de estudante ou trabalhador temporário). O processo para ambos só pode ser iniciado após a aprovação nos Steps e também exigem uma documentação específica e taxas. Os hospitais geralmente ajudam nessas etapas e até cobrem algumas das taxas.

É necessário, ainda, um Official Transcript do ECFMG para os hospitais que estão sendo contemplados. Há um formulário para solicitação, que custa 60$ e dá direito ao envio de 10 cópias para endereços da sua escolha.

Concluindo, são provas difíceis e trabalhosas – mas nenhum bicho de sete cabeças. Eu estava com muita pressa e fiz o Step 1 em janeiro, o CK em fevereiro e o CS em março. Tive muito pouco tempo de estudo para todas as etapas e mesmo assim deu certo, então façam a prova tranquilos – a nossa formação no Brasil é geralmente muito boa e equivalente aos EUA.

Espero que esse resumo facilite a vida de alguns. Qualquer dúvida estou a disposição.

Livros para o USMLE:

 

 

Gustavo Schvartsman

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